| A
POESIA COMO PEQUENA REVOLUÇÃO
Se havia um poeta no Brasil capaz de domesticar
o tédio e o cotidiano ele era José
Paulo Paes (1926-1998). O ordinário não
lhe punha medo. Onde aprendeu? Certamente com
os gregos e todas as tradições literárias
pelas quais se apaixonou. Há nele o frescor
dos italianos, o jogo estrutural dos franceses,
a sobriedade lírica dos alemães.
Sobretudo há a poesia grega de quem era
tão íntimo. Qual a sua técnica
para domesticar o terrível ordinário?
Certamente a dedicação a uma vida
literária intensa.
Traduções, edições
de livros, artigos em jornais de São Paulo,
resenhas, organizações de ensaios.
Cuidadoso crítico de poesia, deixou um
livro denso sobre o assunto: Os Perigos da Poesia
e Outros Ensaios (Topbooks, 1997). Paes é
o exemplo daquilo que Ítalo Calvino chamou
de "energia gráfica impessoal".
Nele, a escrita toma conta. A vida dedicada à
palavra ganha contornos de auto superação:
daí a escolha do epigrama, o conciso, as
imagens rápidas e precisas.
Sua Poesia Completa revela o quanto era experimental
e clássico ao mesmo tempo. Coisa rara na
tradição literária brasileira.
Em 1958, no livro Epigrama, no poema A Pequena
Revolução de Jacques Prévert,
ele já antevia um pouco da sociedade brasileira
cinqüenta anos depois: "Há queda
na bolsa, /Pânico na Sé, / Cai o
Ministério, /E foge o doutor, /O padre,
o soldado,/O rico, o ministro, /O governador."
Paes representa outro modelo de intelectual brasileiro,
aquele que não fica atado à mesquinhez
da vida sócio-literária e acadêmica.
Nele, a vida nas letras pode conviver muito bem
com a química, a biologia e a matemática.
Foi o que fez. Combinou a vida de químico
com a de tradutor de editora por 14 anos. E Paes
traduzia o que gostava e o que lia. Como poeta,
seu apogeu é o livro póstumo: Socráticas.
"Nosso Sócrates em tom menor",
dirá no prefácio Alfredo Bosi. Morto
há dez anos, o mais multifacetado dos “caipiras”
paulistas tem agora, finalmente, suas poesias
reunidas em um único volume (Poesia Completa:
SP: Cia das Letras, 2008). A Cia lançou
junto o volume de ensaios Armazém Literário.
Em 2005, propus a Dora, viúva de Paes,
escrever sobre ele e ela concordou. Expliquei
que, para iniciar a pesquisa, abrindo sua casa
para entrevistas, concessão e reprodução
de fotografias e, se fosse o caso, ter acesso
à biblioteca e aos livros do marido, dependia,
na época, de uma bolsa de estudos. Meses
depois acabei explicando a Dora que deveria deixar,
por ora, o projeto de lado. Foi um erro. Deveria
ter continuado mesmo sem incentivo algum. Mesmo
assim, com o tempo, fui recolhendo material de
investigação. Um deles foi um texto
primeiro publicado na revista Piauí, de
Rodrigo Naves, que ora aparece como o prefácio
da obra em verso da Cia. No prefácio, ele
afirma aquilo que os leitores também vão
perceber: o humor, a leveza, o tom mediterrâneo,
crítico e proverbial de Paes. O poeta,
cercado do cimento cozido na São Paulo
do século XX, vivia uma atmosfera colorida
e iluminada. Era uma existência dedicada
à palavra, recolhido com Dora e os seus
amados livros. Não gostava de círculos
intelectuais nem de debates que tendiam para o
confronto. Gostava mesmo era de conversar. Sobre
seu estilo conversador muitos já assinalaram.
Creio que José Paulo Paes é ainda
um ilustre desconhecido da grande maioria dos
brasileiros e corria o risco de permanecer assim,
caso obras como esta não fossem editadas.
Lendo o volume, somos entregues à cosmovisão
do discreto e erudito poeta. Nascido em Taquaritinga/SP,
a 22 de julho de 1926, e filho de pai português
e mãe brasileira, cursou primário
e ginásio no interior do estado até
se mudar para Curitiba em 1944 para fazer um curso
de Química. Voltou para São Paulo,
passando a residir na capital a partir de 1949,
onde trabalhou onze anos numa indústria
farmacêutica e quase vinte na editora Cultrix.
Depois de aposentando, apenas escrevia. Esta vida
aparentemente comum, no entanto, não revela
a personalidade peculiar que tinha. Avesso ao
mundo acadêmico, dirigiu uma oficina de
tradução na Unicamp, em 1987 e outra
na USP. Reservado, não era afeito à
prática do elogio mútuo que domina
parte do universo das letras nacionais, ao contrário,
preferiu investir no trabalho e na humildade.
Tem cartas trocadas com Graciliano Ramos, Jorge
Amado, Oswald de Andrade e recebeu conselhos poéticos
de Carlos Drummond de Andrade.
Além disso, Paes era um cientista das palavras.
Extremamente erudito, conhecia vários idiomas
e traduzia do inglês, alemão, francês,
espanhol, italiano, grego, holandês e dinamarquês.
É o responsável pela tradução
no Brasil de autores como Rainer Maria Rilke,
Emerson, Laurence Sterne, Lewis Carrol, Nikos
Kazantizákis, entre outros. Militou também
no Partido Comunista. Escreveu 13 livros de poesia,
traduziu 26 livros de poetas e escritores, 16
livros de ensaios e 8 livros infantis. Obteve
prêmios literários no Brasil e no
exterior, mas mesmo assim continuava parcialmente
desconhecido do grande público, até
mesmo em círculos acadêmicos e literários.
Duas forças opostas e complementares chamam
atenção na sua obra: por um lado
o estado de morte, escuro, noutro lado, a vitalidade
tropical.
O sentimento de morte de sua obra pode ser detectado
pela a quantidade de epitáfios, necrológicos
de amigos, odes a túmulos e a sua obsessão
com frases epigramáticas. No Auto-Epitáfio
escreveu: “para quem pediu sempre tão
pouco / o nada é positivamente um exagero”.
Um dia antes de sua morte, Paes escreveu o poema
Dúvida. Mais uma vez, anteviu o velho sentimento
de morte: “Não há nada mais
triste / do que um cão em guarda / ao cadáver
de seu dono. // Eu não tenho cão.
/ Será que ainda estou vivo?” O poeta
morreria menos de dez horas depois.
Já o sentimento de vida por ser acionado
pela graça e leveza de sua vitalidade.
Uma vivacidade que não significa a intensidade
nietizschiana nem o desespero pela felicidade
pós-tudo. É o humor contido e o
espírito, digamos, nacional, aquele tipo
a quem nada escapa e quem tudo é motivo
de um rápido jogo de palavras, um grunhido,
uma pitada de graça, uma "observação"
que nada deixa escapar. Como no poema O Suicida
ou Descartes às avessas: "cogito /
ego /pum!". Rápido, sem mais, em alguns
casos, poucos, o título é maior
do que o poema. Falando do Brasil, no poema, À
Moda da casa, diz: "feijoada / marmelada
/ goleada / quartelada". Em Cronologia: "A.
C. / D. C. / W.C." Em Apocalipse: “o
dia em que cada / habitante da China / tiver o
seu volkswagen”.
Essa simplicidade unida a velocidade são
as marcas geniais de José Paulo Paes. Uma
pegada que tem algo de Leminski, mas que é
muito ele mesmo. Sua incapacidade de escrever
romance é a mesma pela qual Jorge Luis
Borges afirmava não ter "temperamento
e habilidade". Paes sobreviverá na
literatura brasileira igual ao que é narrado
no final de suas histórias infantis: "por
mais de mil anos". Graça aos deuses!
Os deuses gregos?
|