O filho acabara de partir. Novamente. Essa já era bem a vigésima vez que ela o acompanhava para o vôo. Ela se lembrava que das últimas vezes não havia chorado. Lembrava de ter dito e repetido que se acostumara com as separações.
Ele havia sumido no fundo do corredor que levava aos portões e à ausência.
Ela já não o enxergava.
Virou-se e caminhou em direção ao estacionamento para alcançar o carro. Respirou fundo como todas as vezes, regulando o fluxo vital dentro do corpo. Como todas as vezes, pensou que era preferível estar só nesse momento. Era necessário adequar dentro de si os pensamentos e os passos da caminhada que ora mudava.
Ela respirou fundo. Estava chegando à saída. Do lado de fora, via as malas, os carros, os taxis estacionados, árvores mais à frente do outro lado da passagem de pedestre, o céu da cidade e… ficou travada na garganta uma lufada de ar. Um cheiro enjoativo. Alguma coisa conhecida, familiar. Uma dor.
Deu ânsia de vômito. Escureceu. Havia um corrimão. Ela se encostou. Ficou ali. Com medo de respirar.
Não se pode ficar sem respirar, ela pensou e então devagar, deixou que aquele cheiro de lugar maldito perpassasse todo seu corpo. Não fala assim. Não pensa assim. Traga a dor da vida, depois expira, cospe, sopra, grita. Não chora. Controla dentro do corpo. Olha para as árvores, a rua, as pessoas, as casas, as lojas. Encara.
Passaram-se alguns segundos, o cheiro havia se espalhado por dentro, junto com a sensação de vidas partidas. Ela olhou em volta. Pessoas transitavam. Ninguém notara. Que bom. Viu seu carro do outro lado da passagem de pedestre. Atravessou.
Ligou o carro e ouviu música até chegar em casa.