Dentro do Tempo, nem vencedor, nem perdedor. Noite larga.

No instante, sempre um: aquele que terrivelmente pede. E um eclipse. Uma obscuração. Confusão.

Quem instalou sobre a terra o terror e seus percussionistas?

Quem senão o sol assentou a violência primeira?

Quem senão o ar que nos embala?

Há sete cores na linha do horizonte.

Rouca de ti, a minha voz não cala

Sou tua arma

–  Linda e brilhante –

De que cuidas por puro agrado

E acaricias por prazer

(Sim, aquele! Que faz a beata sonhar)

Rouca de ti, a minha voz não cala

Sou tua arma

Azul como a Terra

Guardada no quentinho do fundo de tua alma

De teus olhos, teu coração

E dos braços da noite

Rouca de ti, sou tua arma

No segredo dos dias

Da relva, do céu e dentro da escritura

A que te faz sonhar tarde depois de ler

A que põe poesia nos teus discursos

A que acende a chama do teu último cigarro

Depois de um vinho tinto

Sou tua arma

Brilhante como Ela

Como era lindo o mundo, quando o sol era do tamanho do pé do homem!  Sua escolta era o canto de um pássaro e havia na terra, ainda, quem acreditasse na capacidade de ouvir e ver e saber.

Aquele que encontrei hoje parecia ter nascido de um sonho. Acreditava nas cores e disse que mesmo com todas as ilusões, as cores desconhecidas, ainda assim, não estão perdidas. Ele disse que existe algum tipo de igualdade entre os seres que preenche o dia em função do amanhã. – Entre os homens? Perguntei. – Entre todos os seres, ele respondeu. Ele não piscava e sua voz não tremia e nem ele se entusiasmava.

Fiquei perplexa. Pensei na dificuldade dos homens em admitir que amam, na paixão que urge por toda parte, nas confusões nascidas do simples medo de ser, nos perigos dos espelhos com suas forças múltiplas.

Ele apanhou umas penugens de paineira que se espalhavam feito algodão sobre o chão seco. Levantou-se e soprou em minha direção. Os fios brancos dançaram diante do sol.

- Lembra das flores? Perguntou.

- Lembro. Foi na época da chuva. Isso aqui era um tapete rosa.

- E agora esse chão nevado de algodão.

- É…

E ele não disse mais nada. Ao longe, dois pássaros saltitavam entre os capins amarelos. Quando ele se aproximou, os dois voaram piando perigo ao alto, com seus longos bicos e suas asas pretas. Então também me levantei e retomei o meu trabalho: dei água às plantas.

Imagine um amor

Imagine um pássaro

Imagine uma flor

Imagine uma flor que ama um pássaro

Então, as nuvens

O vento

A chuva

Agora uma gaiola vazia, a portinhola aberta, e as árvores

E novamente a flor

E o amor

Havia chovido e os campos haviam emadurecido de uma vez e a erva da pradaria estava gorda e luminosa e as flores se estendiam em tapetes coloridos de uma ponta à outra da paisagem. No fundo, havia alguém montado num cavalo. Pela cortina diáfana dos últimos raios de sol, só se via o balançar de um corpo erguido que percorria a linha do horizonte. Quando o cavaleiro sumiu, a luz já estava lilás.

Deitei-me ao chão e escutei as últimas vibrações dos passos do animal sobre a terra. Vi o céu imenso e ouvi o vento zunindo no vazio. Acompanhei a queda de algumas estrelas e as vi morrer na escuridão, nos confins do mundo.

Enquanto lá fiquei, senti a pontada fina e lancinante da dor no meio do ventre. E pensei que a dor devia ter a forma de uma infame criatura que se aninha no corpo das pessoas mais propícias a abrigá-la para passar ali seus dias de glória. E me assustou pensar que esta devia ser uma criatura desprovida de razão; que devia desconhecer os limites de cada ser que escolhia para suas visitas e devia crescer e inchar de tanta glória dentro do homem; e o pior de tudo era que talvez não houvesse limite.

E esses pensamentos se tornaram tão insuportáveis debaixo daquele céu que tive que me levantar e caminhar, caminhar, caminhar e foi assim que com o tempo a dor se desaninhou e desapareceu.

E foi assim que descobri as Novas Terras.

- Hoje, vão celebrar um casamento, ele disse. Que pena, essa chuva.

E da janela do café deserto, pôs-se a observar as atividades na praça à frente. E ele pensou que o Bom Deus – ou quem quer que fosse – tinha razão de fazer com que os jovens que iniciam não saibam nada das verdades da vida porque se não fosse assim, não encontrariam coragem para começar coisa alguma.

- É bela, a juventude, ele disse. E ele olhava pela janela e pensava: que pena, essa chuva.

Percebi que meu silêncio pesava. Mas não disse nada. Por causa do vai e vem de pensamentos que zuniam feito enxame de abelhas em minha testa.

- Vai tomar mais alguma coisa? ele perguntou.

Fiz que não com a cabeça.

Bem antes do amanhecer, eu já havia entendido que aquilo que eu buscava era algo que eu sempre soubera. Que  toda coragem é uma forma de fidelidade. Que é sempre a si mesmo que o covarde renuncia primeiro. E que depois disso, todas as traições se tornam fáceis.

Acendi um último cigarro. Traguei longamente. Depois, peguei meu casaco e antes da orquestra começar a tocar, saí caminhando na chuva fina.

- De onde você vem?

- Marseille, sul da França.

- E o que lhe trouxe aqui?

- Amor

E os rostos se iluminavam: Ah! Que bom! Boa sorte!

Muito, muito tempo depois, eu me lembraria dessas pessoas, desses sorrisos e teria ótimas razões para meditar sobre a bondade de onde brotaram; pois tiveram o poder de proteger, de conferir honra e dignidade e de afirmar meus propósitos e tiveram o poder de me curar e de me guiar quando em mim todos os recursos já estavam esgotados.

O filho acabara de partir. Novamente. Essa já era bem a vigésima vez que ela o acompanhava para o vôo. Ela se lembrava que das últimas vezes não havia chorado. Lembrava de ter dito e repetido que se acostumara com as separações.

Ele havia sumido no fundo do corredor que levava aos portões e à ausência.

Ela já não o enxergava.

Virou-se e caminhou em direção ao estacionamento para alcançar o carro. Respirou fundo como todas as vezes, regulando o fluxo vital dentro do corpo. Como todas as vezes, pensou que era preferível estar só nesse momento. Era necessário adequar dentro de si os pensamentos e os passos da caminhada que ora mudava.

Ela respirou fundo. Estava chegando à saída. Do lado de fora, via as malas, os carros, os taxis estacionados, árvores mais à frente do outro lado da passagem de pedestre, o céu da cidade e… ficou travada na garganta uma lufada de ar. Um cheiro enjoativo. Alguma coisa conhecida, familiar. Uma dor.

Deu ânsia de vômito. Escureceu. Havia um corrimão. Ela se encostou. Ficou ali. Com medo de respirar.

Não se pode ficar sem respirar, ela pensou e então devagar, deixou que aquele cheiro de lugar maldito perpassasse todo seu corpo. Não fala assim. Não pensa assim. Traga a dor da vida, depois expira, cospe, sopra, grita. Não chora. Controla dentro do corpo. Olha para as árvores, a rua, as pessoas, as casas, as lojas. Encara.

Passaram-se alguns segundos, o cheiro havia se espalhado por dentro, junto com a sensação de vidas partidas. Ela olhou em volta. Pessoas transitavam. Ninguém notara. Que bom. Viu seu carro do outro lado da passagem de pedestre. Atravessou.

Ligou o carro e ouviu música até chegar em casa.

Rezamos um terço para a irmã do largo sorriso que estava entre lá e cá, um terço de Ave Maria

Rezávamos e eu pensava – ave Maria, ora já não pensava, apenas sentia, seguia, cria, nada dizia, ora apenas repetia

- e algo acontecia

Rezávamos feito abelhas a fazer mel – abelhas-espírito na colmeia-corpo, segundo Rumi e sua intérprete

- e, mais ave que nunca, flutuava Maria…

(Foi o Pai que disse)

Então seguimos rezando noite adentro, segurando a fé com as duas mãos. E o que acontecia, de fato, era que crescia, dentro de cada um, um grande coração chamado Maria.

Dias assim

Meus sonhos choram lágrimas vermelhas

Meu corpo teme sentir

E meus olhos perscrutam tudo além

Entre uma vida e outra, um deus dança