O anjo agora é um esqueleto de longo vestido rendado. Frida e sua coluna partida ganharam asas. E eu sigo procurando a imagem de Diego que nos libertará.

Lá fora, formas e volumes estão cada vez mais vulgares. Olhares habituados. Concordância geral.

Está tudo bem…

Onde estão todos os anjos

Que vão buscar as flores dentro do corpo dos vivos

Que cantam e brotam músicas lá onde está seco

Que fazem chover de amarelo algumas horas mais?

Os anjos que assustam o irmão na janela

Que correm soltos entre os matos em chamas

Que sopram frescor sobre os minutos de susto

E pingam gotas de ouro sobre as meninas feias

Que tocam os sinos com os meninos levados

Para acordar o mundo

Pedir a volta dos anjos

Olhar para cima e sentir a força

Velha como a terra

Doer só o necessário

Tatear em volta e, ao buscar o que falta

Pôr palavras no caminho na árvore na nuvem

Apanhá-las junto com o resto

E com a pena caída de uma asa

Voltar a escrever à luz de vela

O mundo adormecido

Pode-se sempre tentar a religação,

Mesmo que de forma imperfeita,

Entre os fios do diálogo

Logocêntrico e ontomitológico

Pois todo saber é fundado nessa unidade primeira

E total

A palavra é palavra-viva

Na hora em que um pedaço do horizonte se fez lilás, enquanto do lado oposto tudo ainda queimava em brasa, eu acabara de concluir o último encontro com um desses alunos cujo olhar clama por algum senso de confiança e segurança. O crepúsculo soava-me vasto, abismal. Era minha vez de buscar o bem-estar das respostas. Sondava o espaço. Buscava no invisível o guia dos meus passos, do ritmo, da direção, da meta. Sem clamor. Porque ninguém acudiria.

Segui por muitas horas, e muitos dias se passaram para dentro do vórtice. Anos, quem sabe.

Sei que logo mais à noite, estava eu a fumar e contar inutilmente as estrelas quando fui atingida por uma flecha mensageira. Ela trazia na ponta uma rosa. Uma rosa linda, de pétalas molhadas.

Alguns não vivem na sociedade, nem no sonho… vêm de um tempo anterior, de alguma esperança desconhecida na ingenuidade. Nunca se decepcionam e seus olhos se enchem de lágrimas a cada atitude irresponsável, cada falta de cuidado, cada sinal de egoísmo.

São os mais nobres. E nos inquietam.

Todas as estradas conduzem a si mesmo. Em qualquer lugar do mundo, uma só voz, uma só imagem, um só sentimento.

Sou o que sou.

E ando em boa companhia.

Em poucos dias virei o caderno do avesso. A língua estrangeira me emudeceu e escutei o canto dos homens daqui. Caminhei, caminhei, e a cidade me levou consigo até que tudo se apagasse adiante. E atrás. E não distingui mais entre a natureza da água, o rumor da gente e os concretos, entre as cores dos tecidos, dos ceus, dos canais. As comidas adquiriram sabores terríveis, senti na boca e no corpo todo histórias das caveiras, cruzes e cavalos que cruzei pela rua.

Então conversei com os mortos: encontrei o pintor e descobri que seu guardião também era o meu, e acho que foi por isso que vim até aqui, ouvir o novo canto dos homens.

Encontrei o cavalo de Bottero e o vendedor de flautas – que belo, pensei, um vendedor de flautas. E ele me contou a história de “su pueblo arriba”, nas montanhas. Tudo o que é belo, também é triste.

Em Monterrey, tudo se apagou adiante e atrás. Depois, uma após a outra, as telas se acenderam.

A companhia do morcego trouxe a revelação da noite. O resto permaneceu. Houve então o fim da mendicância e meus molambos brilharam no caminho. Segui o rumo da floresta. Laboral. E  disse baixinho aos milhares de estrelas: “vossa indiferença curou minha angústia”.

Apartar-se. Apartar-se de todos.

Uma sombra de tristeza paira sobre as florestas e as águas tranquilas.

O outono lança seu sopro gélido aos dias brilhantes.

É maio: nenhuma folha parece fenecer…

Os domingos andavam eternamente ensolarados. Não havia mais fúrias e nem as águas de mim conseguiam jorrar. Apenas o estático, o vagar das horas, a espera sem rumo.

– Os casais já se beijaram e se apartaram; as odaliscas exibiram feitiços em larga escala; azuis e vermelhos berrantes; gritos e uivos, lágrimas esparsas, vômitos, risadas, tonturas e carícias –

Agora era o silêncio do sol

O leve aperto das perdas

O irremediável

Agora

O que assustava

Era o vazio