O homem que dançava
Já era tarde quando soubemos: deixamos de sonhar…
Corria azul a água límpida,
o mel,
a lama.
Deixamos de sonhar
porque Tudo era verdade.
E ele recitava versos,
batendo com o pé,
segundo a medida das coisas
que dizia:
- A grande baleia morta! O campo verde e o cachorro negro!
E o país tão grande
que não havia fronteira
para nuvem alguma!
Já era tarde quando soubemos
e Tudo era verdade.
***
O nome das coisas
Alguém disse
que não se pode dizer
o que não é verdade.
Outro disse
que só se pode dizer
o que se parece.
A poesia no seu calar
diz tudo aquilo que o outro
não diz – e aquilo que não vê;
Aquilo que só o ouvido sabe.
***
Realidade
O nome dado ao indizível
A tocha acesa no escuro
A abertura do caminho
O poeta recolhido mastiga as estrelas
Mil anos nas masmorras de seu estômago vazio
O poeta encolhido adensa a matéria-prima
Um milésimo de segundo e o impossível rasgo
E as doutas conversas a questionarem a pertinência do poema
E os vãos falatórios a ignorarem a pertinência do poema
Lá vem o poeta, dependurado na beira do abismo
Imensa boca aberta a inspirar o sopro do alto
Lá vem o poeta com seu cuspe grosso
Gritando na praça o pão dos indigentes
Correm com nojo as moças a duvidarem da higiene do pão
Riem cegos os homens a desprezarem a higiene do pão
Lá vem o sonâmbulo, o acrobata, o fazedor de mundos!
Caminha solitário
E atrás dele, hesitante, vem vindo o povo…

