Talvez, para não mais se decepcionar, não esperar nada do outro. Exigir apenas de si mesmo. Desprender a si mesmo da pequenez dos homens. E seguir amando o outro, como se nada precisasse mudar.

Ouvi o Pai dizer que aquele que cresce, sempre sofre mais.

Ouvi o Pai dizer que a dor da humilhação… engrandece!

Chamas! Chamas!

Luz! Luz!

O homem iria sem máscaras

Iria livre, transparente

O corpo leve e o espírito ao vento

Veríamos nele o que há de forte,

De mágico

Sua fala seria música

Seu amor, simplicidade

Seu sopro, fogo!

Olhar-se-ia para o rosto do homem

Como se olha para a nuvem branca no céu

A palavra mistério seria o mundo adiante

Não haveria mais medo

Nem pensamento

Não haveria interrupção

Lapso

Tristeza

E eu seria parcela incandescente da vida entre Eles!

A Força calma

Amar com a força calma de um mar

Amar em paz

Amar e não esperar nada

Serenar-se dentro e fora

E ao comer, a cada grão, agradecer a Deus

Lembrar também das lições do Velho

E agradecer aos homens, a cada grão

Olhar para aquele que dorme

Sem esperar que acorde

Olhar aquele que descuida

E não lamentar nada

Deixar aquele que trama

Tramar contra si mesmo

Permanecer em silêncio e adentrar a música

Chamar a ingenuidade

Serenar-se com ela e não deixar de amar

***

Lição para o Amor

Não diz nada, aja.

A vida não é feita de encantamentos passageiros

De palavras à toa

Tampouco de alívios momentâneos

A vida pesa, como a espada do guerreiro

E se pesar todos os dias, não pára, não reclama:

Acostuma-te e caminha

Mas aprende a lição da flor:

Ela nunca se embaraça com pesos desnecessários

Há pesos necessários à beleza da flor e do amor: o perdão, a compreensão, o acolhimento, o cuidado e as borboletas

Porque sempre acabam alçando vôo contigo

Há pesos desnecessários ao amor e à beleza da flor: a tirania, o jogo, o ciúme, a competição, o egoísmo e o mofo

porque alguns não te querem cuidar, só te querem comer: pornéia.

***

Ao Poeta e aos passarinhos

Palavras, palavras…

O que me encanta no poeta não são as flores e os passarinhos

É a força do Construtor de Mundos

O saber-se inteiro, o homem livre!

Azaléias, azaléias…

O que me encanta nas flores não é o perfume nem a fragilidade

É a força da resistência, a convicção das raízes

O amarelo radiante, o vermelho vida

O infinito azul no coração das pétalas

Quanto aos passarinhos…

Que voem e voem e desapareçam da minha frente

Que sumam e levem consigo o espetáculo de sua pequenez

E que na terra que molho todos os dias

Possa permanecer apenas a imagem de seus altivos vôos!