Vivemos assim

Sem viver realmente

Luzes intermitentes

Em espraiada letargia

Até que num só dia

Por uma intermitência dessas

Quase um acaso

Uma vida inteira amanhece virada do avesso

Já viu algo mais perfeito que um floco de neve?

Complexidade

Simetria

Conformidade consigo próprio

Originalidade

E o silêncio dos nossos passos na primeira neve?

Existe algo mais perfeito que esse sonho?

Descrevi um jardim cheio de borboletas e flores ofuscantes. Só por causa daquela visão vermelha à beira-mar.

Os que leram acreditaram.

E foram felizes…

Eu, no outro hemisfério, segui buscando aqueles trópicos.

E também fui feliz.

Outramente.

***

Imaginava Yayá negona.

“Que nada! Ela era bem alvinha, das pernas finas coitada!”

Queria conhecê-la.

“Não dá. Ela já se foi”

Mas onde mora Yayá? – eu perguntei.

“ por aí, por toda parte, vai saber!”

Não entendi nada.

Tranquei meu coração a sete chaves.

***

Os homens não habitam o mundo

Os mundos habitam o homem

E ele capta palavras

Capta palavras

Capta palavras

E se cala

Até o próximo poema

Durante muitos anos, perdi a gargalhada. Vivia sorrindo, sem graça.

Somente com os ventos espiralados, lembrei que ela se encontrava guardada no bolso de uma calça.

Foi uma surpresa e tanto.

***

Custei a aprender a engolir as palavras.

Acho que foi por isso que, naqueles tempos, não morri nenhuma vez.

***

Mais uma esperança: haveria outras noites além da última e seria possível beijar um estranho e amanhecer amando.

Valia a pena.