No poems
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O que fez Dom Antilho Brucho ao se aposentar
Dom Antilho Brucho andava sumido por que nada tinha a dizer. De vez em quando entrava na fase muda. Abrigava-se no seu quarto como se fosse uma orquídea em viveiro silvestre e ali então se detinha. Lia um, dois, três, quatro livros seguidos sobre a Arte de Desaparecer e, sem emitir gesto de escrita, contava histórias para o filho.
Durante o inverno, sobretudo na lua decrescente, consultava diariamente o horóscopo para saber dos céus. Acreditava que as elipses da lua e a distância do sol, na época fria, orbitavam perigosamente os seus humores. Era algo que afetava principalmente o seu sorriso e o calor do peito. Aprendera desde cedo que o melhor dos jornais continua a ser a página de esportes e as caça palavras, seguidas dos horóscopos e as receitas culinárias.
Dos tangos e sambas que ouvia, encantava-se pelos trágicos e pelos instrumentais. À causa de poder ser ereto na vida, começou a andar com uma bengala logo que completou sessenta anos. Em seguida, entrou numa escola para aprender a ser estátua. Logo que se aposentou, passou a trabalhar nas ruas, fingindo ser estátua, semelhante a estes artífices que pintam o corpo ou se vestem com indumentárias e sobem em pedestais nas praças e avenidas e ali ficam a receber moedas e flashs fotográficos.
Seu desejo por ser estátua era, no fundo, o anseio de passar desapercebido, calar e evaporar-se. Se queres desaparecer aprende antes longamente a ser espelho de ti mesmo, dizia o seu professor de estátua. Dom Antilho Brucho exercitava-se diariamente diante da televisão. A arte de ficar parado e inerte exigia uma pratica continuada de expiração mais do que de inspiração. Era um estado de ir sumindo em si mesmo até sumir de vez.
A imagem que Dom Antilho Brucho decidiu assumir publicamente como estátua, logo que terminou o curso, foi a de Carlitos, pois poderia utilizar a sua bengala tranquilamente e parecer pobre, ingênuo e idiota como verdadeiramente sabia que era. Foi quando ele finalmente alcançou a felicidade.
Quando um pedestre jogava-lhe uma moeda, ele gentilmente tirava o chapéu e rodava a bengala. O sorriso de Carlitos traduzia a piscadela de olho que dava. O pedestre entendia imediatamente. A flor e o segredo dos puros não tem idade para desabrochar.
Seguindo os conselhos do Dr. Pasavento
O estado que mais condiz com os tempos atuais é o do desaparecimento. Ou a invisibilidade.
Aparecer. Parecer na aparência é a norma da visibilidade. Nunca na história humana se fabricou tanto espelho. Nunca foi tão importante a superfície do lago. “Olho-me no espelho, logo existo”.
Sumir no mapa é uma das utopias do poeta. Mas como se ele é um dizente? O poeta não passa de um grito sem rosto. Um grito diante do espelho. Mas diante do espelho não aparece ninguém. Essa é então a sua voz. Essa é a sua aparência.
Se vive a tal ponto o aparecer que desaparecer virou utopia. Se vive a tal ponto são-paulo que shangrilá já não existe mais. Mas que lugar melhor do que são paulo para o desaparecer ou para o aprender a ser ninguém?
Lembranças extemporâneas
1.
Depois de reclamar da vida, o amigo tenta acalentar o outro:
- Calma, amigo, há malas que vão pra Belém.
2.
Certas batucadas não merecem o nosso samba.
3.
No México, dos doze espirros que dei, somente um não recebeu “saúde”. Sofri apenas um empurrão na rua, mesmo com gente pra todo lado. Logo que cheguei no Brasil e espirrei, ninguém desejou “saúde”. Embora saiba que aqui também se deseja saúde, o fato de ninguém ter deixado de assinalar a palavra me fala para o fato da educação sanitária mexicana ser mais eficiente. Ou terá sido os efeitos da gripe suína?
4.
Pense num povo que gosta de bigode! E há de muitas formas, tamanhos e estilos. Dos mais fininhos próximos aos beiços aos volteados, alargados e cheios. E as barbichas, grisalhas, escuras ou pontudas despencadas pela face do sujeito. As navalhas e os barbeiros são treinados em cortar rente e aparar os volumes e adornos, cada qual mais delgado que o outro, visando dar a face a marca e um desenho pessoal, ora no formato do bigode dos barões, ora com a aparência dos ciganos, ora com a visage dos almofadinhas. O bigode mexicano está no cinema, nas artes plásticas e na cara do povo. Que me perdoe o sexo feminino, mas me parece que até as mulheres curtem um bigodinho.
Saudades
Temos encontrado a saudade e a luta em todas as partes. E se isso - feliz ou infelizmente - ocorre assim é porque estamos insistindo em algo parecido com o amor, mas também em algo parecido com a distância e a solidão. O beijo ausente, estrangeiro, que afaga a nossa separação estará sempre à boca? Toda a vida que os nossos corações se tocam, dois golfinhos pulam felizes no azul das águas do mar.
Raúl Gomez Jattin (1945-1997)
Dois poemas de Raúl Goméz Jattin
(mais informações sobre o poeta aqui).
1.
Conjuro
Os habitantes da minha aldeia
dizem que sou um homem
depreciável e perigoso
E nao andam muito equivocados
Depreciável e Perigoso
Isso faz de mim a poesia e o amor
Senhores habitantes
Tranquilos
que só a mim
causaram dano
2.
Íntimas perguntas
De profissao?
Louco
De vocaçao?
Lerdo
De ambiçao?
Parco
De formaçao?
Anjo
e nem ainda assim
pude compreender
a virada dos olhos de Jorge
De fornicaçao?
Lento
Diário do México
Algo está acontecendo no país que tem às 9h da manha filas para os museus. Do meu hotel até a estacao do metrô mais próxima, tenho de passar, obligatoriamente, por dois museus: o Belas Artes e o do Banco Mexicano. Ambos tinham hoje filas gigantes. A impressao é que os museus funcionam como praias na Ciudad de Mexico.
O museu Dolores Olmedo, com 100 quadros de Diego Rivera e 27 de Frida Khalo foi a minha praia no dia de hoje. Quando a milionária Dolores Olmedo comprou de Rivera os seus quadros, ele pediu para ela levar também as 27 telas de Frida. Um Frida à época náo valia nada. Ela ainda era uma desconhecida. Hoje, no universo das artes, é uma rainha. Os quadros de Frida nao estavam em exposiçao no Dolores Olmedo. Estavam na Europa, rendendo Euros para o museu. Frida Khalo virou um grife: xícaras, travesseiros, calcinhas, cuecas, brincos, pós de maquiagem, camisetas, vestidos, etc. Sua imagem é também de uma santa. Sofreu em vida e é reverenciada em morte. É bem o mito cristáo, que aqui cabe perfeitamente.
Outro artista que me impressionou bastante foi José Guadalupe Posada (1852-1913). Na Tv Mexicana ele protagoniza spots sobre a arte mexicana, sendo tratado como mestre e “capo” de uma geraçao de “Imaginantes”. Ele nasceu Aguascalientes, no México central. Começou a trabalhar como litografia aos 37 anos de idade. Posteriormente foi trabalhar como ilustrador em jornais. A sua obra é caracterizada pelas imagens com caveiras e gentes humilde. (Recomendo inclusive ao Tácito que o use como ilustraçao deste vez.). Posada merece atençao. Quando criança, todos os dias que ia para a escola, parava para ver um impressor perto da sua casa. Posadas se interessou pelas artes gráficas e criou um estilo próprio de caricaturas, ao mesmo tempo, ironico e macabro. Diego Rivera autoproclamou-se seu filho e uma geraçao inteira de artistas plásticos mexicanos foram influenciados por ele.
Volto a repetir: algo está acontecendo em um país que tem museus lotados. Ser habitualmente sensível às artes plásticas é uma bençao!
Uma palavrinha sobre os escritores. Pois bem, Juan Rulfo aparece muito. Outro que está sempre em destaque é Garcia Marquez, o coronel do pedaço. Mas Paulo Coelho está forte, acredita? Octavio Paz está em todas as prateleiras com lançamentos e reediçoes. Luis Cernuda, que apesar de ter nascido em Sevilha, é considerado daqui, tem muita visibilidade. Sor Juana Inés De la Cruz tem muitíssima aceitaçao. De Alvaro Mutis ouvi falar pouco assim como de Carlos Pelicér. Ouvi bons comentários sobre Sergio Pitol e ele pareceu à primeira vista um autor interessante. Também náo conhecia Elena Poniatowska, mas a mulher parece ser a grande dama da literatura mexicana. Carlos Fuentes também é forte e os autores mexicanos com mais destaque do momento sáo Francisco Martin Moreno e Angeles Mastretta. Esta última escreveu “Mujeres de ojos grandes” e “El mundo iluminado”, acho que publicado pela Alfaguara. E Francisco Moreno escreveu “México mutilado” e “Las cicatrizes del viento”, entre outros, da Alfaguara com certeza. Estou cometendo uma tremenda injustiça citando apenas estes dois. Na livraria Torre de Lulio, o seu livreiro-mor, José Luiz, me apresentou um monte de escritores e poetas, entre eles Marcos Antonioo Mendez Oca, que morreu ano passado. A poesia do homem é caudalosa. Daquelas que adjetiva os olhos. Também nao conhecia José Juan Tablada, que morreu em 1945, e também nao conhecia a poesia pré-hispanica produzida pelos Aztecas, Olmecas, Maias e Mixtecas. Estas poesias estao sendo recolhidas agora em volumes através de pesquisas históricas.
Tocando o meu organillo
Por diversas razoes, tenho zanzado pelo México por esses dias carregado pelo sentimentos das experiencias artísticas. Sem dúvida, o que tenho observado, escutado e vivido aqui, daria para escrever um livro. Mas nao tenho vocaçao para isso. Em todo caso, já tenho dois pequenos cadernos cheios de anotaçoes. Todas sem futuro. Algumas delas vou partilhar com vcs. Elas nao passam de impressoes.
Frida
Também sou daqueles que é apaixonado por Frida Khalo. Como nao amar esta mulher? É o que me pergunto depois de sair da Casa Azul, na calle Londres. Trata-se de uma edificacao de 1750, onde ela e Diego Rivera viveram os anos de seu amor. A casa, agora transformada em Museu, é de arrepiar. A energia de Frida está em toda a parte. Ali vc encontra a sua cadeira de rodas, o cavalete onde pintava, as moletas, a cama com o espelho encima, a máquina de costurar, os pincéis, as tintas ainda borradas na cor.
Frida morreu em 1954 e Diego em 1957. Antes de morrer ele legou tudo o que estava na casa à mecenas Dolores (Lola) Olmedo. Pediu a Lola que depois da sua morte ela deixasse parte dos aposentos da casa fechada por 15 anos. Lola obedeceu. Passaram-se mais de 15 anos, no entanto, Lola morreu em 2004 e naquele mesmo ano os compartimentos (banheiros, quartos, etc) foram abertos. Apareceram entao mais de 28 mil documentos, 6.500 fotografias, 300 vestidos de Frida e 400 desenhos e obras inéditas.
Nao conhecia a faceta de Frida fotografa. Foi bom descobrir. O seu pai era fotógrafo. E ela aprendeu a arte. Há um zoon do olho de Diego Rivera. Na estante de livros de Diego, podemos encontrar um livro do Portinari, “His life and arte”, editado pela Chicago Press. Nao consegui ver o ano. A claridade da casa, ampla e azul, nos agita em muitas claridades. Fiquei com forte impressao de que ali moravam bruxos, náo gente. O que me atentou para isso foi a quantidade que gatos que vi pela casa. Mas talvez eu estivesse delirando.
Há muita emocao e dor em toda a parte; muita arte também. As paredes eram desenhadas e escritas por ela. As da cozinha eram telas para a criatividade. Uma das frases, diz: “Muchas veces me simpatizan más los carpinteros, zapateros, etc. que esa toda manada de estupidos dizque civilizados, habladores, llamados gente culta”.
Algo que me chamou a atencao é um recorte de jornal, de 19 de outubro de 1942, colocado em exposicao. No jornal, que nao consegui identificar qual, Diego Rivera revela o segredo para fazer a corte às mulheres hermosas. O longo título da matéria anuncia: “El celebre muralista jamás ha sofrido por ser hombre feo”. Isso parece realmente verdade. Entre as fotos dos ex-amores de Rivera, espalhadas pela casa, aparecem mulheres cinematográficas. Uma delas é Dolores Del Rio. Na própria Casa Azul, viveu também Leon Trotsky, que depois se mudou para uma rua ali perto. No quarto onde Trotsky habitou, Diego viveu os últimos anos de sua vida.
Mas era Frida quem me movia pelos cômodos da Casa Azul, me levando pela mao da imaginacao, como quem incita a entender a sua arte, alegria e dor, simultaneamente. Nos corredores, quartos, varandas e alpendres, dava pra imaginar ela fumando o seu cigarro, quieta, na cadeira de balanco ou sentada nas muretas do patio interno, com seus gatos no colo. Os gatos estam lá ainda hoje. Frida também. Só nao sente quem nao quer.
A santa muerte
Quis o destino que eu viesse ao Mexico. De mochilas e de sandalias fui procurar Juan Gelman. Poucas vezes um paìs me desconcertou tanto quanto o Mexico. Nem vinte e quatro horas aqui e eu ja havia sido nocauteado com catorze emocoes…
Os homens coletivamente se benzendo quando o aviao tomou pè na pista; A educacao e a gentileza do povo, simpàticos ao ponto do inacreditavel. Ao chegar compreendi logo que a santa padoreira deste povo è a Santa Muerte. Hà altares pra ela em todos os lugares. Caveiras sao artigos de lembranca do Mèxico, penso eu, turista aprendiz.
Os jornais aqui fafam dos 24 mil mexicanos que morreram em quatro anos na fronteira com os Estados Unidos. Aqui sò se fala do trafico de drogas. A campanha na midia è pesadìssima.
Pesadìssimo como a comida mexicana. Que coisa inacreditavel è o tanto que este povo gosta de comer. Foi dificil achar uma lan house aqui. Dificilimo. No entanto, lugares para o comer frugal, vc encontra em toda a parte. Atè agora provei pombazos, gorditos, campachanos, pachuquena, tecolotes, moletes, arrocheras, chilaquiles, cebiches… Náo me pergunte o que è isso.
No sitio arqueologico de Teotihuacan, dois mexicanos reconheceram pelo meu espanhol de quinta categoria que eu sou brasileiro. Como o Brasil è um paìs imenso, quiseram saber de onde eu era. Disse “Natal”, e eles ficaram ainda mais perdidos. Nao sabiam onde ficava. No parque, diante da piramide do Sol, pensei na terra do Sol. No alto da piramide vc pode se sentar bem no cocoruto dela e ficar ali se quiser o dia todo.
Fui tambèm ao local onde os Aztecas faziam sacrificios humanos. A diferenca dos antigos para nosotros com relacao aos sacrificios humanos, è a de que eles ritualizam e nòs nao. Assumimos que matamos por prazer. A cultura que governava este lugar a mais de dois mil anos atràs, era a Sociedade da Serpente Emplumada. Casta de sacerdotes, guerreiros, comerciantes e magos. Todos eles descendentes dos Atlantes.
As piramides sao fascinantes. Poder andar e contemplar o sitio arqueologico è algo divinamente sinistro. Hà uma outra cidade abaixo, com tuneis, cavernas, pequenos templos, moradias. Náo fossem os turistas e os vendedores de bugigangas, tudo seria muito silencioso. A calcada de 4 kilometros q segue por todo o sitio arqueologico è chamada calcada de la Muerte. Tirei muitas fotos mas nao sei postar, entao vou dar um jeito de aprender assim q voltar ao Brasil.
Uma coisa me deixou feliz. A certa altura, quando hablava o meu espanhol mal arrumado com um senhor, Eloi Moreno, guardei o seu nome, ele disse “Vocè do Brasil, nao è?” Disse que sim. Perguntei como ele tinha advinhado. Ele respondeu: “Todo brasileiro fala doce!”
Veja sò que maravilha! Viva o povo que adora a Santa Muerte!
m que se benzeu quando
