Citação

Raúl Gomez Jattin (1945-1997)

quinta-feira, junho 10th, 2010 | Citação | 1 Comentário

Dois poemas de Raúl Goméz Jattin

(mais informações sobre o poeta aqui).

1.

Conjuro

Os habitantes da minha aldeia
dizem que sou um homem
depreciável e perigoso
E nao andam muito equivocados

Depreciável e Perigoso
Isso faz de mim a poesia e o amor
Senhores habitantes
Tranquilos
que só a mim

causaram dano

2.

Íntimas perguntas

De profissao?
Louco
De vocaçao?
Lerdo
De ambiçao?
Parco
De formaçao?
Anjo
e nem ainda assim
pude compreender
a virada dos olhos de Jorge

De fornicaçao?
Lento

A imagem em um poema de Rilke

terça-feira, abril 13th, 2010 | Citação | Nenhum Comentário

Dedicatória feita por Rainer Maria Rilke a uma desconhecida a 4 de dezembro de 1919. Tradução do alemão por Antonio Pau e do espanhol por mim. Retirado do livro Poemas en prosa - Dedicatórias. Lintro Poesia. Espanha, 2009.

 

 

Tudo se alheia ao ser convertido em imagem.

Assombrados, seguimos dizendo o que é o verdadeiro.

E mudamos com ela ao passo dos anos.

Fascina-nos sendo assim, invisível.

 

Por isso, não fiques inquieta se alguma vez a perdes.

O coração vai mais além do que o último horizonte.

Se ouvires tua própria voz subir de tom,

Canta assim mesmo o mundo e as estrelas.

Exercícios de criança a la Manoel de Barros

segunda-feira, abril 5th, 2010 | Citação, Pensamento-poema, Poemas, ínfima estética | Nenhum Comentário

 

 

 

Sim, eu já me queimei com chocolate.

 

Toda queimadura entorta. Quanto mais homem

Mais menino. Quanto mais menina mais mulher.

 

Durmo sobre os óculos. Tudo acorda torto.

 

C’óculos tortos saio às ruas. Vejo logo

A culpa não é do mundo.

Meu olhar é que encurvou.

 

Todo mundo parece entortado. Às vezes,

revezes nos levam às fezes. Eita que

Poema mais abestado!

 

Só pode. A culpa é do Manoel de Barros.

Chego na livraria e leio seus Exercícios de ser Criança

 

“No aeroporto o menino perguntou:

- E se o avião tropicar num passarinho?

O pai ficou torto e não respondeu.

O menino perguntou de novo:

- E se o avião tropicar num passarinho triste?

A mãe teve ternuras e pensou:

Será que os absurdos não são as maiores virtudes

da poesia?”

 

Daí que entorto meus olhos de criança

nos absurdos da poesia.

Meus óculos estavam ajustados de Barro.

Sim, tenho um filho chamado Manoel.

 

Sim, eu já me queimei com chocolate.

No fogo de um poema abestado

Menino torto Manoel de Barros.

Lao Tzu - Século VIII a.C.

sexta-feira, março 26th, 2010 | Citação | 1 Comentário

Quem pode falar do sutil?

Para isso é necessário que as pessoas saibam o que as palavras significam.

Mas aqueles que sabem o que as palavras significam não falam com palavras.

Antonio Porchia (1885-1968)

sexta-feira, março 5th, 2010 | Citação | Nenhum Comentário

O mistério apazigua meus olhos, não os cega.

***

O fundo, visto com fundura, é superfície.

***

Deus deu muito ao homem; mas o homem queria algo do homem.

***

Às vezes penso em ganhar altura, mas nunca escalando homens.

***  

O que é pago com nossas vidas nunca é caro.

***

O universo não constitui uma ordem total. Falta a adesão do homem.

***

Minha pobreza não é total: falta eu.

***

Um coração grande se enche com muito pouco.

***

Ferir o coração é recriá-lo.

***

A árvore está só, a nuvem está só. Tudo está só quando eu estou só.

***

O homem, quando é somente o que parece ser o homem, quase não é nada.

***

O homem quis ser um deus, mas sem a cruz.

***

As quimeras vêm sós e se vão acompanhadas.

***

Saber morrer custa a vida.

***

Às vezes necessito da luz de um fósforo para iluminar as estrelas.

***

O meu primeiro mundo o achei em meu escasso pão.

***

Toda pessoa anônima é perfeita.

***

Todo joguete tem direito a romper-se.

***

Não provei nenhum vinho superior a meu sangue.

***

Quem não enche seu mundo de fantasmas, fica só.

***

Tudo o que levo atado a mim, se acha solto em qualquer parte.

***

Se eu fosse como uma pedra e não como uma nuvem, meu pensar, que é como o vento, me abandonaria.

***

Meu pai, ao partir, presenteou cinquenta anos à minha infância.

***

Quem faz um paraíso de seu pão, de sua fome faz um inferno.

***

Quando eu morrer, não me verei morrer, pela primeira vez.

***

Quem conserva sua cabeça de criança, conserva sua cabeça.

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Algumas coisas, para mostrarem a sua inexistência, se fizeram minhas.

***

O meu, quando não pode ser igualmente de outros, não sei porque é meu.

***

Pensar em um homem se parece a salvá-lo.

***

Um pouco de ingenuidade nunca se afasta de mim. E é ela o que me protege.

***

Todos os meus pensamentos são um só. Porque nunca deixei de pensar.

***

Quantos, cansados de mentir, se suicidaram em qualquer verdade.

***

Tenho sido para mim discípulo e mestre. E tenho sido um bom discípulo, mas um mal mestre.

***

Sim, isso é o bem: perdoar o mal. Não há outro bem.

***

O menino e o homem, diferentes em suas dores, são iguais em seus prantos.

***

Seguirei eliminando as palavras  más que coloquei em meu todo, ainda que meu todo fique sem palavras.

Rumi (Séc. XIII - Poemas Místicos)

sexta-feira, fevereiro 19th, 2010 | Citação | Nenhum Comentário

 

“Para mudar a paisagem

Basta mudar o sentimento”.

Nada demais ou quase tudo

sexta-feira, fevereiro 12th, 2010 | Citação | Nenhum Comentário

“A poesia não é outra classe de luz elétrica, nem receita para as farmácias e os hospitais da lógica, nem conto, entretenimento para a tertulia do café social. Como linguagem última e reveladora do homem para o homem, a poesia é obscuridade, fragmento, abissal reflexão sobre sua própria natureza.”

Roberto Juarroz  

 

 

***

“Só podemos viver no entreaberto, exatamente sobre a linha hermética de partilha entre luz e sombra”.

René Char, sobre os poetas. 

***

A poesia não é magia. A transcendência da poesia, como de qualquer outra arte, acha-se na sua capacidade em dizer a verdade, para desencantar e desintoxicar” 

 W. H. Auden

***

“Poesia é aquilo que me faz rir, chorar, uivar, aquilo que me arrepia as unhas do dedo do pé, o que me leva a desejar fazer isso, ou aquilo, ou nada”.

Dylan Thomas.

 

***

O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
- essa voz somos nós.

Ferreira Gullar

***

“Poesia é trabalho, em cima de harmonia, ritmo, rima. Sou prático pela palavra. Se me vem um desejo de fazer um poema e, depois de algumas linhas, me falta uma palavra, é à noite que ela me vem. Aí, acordo e anoto num caderninho. Stella, minha mulher, fica incomodada. Já veio a palavra, Manoel? Então dorme. Poesia é assim. O poeta é um visionário.”

Manoel de Barros

Sentimentos mesquinhos de uma musa feliz no primeiro dia do ano

sexta-feira, janeiro 1st, 2010 | Citação | Nenhum Comentário

IN: http://www.barrocru.blogspot.com/ de Sílvia Goes

Havia flores tristes em minhas
mãos hoje cedo enquanto a vida
se acreditava de fora

Em todas as janelas passeatas
Cartazes com aquela fotografia:
Procura-se, viva ou morta

E o espetáculo da tentativa da flor
Luta em cada uma das suas pétalas

Sempre há flores tristes em minhas mãos
Arrancar os espinhos é um jeito muito covarde de ferir alguém

sobre amor e dor

quinta-feira, dezembro 3rd, 2009 | Citação, Frasementos | Nenhum Comentário

 

DIGA A SEU AMOR

Quando estamos juntos nosso fogo acende o sol.

 

AMOR E DOR

A dor é uma pá que cava a vida para que ela seja profunda.

O amor é um céu onde se enterram todos os que buscam vida verdadeira.

 

ANTONIO PORCHIA:

“Estar com alguém verdadeiro é quase um milagre”.

 

À MUSA

Oh, Musa, o mundo se deteve para ouvir os teus cabelos!

 

PERGUNTAM-ME QUEM SOU: RESPONDO:

Sou mais uma casa aberta do que um porto seguro.

 

ABRACADABRA

Meio olhar basta para abrir a porta do amor.

Coisas que não sei dizer

segunda-feira, novembro 30th, 2009 | Citação | 2 Comentários

(Conversa imaginária com Montejo Navas)

Assim que me avistou no portão, o poeta perguntou logo: Gustavo, como posso manter o amor à altura do coração? Depois quis saber se o Sol necessitava de elogio; se o amor era o sexo virado do avesso e se as dúvidas da manhã tinham a aparência da claridade da chuva,

mas nada disso eu soube responder ao poeta.

Assim que voltei da cozinha com o copo de vinho, ele prosseguiu: Gustavo, os olhos da noite rezam pela escuridão?  Depois quis saber se os cidadãos das belas cidades parecem embriagados; se o desconhecido é nossa primeira pele; se criar espaços tem a ver com o bater de asas e, por fim, se eu tinha visto a formiga passeando no quadro de Matisse,

mas nada disso eu soube responder.

Antes de partir, fomos à janela fumar cigarros americanos, foi quando ele afirmou que os poetas são filósofos que esquecem para poder olhar de novo; que de tempos em tempos a alma precisa ajustar-se ao corpo; que existe uma caixa chamada solidão e que os lápis escrevem fugindo da sua sombra,

ainda assim não soube o que dizer.

Ao fim, entre dentes felizes, sugeriu que eu percebesse a cicatriz dos espelhos; que cada um leva um apocalipse no bolso; que a tarde é a elegia do dia; que o amor vive de ir e de voltar e que os poetas vivem a remendar a totalidade,

com palavras que não sabem dizer.