Crônica mais besta impossível
Diário do México
Algo está acontecendo no país que tem às 9h da manha filas para os museus. Do meu hotel até a estacao do metrô mais próxima, tenho de passar, obligatoriamente, por dois museus: o Belas Artes e o do Banco Mexicano. Ambos tinham hoje filas gigantes. A impressao é que os museus funcionam como praias na Ciudad de Mexico.
O museu Dolores Olmedo, com 100 quadros de Diego Rivera e 27 de Frida Khalo foi a minha praia no dia de hoje. Quando a milionária Dolores Olmedo comprou de Rivera os seus quadros, ele pediu para ela levar também as 27 telas de Frida. Um Frida à época náo valia nada. Ela ainda era uma desconhecida. Hoje, no universo das artes, é uma rainha. Os quadros de Frida nao estavam em exposiçao no Dolores Olmedo. Estavam na Europa, rendendo Euros para o museu. Frida Khalo virou um grife: xícaras, travesseiros, calcinhas, cuecas, brincos, pós de maquiagem, camisetas, vestidos, etc. Sua imagem é também de uma santa. Sofreu em vida e é reverenciada em morte. É bem o mito cristáo, que aqui cabe perfeitamente.
Outro artista que me impressionou bastante foi José Guadalupe Posada (1852-1913). Na Tv Mexicana ele protagoniza spots sobre a arte mexicana, sendo tratado como mestre e “capo” de uma geraçao de “Imaginantes”. Ele nasceu Aguascalientes, no México central. Começou a trabalhar como litografia aos 37 anos de idade. Posteriormente foi trabalhar como ilustrador em jornais. A sua obra é caracterizada pelas imagens com caveiras e gentes humilde. (Recomendo inclusive ao Tácito que o use como ilustraçao deste vez.). Posada merece atençao. Quando criança, todos os dias que ia para a escola, parava para ver um impressor perto da sua casa. Posadas se interessou pelas artes gráficas e criou um estilo próprio de caricaturas, ao mesmo tempo, ironico e macabro. Diego Rivera autoproclamou-se seu filho e uma geraçao inteira de artistas plásticos mexicanos foram influenciados por ele.
Volto a repetir: algo está acontecendo em um país que tem museus lotados. Ser habitualmente sensível às artes plásticas é uma bençao!
Uma palavrinha sobre os escritores. Pois bem, Juan Rulfo aparece muito. Outro que está sempre em destaque é Garcia Marquez, o coronel do pedaço. Mas Paulo Coelho está forte, acredita? Octavio Paz está em todas as prateleiras com lançamentos e reediçoes. Luis Cernuda, que apesar de ter nascido em Sevilha, é considerado daqui, tem muita visibilidade. Sor Juana Inés De la Cruz tem muitíssima aceitaçao. De Alvaro Mutis ouvi falar pouco assim como de Carlos Pelicér. Ouvi bons comentários sobre Sergio Pitol e ele pareceu à primeira vista um autor interessante. Também náo conhecia Elena Poniatowska, mas a mulher parece ser a grande dama da literatura mexicana. Carlos Fuentes também é forte e os autores mexicanos com mais destaque do momento sáo Francisco Martin Moreno e Angeles Mastretta. Esta última escreveu “Mujeres de ojos grandes” e “El mundo iluminado”, acho que publicado pela Alfaguara. E Francisco Moreno escreveu “México mutilado” e “Las cicatrizes del viento”, entre outros, da Alfaguara com certeza. Estou cometendo uma tremenda injustiça citando apenas estes dois. Na livraria Torre de Lulio, o seu livreiro-mor, José Luiz, me apresentou um monte de escritores e poetas, entre eles Marcos Antonioo Mendez Oca, que morreu ano passado. A poesia do homem é caudalosa. Daquelas que adjetiva os olhos. Também nao conhecia José Juan Tablada, que morreu em 1945, e também nao conhecia a poesia pré-hispanica produzida pelos Aztecas, Olmecas, Maias e Mixtecas. Estas poesias estao sendo recolhidas agora em volumes através de pesquisas históricas.
Tocando o meu organillo
Por diversas razoes, tenho zanzado pelo México por esses dias carregado pelo sentimentos das experiencias artísticas. Sem dúvida, o que tenho observado, escutado e vivido aqui, daria para escrever um livro. Mas nao tenho vocaçao para isso. Em todo caso, já tenho dois pequenos cadernos cheios de anotaçoes. Todas sem futuro. Algumas delas vou partilhar com vcs. Elas nao passam de impressoes.
Frida
Também sou daqueles que é apaixonado por Frida Khalo. Como nao amar esta mulher? É o que me pergunto depois de sair da Casa Azul, na calle Londres. Trata-se de uma edificacao de 1750, onde ela e Diego Rivera viveram os anos de seu amor. A casa, agora transformada em Museu, é de arrepiar. A energia de Frida está em toda a parte. Ali vc encontra a sua cadeira de rodas, o cavalete onde pintava, as moletas, a cama com o espelho encima, a máquina de costurar, os pincéis, as tintas ainda borradas na cor.
Frida morreu em 1954 e Diego em 1957. Antes de morrer ele legou tudo o que estava na casa à mecenas Dolores (Lola) Olmedo. Pediu a Lola que depois da sua morte ela deixasse parte dos aposentos da casa fechada por 15 anos. Lola obedeceu. Passaram-se mais de 15 anos, no entanto, Lola morreu em 2004 e naquele mesmo ano os compartimentos (banheiros, quartos, etc) foram abertos. Apareceram entao mais de 28 mil documentos, 6.500 fotografias, 300 vestidos de Frida e 400 desenhos e obras inéditas.
Nao conhecia a faceta de Frida fotografa. Foi bom descobrir. O seu pai era fotógrafo. E ela aprendeu a arte. Há um zoon do olho de Diego Rivera. Na estante de livros de Diego, podemos encontrar um livro do Portinari, “His life and arte”, editado pela Chicago Press. Nao consegui ver o ano. A claridade da casa, ampla e azul, nos agita em muitas claridades. Fiquei com forte impressao de que ali moravam bruxos, náo gente. O que me atentou para isso foi a quantidade que gatos que vi pela casa. Mas talvez eu estivesse delirando.
Há muita emocao e dor em toda a parte; muita arte também. As paredes eram desenhadas e escritas por ela. As da cozinha eram telas para a criatividade. Uma das frases, diz: “Muchas veces me simpatizan más los carpinteros, zapateros, etc. que esa toda manada de estupidos dizque civilizados, habladores, llamados gente culta”.
Algo que me chamou a atencao é um recorte de jornal, de 19 de outubro de 1942, colocado em exposicao. No jornal, que nao consegui identificar qual, Diego Rivera revela o segredo para fazer a corte às mulheres hermosas. O longo título da matéria anuncia: “El celebre muralista jamás ha sofrido por ser hombre feo”. Isso parece realmente verdade. Entre as fotos dos ex-amores de Rivera, espalhadas pela casa, aparecem mulheres cinematográficas. Uma delas é Dolores Del Rio. Na própria Casa Azul, viveu também Leon Trotsky, que depois se mudou para uma rua ali perto. No quarto onde Trotsky habitou, Diego viveu os últimos anos de sua vida.
Mas era Frida quem me movia pelos cômodos da Casa Azul, me levando pela mao da imaginacao, como quem incita a entender a sua arte, alegria e dor, simultaneamente. Nos corredores, quartos, varandas e alpendres, dava pra imaginar ela fumando o seu cigarro, quieta, na cadeira de balanco ou sentada nas muretas do patio interno, com seus gatos no colo. Os gatos estam lá ainda hoje. Frida também. Só nao sente quem nao quer.
A santa muerte
Quis o destino que eu viesse ao Mexico. De mochilas e de sandalias fui procurar Juan Gelman. Poucas vezes um paìs me desconcertou tanto quanto o Mexico. Nem vinte e quatro horas aqui e eu ja havia sido nocauteado com catorze emocoes…
Os homens coletivamente se benzendo quando o aviao tomou pè na pista; A educacao e a gentileza do povo, simpàticos ao ponto do inacreditavel. Ao chegar compreendi logo que a santa padoreira deste povo è a Santa Muerte. Hà altares pra ela em todos os lugares. Caveiras sao artigos de lembranca do Mèxico, penso eu, turista aprendiz.
Os jornais aqui fafam dos 24 mil mexicanos que morreram em quatro anos na fronteira com os Estados Unidos. Aqui sò se fala do trafico de drogas. A campanha na midia è pesadìssima.
Pesadìssimo como a comida mexicana. Que coisa inacreditavel è o tanto que este povo gosta de comer. Foi dificil achar uma lan house aqui. Dificilimo. No entanto, lugares para o comer frugal, vc encontra em toda a parte. Atè agora provei pombazos, gorditos, campachanos, pachuquena, tecolotes, moletes, arrocheras, chilaquiles, cebiches… Náo me pergunte o que è isso.
No sitio arqueologico de Teotihuacan, dois mexicanos reconheceram pelo meu espanhol de quinta categoria que eu sou brasileiro. Como o Brasil è um paìs imenso, quiseram saber de onde eu era. Disse “Natal”, e eles ficaram ainda mais perdidos. Nao sabiam onde ficava. No parque, diante da piramide do Sol, pensei na terra do Sol. No alto da piramide vc pode se sentar bem no cocoruto dela e ficar ali se quiser o dia todo.
Fui tambèm ao local onde os Aztecas faziam sacrificios humanos. A diferenca dos antigos para nosotros com relacao aos sacrificios humanos, è a de que eles ritualizam e nòs nao. Assumimos que matamos por prazer. A cultura que governava este lugar a mais de dois mil anos atràs, era a Sociedade da Serpente Emplumada. Casta de sacerdotes, guerreiros, comerciantes e magos. Todos eles descendentes dos Atlantes.
As piramides sao fascinantes. Poder andar e contemplar o sitio arqueologico è algo divinamente sinistro. Hà uma outra cidade abaixo, com tuneis, cavernas, pequenos templos, moradias. Náo fossem os turistas e os vendedores de bugigangas, tudo seria muito silencioso. A calcada de 4 kilometros q segue por todo o sitio arqueologico è chamada calcada de la Muerte. Tirei muitas fotos mas nao sei postar, entao vou dar um jeito de aprender assim q voltar ao Brasil.
Uma coisa me deixou feliz. A certa altura, quando hablava o meu espanhol mal arrumado com um senhor, Eloi Moreno, guardei o seu nome, ele disse “Vocè do Brasil, nao è?” Disse que sim. Perguntei como ele tinha advinhado. Ele respondeu: “Todo brasileiro fala doce!”
Veja sò que maravilha! Viva o povo que adora a Santa Muerte!
m que se benzeu quando
Quando penso em roubar chocolates
Em São Paulo, com a bolsa nas costas e as sandálias nos pés. Leio Pessoa: “Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo”. É do Livro do Desassossego. O trecho é lido por Luiza, uma amiga querida aqui de São Paulo. Em 1998 escrevi um poema para esta cidade. O poema nunca foi publicado, nem aqui. Não lembro por que fiz isso. Ele é assim:
CARTA DE SÃO PAULO AOS PAULISTAS
Essa bobagem que diz Goethe
de que cinza são as teorias
e verde é a árvore da vida é,
além de tudo, ingênua:
cinza também é a árvore
e a vida.
Já o disse São Paulo
de Piratininga.
2.
No café da livraria Cultura da av. Paulista, muitos rostos e livros. Tantos livros sem gente. Tanta gente sem livros. Lendo Pessoa me esqueço no fundo do baú de mim. Ouço o tilintar dos talheres, xícaras e dentes. Muitas vozes no saguão das letras. No meu interior, traduzo poemas que não escrevi. Pergunto-me do nada: “se eu vendesse vozes / quanto custaria o silêncio?”.
Perguntaram hoje no jornal para o Gilberto Gil:
- Música fica mais ou menos importante aos 68 anos?
- Mais. Porque ela deixa de ser importante.
É isso o poeta. Acompanha-se do menos importante. Na rua, no café, na intimidade, na torneira, o grito silencioso dos desimportantes. Envelhecer, pegar o seu tambor, ir para debaixo da árvore e tocar.
Inventar um estilo. Para quem não tem estilo; particularidade de originalidade; o tal do original particular, o que fazer? Todos dizem: abra um blog. Prefiro dizer: melhor abrir a janela. Outro dia, na televisão, o médico perguntou ao paciente, “o que você tem?”; “dívidas”, respondeu o pobre.
- O que é música? - perguntou o jornal hoje para o Gilberto Gil:
- A música é a manga.
Entendi que cada um chupa de maneira diferente.
São Paulo está cinza e fria. Sensação términa de 12 graus com vento a sudeste. Uma vez, aqui, em 1998, pensei em roubar chocolates. Sai do lugar com vergonha. O medo às vezes fez a gente abandonar a casa de doces do amor.
Chega de escrever bobagens.
Tomo a mochila, as sandálias e parto de São Paulo espiando a manchete de cultura do Estadão: “Arte e Angústia”. Não sei de quem se trata. Mas entendo bem o que a notícia quer dizer.
A nuvem em forma de guindaste
Vi uma nuvem em forme de guindaste. Estiquei o pescoço para enxergar melhor. A nuvem pegava um vento aqui e transportava ele na direção do sol. Fiquei espiando o pio da nuvem.
O sol aplaudia de pé cada vez que o guindaste pegava o vento e punha um pouco em sua boca. A nuvem prosseguia…
Depois disso a nuvem em forma de guindaste virou e disse assim:
Nunca ficar totalmente à disposição do amor do outro porque o outro nunca saberá nos amar totalmente. Amar antes amar-a-si-mesmo. Talvez assim o outro queira nos amar um pouco. Mas saberá o homem amar a si mesmo?
Não soube dar resposta ao pio da nuvem em forma de guindaste. O sol também não se pronunciou. Estava cheio de vento e de fogo.
Depois seguimos cada qual em uma direção: a nuvem desfez o guindaste, o sol correu pra longe, e eu segui pela estrada, cabisbaixo, pensando que o amor pode não saber direito o que é o amor.
Carta para a moça que peneirou o amor
Primeiro queria agradecer por você ter compartilhado comigo um pouco do teu nada.
Contar aquilo que desenha a tua personalidade, o teu caráter e o teu semblante juvenil.
Lendo, vejo que você tem a graça do movimento no sangue. Fico feliz por você ter voltado a dançar sob as patas da incerteza.
Gostava de dançar na rua. Hoje danço mais no meu quarto, sozinho, para harmonizar o espírito inquieto. Celebro então as forças todas. Com a vagueza de sempre, é claro.
É sempre bom e necessário fazer aquilo que deixa a gente feliz, né?… O danado é que sabotamos a felicidade com o que temos à mão.
Em segundo lugar, queria agradecer pelo cuidado que você tem tido comigo. Mesmo sabendo que minhas palavras são imaturas. Mesmo sabendo que não gosto da palavra ‘machucar’. As palavras que escolhi para a jornada não estão na moda.
Nem nunca vão estar.
O cuidado do mundo você colocou do avesso. Agora para amar, preciso desamar. Agora para achar, preciso perder. O diabo escreve torto por linhas certas.
O meu engano, a minha bobeira e o meu ridículo, claro, você soube mostrar muito bem, sem que eu me sentisse bobo, ridículo ou enganado. Até achei graça de mim.
Agradeço imensamente por você ter me ensinado a ficar na sombra. Não se preocupe que não deixarei a verdade atrapalhar a gente.
Mas não vou mentir, já que estamos falando tudo abertamente. Vou continuar dizendo tudo o que desacho. É verdade que fiquei muito impactado com a tua palavra. Nem tive como evitar o nó na garganta. Quem sabotou o nó foi o sopro do tempo.
Escrever para mim é uma forma de estar contigo. A forma que encontrei de ser ninguém.
Escrever é também outra forma que encontrei de fazer companhia à sombra. Pois somente os encarcerados tomam banhos de Sol.
Lamber a alma
Ando cansado das espigas. Para ser homem, meu amigo, não basta afiar a língua. É preciso afiar a alma.
Passei a semana afiando a imagem de uma língua lambendo a alma. Uma alma qualquer.
Pensava que a imagem poderia dar poema. No fim da semana, a imagem não deu nada.
Taí um reforço da velha teoria: tudo sempre dá em Nada.
Daí o escultor Luiz Ribeiro entra na minha sala e diz: “Temos de buscar o Vazio positivo!”.
Fico então a pensar: Que diabo será isso?
Mas a imagem da língua lambendo uma alma não queria me abandonar. Então esqueço o Vazio positivo para recomeçar com a língua e a alma. Pensar besteira é uma tarefa difícil e complicada.
Numa reunião me elegeram para uma comissão. Fui então para a reunião desta comissão. No meio da reunião desta comissão criaram outra comissão, e logo fui indicado para esta comissão. Na primeira reunião desta comissão eu mesmo indiquei o meu nome para uma outra comissão. Quando isto aconteceu, achei que era a hora de parar. Alguém estava ficando maluco e devia ser eu.
Com a cabeça cheia de comissões encontro o professor e crítico Sérgio de Sá nos corredores da UnB. Falo para uma professora que vai passando, “Olha ali o Sérgio, bom nome para a nossa comissão”. O Sérgio ouve e, inteligentemente, diz logo: “Isto me dá comichão!”.
Achei que ele tinha toda a razão.
Estas comissões são por conta da greve da UnB, que ocorre agora devido a ameaça de corte de 26% dos nossos salários. É, meu amigo, anda difícil ser professor no Brasil hoje em dia.
Aviso logo a meus doze estimados leitores: Não inventem de ser professor ou de entrar em qualquer comissão!
O Duda Bentes, que é professor antigo, diz sem medo que já pensa em vender cachorro quente. Melhor vender hamburgers a ser professor!…
Achei que ele poderia ter toda a razão.
Por conta da greve aconteceu a segunda imagem mais inusitada da semana. A primeira imagem era, como falei, a língua lambendo a alma.
A segunda imagem foi o meu primeiro dia de aula. Preparei a disciplina, estudei alguns livros, revi a metodologia. No primeiro dia de aula, apresentei a disciplina. No dia seguinte, a UnB entrava em greve.
Dei aula e voltei então para o estaleiro. Como aqueles barcos velhos lá do Nordeste.
Tive um encontro de duas horas com a turma do 7° Semestre. Eram cinquenta garotos e garotas. Estranhamente, estavam todos com os rostos mais cansados do que o meu… Brasília não anda com o astral em dia…
Foi um único encontro com aqueles meninos-velhos. Fiquei com eles na cabeça o resto da semana. Como era segunda-feira, dia internacional da angústia, era compreensível. A segunda-feira é daqueles dias que você prefere não trabalhar.
Nos ‘dias ruins’ parece que você costuma falar coisas que não devia. Bobagem isso que escrevi agora, não é? Se bobear, falamos merda todos os dias. O que é outra merda.
Como custa afiar a língua e afiar a alma!
Cá entre nós, confesso algo sobre a alma: Ainda prefiro estar lambê-la!
Talvez seja isto o Vazio positivo da arte, de que falava o Luiz Ribeiro. Talvez, não. Em todo caso:
Dias de muita saliva para você!
O dia em que fui carteiro
Naquele dia fui o portador das rosas.
Nunca tinha antes sido carteiro de flores, então, pensando no alvoroço dos corações, topei. O moço, desconcertado de amores, pediu também que eu escrevesse o texto do cartão.
- Você não é poeta? Pois bem, me ajude, escreva aí uma coisa para que ela ouça o meu coração – dizia ele e olhava para o céu, como quem buscava andorinhas.
- Mas escrevo o quê, homem-de-deus? Não é assim… Tem de ser algo que o seu coração fale…
Ele demorou-se, pensou sem remédios… Estava mesmo a buscar andorinhas.
- Então escreva aí, disse em seguida, nunca duvide de um homem com coração verdadeiro!
Foi então o que escrevi. Simples e verdadeiro. Pus o cartão junto às rosas e levei o buquê. A moça trabalhava num laboratório. Era um lugar branco. Com mãos de carteiro-aprendiz, entreguei o buquê e o cartão.
A moça estava tão tímida que não conseguiu olhar nos olhos do carteiro. Só tirou as mãos dos bolsos do avental quando lhe entreguei o buquê de amores. Seis rosas abertas acenavam o risco das paixões.
Ela então soltou-se, sorriu desmedida, deflorada de alegria. Me deu até três abraços.
- Você tem coragem de amar?, perguntou ela depois.
- Coragem eu tenho, respondi. O que não tenho é sorte.
- Você tem coragem de esperar o amor?, insistiu ela.
Desta vez não soube o que responder. O amor faz a gente engolir palavras.
Não me demorei, afinal, eu era apenas aprendiz de carteiro.
Ao ir embora, tive a impressão de ouvir um sussurro. Talvez vindo de uma das rosas do buquê. Talvez vindo das palavras que engoli…
- Gustavo, o amor é uma flor que só o tempo pode desabrochar.
As mãos de Juvenal
Juvenal merece uma foto. Melhor: as mãos de Juvenal merecem uma foto. Por duas semanas seguidas, a lotérica em que trabalha, na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, teve dois bilhetes premiados na Mega-Sena. E ambos os bilhetes saíram das mãos de Juvenal. Agora o que vemos é a lotérica da Rodoviária cheia, todos os dias, uma fila só, uma fila longa. Todos querem fazer uma fézinha com Juvenal, o homem que tem as mãos de ouro.
