Poemas

Exercícios de criança a la Manoel de Barros

segunda-feira, abril 5th, 2010 | Citação, Pensamento-poema, Poemas, ínfima estética | Nenhum Comentário

 

 

 

Sim, eu já me queimei com chocolate.

 

Toda queimadura entorta. Quanto mais homem

Mais menino. Quanto mais menina mais mulher.

 

Durmo sobre os óculos. Tudo acorda torto.

 

C’óculos tortos saio às ruas. Vejo logo

A culpa não é do mundo.

Meu olhar é que encurvou.

 

Todo mundo parece entortado. Às vezes,

revezes nos levam às fezes. Eita que

Poema mais abestado!

 

Só pode. A culpa é do Manoel de Barros.

Chego na livraria e leio seus Exercícios de ser Criança

 

“No aeroporto o menino perguntou:

- E se o avião tropicar num passarinho?

O pai ficou torto e não respondeu.

O menino perguntou de novo:

- E se o avião tropicar num passarinho triste?

A mãe teve ternuras e pensou:

Será que os absurdos não são as maiores virtudes

da poesia?”

 

Daí que entorto meus olhos de criança

nos absurdos da poesia.

Meus óculos estavam ajustados de Barro.

Sim, tenho um filho chamado Manoel.

 

Sim, eu já me queimei com chocolate.

No fogo de um poema abestado

Menino torto Manoel de Barros.

Ninguém manda no coração deles

quinta-feira, abril 1st, 2010 | Poemas | Nenhum Comentário

Sentados na margem do fim do mundo, eles esperam que o amor regresse.

Há uma fragilidade neles, que diz que qualquer coisa pode perturbar o coração.

Eles sabem que o amor é um território sagrado, uma zona que não se pode visitar.

Sabem que o amor confronta o sonho e a realidade. Que o amor fere, magoa e não corresponde ao que se respira no peito dos homens.

Na realidade, eles acreditam que o amor regressará. Sentados na margem do fim do mundo, eles esperam.

Felicidade caçula em amor adulto

quarta-feira, março 3rd, 2010 | Poemas | Nenhum Comentário

 

Quando te vi a primeira vez

já sabia

não sei como

mas sabia:

meu destino era teu.

 

Quando te vi a primeira vez

soube sim

não sei como

mas soube sim

            se me quiseres

            se me amares

poderei todos os poderes

navegarei todos os mares

Enquanto conto com o beija-flor

terça-feira, março 2nd, 2010 | Poemas | 1 Comentário

 

Não se preocupe…

 

Sou daqueles que faz uma conta na floricultura só por causa do amor.

 

Gasto todo o meu ouro em camélias, zínias e brincos-de-princesa.

 

Solto pipas adornadas com dálias e antúrios todos os dias.

 

Não se preocupe…

 

Escalo a neve só para colocar jacintos no horizonte.

 

Rego toda noite uma muda de amor-perfeito.

 

Batizo cada manhã com o nome de uma margarida diferente.

 

Só por tua causa, darei um beijo nos olhos dos lírios todos os dias.

 

Colocarei orquídeas nos teus cabelos quando eles estiverem soltos.

Quando estiverem presos, farei uma trança de miosótis no pescoço.

 

Para os dias frios, prepararei banhos quentes com lavandas, jasmins e laranjeiras.

 

Não se preocupe…

 

Sou daqueles que só toca uma mulher após temperar as mãos em heras e sândalos.

 

Calculo o acorde do coração das flores de menta.

 

Já fiz infusões com mimosas e alecrins, já fiz.

 

Guardei o segredo dos narcisos, das violetas e dos gerânios.

 

Igualei os carinhos às pétalas das açucenas.

 

Não se preocupe…

 

Entendi bem as alfazemas. Já fiz amor com uma flor-de-lis, já fiz.

 

 

 

 

Enquanto giro o girassol

quarta-feira, fevereiro 24th, 2010 | Poemas | 1 Comentário

 

Queria fotografar o rosto de todos os homens do mundo ao despertar pela manhã.

E queria fotografar o mesmo rosto ao dormir. Queria fotografar os arrepios do pêlo,

Os ouriços em conformidade clamando - hirtos – os cabelos.

 

Primeiro, faria uma fotomontagem para as piscadelas das crianças. Faria

Retrato delas com olhos esbugalhados, bocas tortas e orelhas de abano.

Depois um 3X4 das bocas escovando os dentes. Uma exposição no Masp

Seria dedicada ao cabelo de musas enfurecidas - confrontadas ao vento.

Por fim, realizaria um preto-e-branco sobre as tardes de chuva dos corações.

 

Meu book teria o título: “Enquanto giro o girassol”.

- A foto da capa?

O giro do teu olhar sob o prisma das estações.

Enquanto ouço o realejo

sexta-feira, fevereiro 19th, 2010 | Poemas | Nenhum Comentário

 

Minha rima é tosca

Como a sopa

Na mosca

 

Meu amor é fraco

Como quem leva

Sopapo

 

Meu choro é mudo

Como quem cala

Tudo

 

Minha dor é forte

Como faminto

Do Norte

 

Meu poema é finito

Como o quadro

O grito

Desencontro de almas

sexta-feira, fevereiro 19th, 2010 | Poemas | 2 Comentários

(Livre releitura do poema “Encontro de Almas”, de Rumi)

 

Então tá

Conversemos sem dizer palavra

 

Entendamo-nos

 

Sem língua sem lábios

Sem exibir os dentes

 

Entendamo-nos

 

Sem os contornos da boca

Sem a necessidade dos olhos

Sem os estados alterados

Das paixões

 

Então tá

Deixemos assim

No faz de conta

 

Era uma vez

O amor

 

Faz de conta que a gente se amou

Faz de conta que você nada sentiu

Faz de conta que o coração mentiu

 

Você sabe

Faz de conta é melhor do que nada

E o nada entre nós sempre existiu

 

Então tá

 

Deixemos

O Amor como está

Nulo de nada

 

Amar o nada do Amor

É melhor do que nada

Amar

 

Amar mesmo de verdade

É tarefa de gigantes

 

Você sabe

Não servimos para nada

 

Sequer para amantes 

 

 

Dentro da lágrima uma pedra

segunda-feira, fevereiro 8th, 2010 | Poemas | 2 Comentários

 

Replantei o meu ninho

nos galhos mais altos,

para ver se encontrava

um coração.

 

Coloquei dentro do ninho

um sonho e dentro do sonho

uma esperança,

 

para ver se aninhava

o teu coração.

 

De nada adiantou.

 

Veio o lenhador

e pôs abaixo a árvore,

o ninho e a minha ilusão.

 

Tomei novamente o sonho nas mãos.

Dentro já não havia nenhuma paixão.

 

Tornei a replantar o meu ninho nos galhos mais altos,

para ver se encontrava nos cumes qualquer coração.

 

De nada adiantou.

 

Coloquei então dentro do ninho

uma lágrima e dentro da lágrima

uma pedra

para ver se calava de vez

qualquer sonho, esperança

ou coração.

A rotina da galinha e dos professores de filosofia

segunda-feira, dezembro 28th, 2009 | Poemas | Nenhum Comentário

Gargareja o cálcio ócio

Cacareja o falso ópio

Do óbvio

tango vertical

sábado, dezembro 26th, 2009 | Poemas | Nenhum Comentário

Teimosia é um tipo de força.

Resistência  reimosa.

Toda força é nervosa.