Poemas
Exercícios de criança a la Manoel de Barros
Sim, eu já me queimei com chocolate.
Toda queimadura entorta. Quanto mais homem
Mais menino. Quanto mais menina mais mulher.
Durmo sobre os óculos. Tudo acorda torto.
C’óculos tortos saio às ruas. Vejo logo
A culpa não é do mundo.
Meu olhar é que encurvou.
Todo mundo parece entortado. Às vezes,
revezes nos levam às fezes. Eita que
Poema mais abestado!
Só pode. A culpa é do Manoel de Barros.
Chego na livraria e leio seus Exercícios de ser Criança
“No aeroporto o menino perguntou:
- E se o avião tropicar num passarinho?
O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:
- E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes
da poesia?”
Daí que entorto meus olhos de criança
nos absurdos da poesia.
Meus óculos estavam ajustados de Barro.
Sim, tenho um filho chamado Manoel.
Sim, eu já me queimei com chocolate.
No fogo de um poema abestado
Menino torto Manoel de Barros.
Ninguém manda no coração deles
Sentados na margem do fim do mundo, eles esperam que o amor regresse.
Há uma fragilidade neles, que diz que qualquer coisa pode perturbar o coração.
Eles sabem que o amor é um território sagrado, uma zona que não se pode visitar.
Sabem que o amor confronta o sonho e a realidade. Que o amor fere, magoa e não corresponde ao que se respira no peito dos homens.
Na realidade, eles acreditam que o amor regressará. Sentados na margem do fim do mundo, eles esperam.
Felicidade caçula em amor adulto
Quando te vi a primeira vez
já sabia
não sei como
mas sabia:
meu destino era teu.
Quando te vi a primeira vez
soube sim
não sei como
mas soube sim
se me quiseres
se me amares
poderei todos os poderes
navegarei todos os mares
Enquanto conto com o beija-flor
Não se preocupe…
Sou daqueles que faz uma conta na floricultura só por causa do amor.
Gasto todo o meu ouro em camélias, zínias e brincos-de-princesa.
Solto pipas adornadas com dálias e antúrios todos os dias.
Não se preocupe…
Escalo a neve só para colocar jacintos no horizonte.
Rego toda noite uma muda de amor-perfeito.
Batizo cada manhã com o nome de uma margarida diferente.
Só por tua causa, darei um beijo nos olhos dos lírios todos os dias.
Colocarei orquídeas nos teus cabelos quando eles estiverem soltos.
Quando estiverem presos, farei uma trança de miosótis no pescoço.
Para os dias frios, prepararei banhos quentes com lavandas, jasmins e laranjeiras.
Não se preocupe…
Sou daqueles que só toca uma mulher após temperar as mãos em heras e sândalos.
Calculo o acorde do coração das flores de menta.
Já fiz infusões com mimosas e alecrins, já fiz.
Guardei o segredo dos narcisos, das violetas e dos gerânios.
Igualei os carinhos às pétalas das açucenas.
Não se preocupe…
Entendi bem as alfazemas. Já fiz amor com uma flor-de-lis, já fiz.
Enquanto giro o girassol
Queria fotografar o rosto de todos os homens do mundo ao despertar pela manhã.
E queria fotografar o mesmo rosto ao dormir. Queria fotografar os arrepios do pêlo,
Os ouriços em conformidade clamando - hirtos – os cabelos.
Primeiro, faria uma fotomontagem para as piscadelas das crianças. Faria
Retrato delas com olhos esbugalhados, bocas tortas e orelhas de abano.
Depois um 3X4 das bocas escovando os dentes. Uma exposição no Masp
Seria dedicada ao cabelo de musas enfurecidas - confrontadas ao vento.
Por fim, realizaria um preto-e-branco sobre as tardes de chuva dos corações.
Meu book teria o título: “Enquanto giro o girassol”.
- A foto da capa?
O giro do teu olhar sob o prisma das estações.
Enquanto ouço o realejo
Minha rima é tosca
Como a sopa
Na mosca
Meu amor é fraco
Como quem leva
Sopapo
Meu choro é mudo
Como quem cala
Tudo
Minha dor é forte
Como faminto
Do Norte
Meu poema é finito
Como o quadro
O grito
Desencontro de almas
(Livre releitura do poema “Encontro de Almas”, de Rumi)
Então tá
Conversemos sem dizer palavra
Entendamo-nos
Sem língua sem lábios
Sem exibir os dentes
Entendamo-nos
Sem os contornos da boca
Sem a necessidade dos olhos
Sem os estados alterados
Das paixões
Então tá
Deixemos assim
No faz de conta
Era uma vez
O amor
Faz de conta que a gente se amou
Faz de conta que você nada sentiu
Faz de conta que o coração mentiu
Você sabe
Faz de conta é melhor do que nada
E o nada entre nós sempre existiu
Então tá
Deixemos
O Amor como está
Nulo de nada
Amar o nada do Amor
É melhor do que nada
Amar
Amar mesmo de verdade
É tarefa de gigantes
Você sabe
Não servimos para nada
Dentro da lágrima uma pedra
Replantei o meu ninho
nos galhos mais altos,
para ver se encontrava
um coração.
Coloquei dentro do ninho
um sonho e dentro do sonho
uma esperança,
para ver se aninhava
o teu coração.
De nada adiantou.
Veio o lenhador
e pôs abaixo a árvore,
o ninho e a minha ilusão.
Tomei novamente o sonho nas mãos.
Dentro já não havia nenhuma paixão.
Tornei a replantar o meu ninho nos galhos mais altos,
para ver se encontrava nos cumes qualquer coração.
De nada adiantou.
Coloquei então dentro do ninho
uma lágrima e dentro da lágrima
uma pedra
para ver se calava de vez
qualquer sonho, esperança
ou coração.
A rotina da galinha e dos professores de filosofia
Gargareja o cálcio ócio
Cacareja o falso ópio
Do óbvio
