Frasementos e Histórias Vis
Declaração de voto de Zé Ninguém
A melhor coisa do mundo é não fazer nada. Ideólogos do trabalho, não contêm comigo! A melhor coisa do mundo é ficar quieto e calado. Não ter partidos, nem causas, nem garantias. O homem vem e diz: “Seu nome vai para o SPC”. E daí? Deixa ir. Cansei do imposto de renda. IPTU. PSDB. IPVA. PT. PSTU. A PF que me interessa é o prato-feito da esquina. Se eu disser logo que não sou nem de esquerda, nem de direita, nem de centro, será que me deixam em paz? Meu partido é o do alto. Não, melhor: é do baixo. Defendo o baixo: putas, pintores, poetas, bêbados, babacas, bichas. Meu partido é também o do alto: o partido alto, o reggea, o candomblé, o samba, o tango e o bolero. Pronto. Eis a minha declaração de voto. Deixa eu aqui quietinho em minha inutilidade, por favor. O vinho, o charuto, o café e as almas também são companheiros das flores, da alegria e do sol nascente.
A política é a maior inimiga da poesia. Expulsemos da Polis todos os políticos!
Natal em Natal
1.
São as obviedades da vida. Natal em Natal…
Por todos os lados, nas ruas e praias, nas esquinas e comércios, vejo casais se beijando. Realmente, o Verão chegou com tudo.
Ou será que são os meus olhos que estão a buscar o beijo?
Pode ser.
Na rua, um sujeito diz uma frase que não acreditei ter ouvido: “Marias são feitas para cuspir ou para parir”, disse o homem simulando inteligência. Minha vontade foi de cuspir nele.
Mas não gasto cuspe à toa.
2.
No velho casarão do bairro velho, reencontro a minha mãe com um de fio de voz no corpo.
Ela já não fala senão sussurra. Difícil é entender o que se vai.
Mesmo assim, como todas as vezes, ela me atualiza das mortes ocorridas este ano:
“Morreu Fulano, marido de Beltrana”, “Sabe Ciclano? Irmão de Aclano e Tetrano? Morreu!”
E assim todos vão morrendo.
O óbvio da vida é a morte.
São as obviedades da vida. Como passar o Natal em Natal.
Retrospectiva literária
De Janeiro a Dezembro, o ano foi dividido em doze casas de trinta noites instáveis.
Nas noites sem toques ocorreram flutuações cruas. Dormiu-se trezentas vezes de barriga vazia e sonhou-se com o leite do desejo derramado.
Durante o ano, nem o silêncio nem o bom senso venceram o palavreado e o falatório. Tiveram tardes todos os dias, mas alguns dias não tiveram manhãs. De todas saiu-se com o desejo de ficar.
Afundou-se na terra para além de pedra de sal. Cascaviou-se a terceira dimensão e nenhum livro salvou da fome este ano.
Cortaram dois trilhões de árvores distintas; respirou-se mal e ninguém comeu sem colesterol. A masturbação feminina superou todas as mãos juntas. Inclusive a das flores.
Esteve-se mais sentado do que andando. Mediante o tempo parado fez-se muita coisa no espaço oscilante. Os rastros dos sorrisos contados deram dois trilhões de alegrias dispersas. Mesmo assim, chorou-se muito.
Nem todas as lágrimas valeram a pena.
Em sete minutos terminou-se quatro anos. Cinqüenta quintas feiras quiseram charutos e brincos de ouro. Dois dentes amoleceram e outros dois foram caiados.
Vinte-e-uma topadas não derrubaram o cabra.
Dez sambas foram compostos. Cinco roques refeitos blues. Nada mudou na esquina exceto os mendigos. A paz mundial não foi alcançada e não foi desta vez que o mundo se acabou.
Não havendo linha divisória entre nada e nada, nadou-se entre instantes não como merda n’água. Algumas aulas valeram a pena, outras vezes foram as cachaças que valeram.
Choveram dois trilhões de harmonias dispersas. Um terço era verde e rosa.
Neste ano todas as lágrimas encontraram lugar para cair. Mas nem todas valeram a pena.
Histórias do Diabo – I
(Lembrança de uma entrevista para o semanário Dois Pontos, Natal/RN, em maio ou junho, sei lá eu, de 1990)
Pedro Chuvas havia feito um pacto com o Diabo numa encruzilhada no sul do Piauí.
Em companhia de quatro amigos, assaltaram uma agência do Banco do Brasil, em 1990, na cidade de Açu, no Rio Grande do Norte. Pedro e seus amigos haviam marcado um encontro com o Coisa-Ruim, numa sexta-feira 13, e pedido ao Besta-Fera que os tornassem ricos.
O Diabo tinha aceito a proposta e, no pacto, disse-lhes que, diante de qualquer problema, eles pronunciassem uma determinada palavra. Uma palavra mágica, capaz de fazer com que eles desaparecessem no ar. Como por encanto.
Essa palavra Pedro não me disse qual era.
E lá foram os quatro rapazes assaltar o banco. Logo nos primeiros minutos, os bandidos foram cercados pela polícia. Tomaram reféns, fugiram, pegaram um avião, um monomotor; voaram até Belém, acho eu, e ao aterrissar foram novamente cercados pela polícia.
Acuados e sem muita munição, lembraram do que o Diabo havia dito. A palavra. Pronunciaram-na uma, duas, três vezes… e nada aconteceu.
Foi então que o rito de matança começou.
Abriram a porta do monomotor e foram saindo um a um, descendo a mini-escada. Cada um dos rapazes levantava a mão e disparava um tiro contra a própria cabeça. Uma, duas, três vezes.
Menos Pedro Chuvas que não teve coragem de disparar.
Entrevistei-o naquele ano numa penitênciária, em Natal, curiosamente chamada Caldeirão do Diabo.
Em vez de se matar, Pedro entregou-se, jogou a arma ao chão. Para a imprensa disse que o Diabo era um sujeito envolvente, muito educado, charmoso, gentil. De certa forma, cativante e audaz. Disse que gostava de passar algumas horas em sua companhia, naquelas encruzilhadas quentes do Piauí.
Quando o entrevistei, confessou-me uma coisa que jamais esqueci:
Havia descoberto naquele dia, infelizmente, que as palavras nem sempre são mágicas.
cometas no céu
No dia de santa Clara, o Anjo me apareceu num vermelho vestido de noiva. Tinha a força redobrada por ter mergulhado seus cabelos nas chamas de Vulcano.
O Anjo disse que, por alergia a glúten, não podia mais comer a óstia sagrada. Só comungava agora com vinho.
“Me tornei agora o vampiro de Cristo”… disse… “Bebo seu sangue todos os dias”.
Estranho. Os olhos do Anjo não estavam mais tristes.
Ela acendeu uma chama para enxergar a sua profundidade
1.
Há um bêbado aqui na aldeia a quem perguntamos o caminho das ruas quando nos perdemos. Parece que estamos todos perdidos porque, quando nos perdemos, sempre encontramos o bêbado. Mas nós é que estamos bêbados. Bêbados in vida veritas.
2.
Alguém veio dizer de suas tristezas e eu não tive como consolar o pobre com palavra alguma.
Dei-lhe apenas um cigarro amassado. E acendi.
3.
Ela acendeu uma chama para enxergar a sua profundidade.
Ao se ver descobriu que, tudo o que é profundo, é grávido.
4.
Brasília resume um pouco o que é o Brasil. Mas Brasília não é o Brasil. Brasília é uma ave torta, seca por fora, úmida por dentro, escrota e gentil como as meninas daqui.
Ave de ra-fina beleza.
5.
Lembro de uma borracharia em Salvador que à noite funciona como boate. Lembro da aeromoça distraída que, ao falar no microfone, disse: “Avisamos aos senhores passageiros que não é proibido fumar…”, ao que alguém logo se apressou em dizer: “A senhorita tem aí um cigarrinho?” Lembro de alguém em plena praça dizer: “Mayakovski, você é o Vampiro!!!”. E o sujeito banguela virar e rir. Vampiros sem dentes.
Somente em Salvador é que podemos encontrar um Vampiro sem dentes chamado Mayakovski!
apontamentos banais sobre coisas fundamentais
1.
quem tem sede de espírito
deve tomar copos de vento
2.
Quem vive a experiência da brecha
só tem olhos para buracos
3.
a praga só aumenta
da gripe de Amor
nem notícia
Estudo para Suíte em Ré Menor
Em mim há o ar
Abafado
Cujo tempo
Aturdido
Amarelou
Em mim há o ar
Absurdo
Atabalhoado
Cujo tempo
Perdido
Rencontrou
Túmulo do poeta desconhecido
Só duas coisas faziam sentido na vida de Flávio Poeta. A catástrofe e o sublime. Nada mais importava. Para ele, nem o amor, a escrita ou os jogos. Estava crente que o mundo era governado pelo caos e a luz ao mesmo tempo. Vivia criando teorias. Tal estilo fazia dele um tipo sombrio e ensolarado, com alguma elegância deslocada, típico dos que andam com os pés na terra e a cabeça no céu. Nefelibata. Pois bem, uma das teorias de Flávio Poeta era que a realidade não passava de viscosidade cintilante, emoção; emoção à flor da pele. Alegria refeita. Rarefeita. Realegria. Viscosidade musical. Várias vezes o vi sambando nos batuques da periferia.
Flávio poeta morreu esta semana atroplelado no Pistão Sul, aos 40 anos. O Pistão Sul é uma avenida aqui de Brasília que não tem fim. Poeta não deixou nada. Nem amor, nem livros, nem árvores. Após o acidente, fui o primeiro a reconhecê-lo no IML. Realizamos o seu pedido sempre reiterado nas mesas de bar e doamos o seu corpo para estudo no Departamento de Medicina.
No seu apartamento, na parede, lia-se a seguinte frase: “Sou feliz na raça! Independente do seu conhecimento e da sua aprovação!”.
O homem que virava cupim
Sei que vocês vão duvidar. Terão motivos para isso, eu sei. Mas tudo é verdade. Aconteceu que conheci um homem, Francisco, que virava cupinzeiro. Foi antes da grande seca, lá pelos baixios do sertão setentrional, próximo ao açude dos Ferreiras. Francisco, quando queria, virava cupim ou cupinzeiro a depender da ocasião. Nunca entendi como e por que aquele velho fazia isso, só sei que ele virava.
Digo isso para explicar essa coisa que eu tenho de virar bicho de vez em quando. Nasci piaba, mas hoje sou bicho-homem, graças a deus. Mas nasci piaba, quando adolescente, virei sabiá, depois jacaré. Depois dos 30, virei macaco.
A propósito, hoje sonhei sendo águia e todas as quintas, às vezes, viro cavalo.
Sei que vocês não entendem. Mas eu também não. Mas acontece isso comigo: virar bicho de vez em quando.
Foi isso o que me aproximou de Francisco. Como ele virava cupim eu podia entender o que se passava com ele, porque na ocasião em que o conheci eu virava, às vezes, sabiá. Na época eu era um adolescente e achava tudo muito normal, mas todos diziam que isso não era normal, que era estranho, etc. Hoje, até eu acho estranho. Mas na época não era.
Francisco havia descoberto a fórmula de se tornar cupinzeiro sem querer. Uma vez comeu bosta de cupim e isso foi o suficiente. Antônia, a feiticeira da aldeia até que tentou desfazer, mas não conseguiu. Francisco havia para sempre se tornado ora cupim ora cupinzeiro ora homem. Tanto que os trabalhadores quando passavam por algum lugar que houvesse um cupinzeiro nunca sabiam quem ou o que estava ali, daí que cumprimentavam. “Bom dia, seu Francisco”, “Boa tarde, seu Cupinzeiro”. E todos perguntavam para o velho como era viver em meio aos cupins. E ele não negava explicação. Dizia que era tudo muito organizado, muito disciplinado, todos tinham suas funções, que não havia cupim desempregado, nem abandonado, nem nunca tinha ouvido falar de um cupim que passasse fome, etc. Os cupins eram sociáveis, dizia ele.
E o melhor era que viviam de uma forma que nunca faltava comida. Nunca. Diferente da gente, que nunca come direito, nada.
Seu Francisco viveu até a idade de morrer. Seu corpo, a seu pedido, foi enterrado, claro, dentro do cupinzeiro. Antônia, a feiticeira, teve depois um sonho com ele dizendo que agora tinha deixado de ser cupim e tinha virado abóbora. A notícia se espalhou. Desde então, toda abóbora colhida na aldeia, era motivo de suspeita. Ninguém queria ter indigestão comendo aquele velho mentiroso.
