ut picture poiesis
Xila
Com a força dos monstros nos encontramos, tomamos vinho, deixamos o mundo correr, roçamos um pescoço no outro, o nariz nos olhos, ombro a ombro, ao infinito. O melhor dos nossos abraços ninguém suspeitou. O melhor encontro, na kitinete das relações, foi o Aberto que se descortinou em teatro, vastando-se, diante de nós, ao infinito.
balada para o amigo desconhecido
A poesia assassinou um amigo meu. Ele morreu de incêndio. Presumivelmente, do lado lá, no primeiro segundo, deve ter procurado um cigarro qualquer e um lugar para sentar.
Depois deve ter refletido longamente, pensando nesta sua nova solidão.
O meu amigo vivia cansado de si mesmo. Descobriu que após a morte continuamos a nos perseguir, (”au, au”) igual cão latindo na janela.
um dia na relva
Um dia inteiro na relva…
Um dia enchendo a mão de mudas e socando-as na terra, melando a face nas sebes como quem deseja o futuro. Reencontrar o caminho da floresta: admirar a lata velha cheia de mato grudada a árvore, o capim, os eucaliptos envelhecidos e secos, a mata baixa do cerrado.
Um dia inteiro diante do Ganges, o Riacho Fundo, tomando as águas sujas de suas corredeiras para aguar as novas sementes de hortaliças, o sansão do campo, o patchuli, as petúnias e a mirra silvestre.
(Ah, meu velho Italo Calvino, somente tu talvez entendas o que digo… )
Um dia inteiro na relva. Os sagüis, os periquitos do cerrado, os mosquitos, a galinha-de-angola, a cobra-coral, daqui a pouco as abelhas, a borboleta, o beija-flor.
E assim se passa um dia inteiro nos caminhos de floresta. Quando se chega às capoeiras a tarde já está cansada. O ar seco descansa sua poeira diante do interminável rio.
E assim a poeira dá lugar à escuridão.
Havia chegado a hora da fogueira, do cigarro e do silêncio.
névoa na noite fria
As vezes os cães ladram de solidão.
Hölderlin (1770-1843)
Onde os homens puros vivem, o espírito habita.
As formas confusas da vida
florescem com claridade e sentido
onde uma luz segura as encanta.
Caravaggio
Todos admiravam suas sombras
Mas ele só revelava a luz
Invertida do homem
No espelho íntimo de cada um
O reflexo impreciso
de Narciso

Narcissus, de Michellangelo Caravaggio (1571-1610), pintado entre 1597-1599. O quadro está na Galleria Nazionale d’Arte Antica em Roma.
