Pensamento-poema
Seguindo os conselhos do Dr. Pasavento
O estado que mais condiz com os tempos atuais é o do desaparecimento. Ou a invisibilidade.
Aparecer. Parecer na aparência é a norma da visibilidade. Nunca na história humana se fabricou tanto espelho. Nunca foi tão importante a superfície do lago. “Olho-me no espelho, logo existo”.
Sumir no mapa é uma das utopias do poeta. Mas como se ele é um dizente? O poeta não passa de um grito sem rosto. Um grito diante do espelho. Mas diante do espelho não aparece ninguém. Essa é então a sua voz. Essa é a sua aparência.
Se vive a tal ponto o aparecer que desaparecer virou utopia. Se vive a tal ponto são-paulo que shangrilá já não existe mais. Mas que lugar melhor do que são paulo para o desaparecer ou para o aprender a ser ninguém?
Saudades
Temos encontrado a saudade e a luta em todas as partes. E se isso - feliz ou infelizmente - ocorre assim é porque estamos insistindo em algo parecido com o amor, mas também em algo parecido com a distância e a solidão. O beijo ausente, estrangeiro, que afaga a nossa separação estará sempre à boca? Toda a vida que os nossos corações se tocam, dois golfinhos pulam felizes no azul das águas do mar.
Carvalhos
De tanto dedilhar criancice, o carvalho vaticinou primaveras. Era um carvalho velho, frondoso, mágico. Seus galhos davam voltas em modo de abraços. Quando batia palmas ao vento, o sonho encantava coração. A árvore fez a conversão dos olhos verdes. Foi quando todas as alegrias viraram carvalhos floridos. Todos os sobrenomes também.
Sangue nos olhos
O homem que passa o difícil, não deveria temer o retorno a ele.
Quando a situação difícil chega, em desespero e pó, a ruína quase-aos-pés, o homem dá o grito essencial. Está com a faca entre os dentes? Está com o sangue nas ventas?
O homem que passa o difícil não teme o grito essencial.
(Quem despreza o coração sincero não merece a realeza do amor).
Quando o coração partiu, nenhuma bandeira foi alteada. O que havia de nascer morreu ainda semente. Labaredas queimavam sobre as geleiras anunciando o instante em que o coração partiu.
Quando o coração migrou, os gemidos foram mais guturais do que antes. Nas casas, só se ouviam hinos de lamentos e inglórias. Na periferia dobravam-se sinos e tambores na longa madrugada de inverno em que o coração migrou.
Quando o coração saiu, a aldeia também ficou vazia. Viram-se à saída charretes, bois levando cestos, famílias em desespero. Tudo amanheceu entregue às teias de aranha no dia em que o coração saiu.
Quando o coração murchou, o longo inverno se anunciou. Perderam-se as chances do novo, do quente e do maravilhoso. Já não havia tempo para a lágrima, nem para as lavandas quando o coração murchou.
(Quem despreza o coração sincero não merece a realeza do amor).
Desamizade
E você que nunca sussurrou amor próprio?
E você que não sabe se é sênior ou se é junior no amor?
E você que não se isola com temor das revisões?
Você não quer o amor porque teme a abundância.
Enquanto a dor não vai embora - 1
No parapeito do inferno, aprendi a dançar sozinho fumando o cigarro da solidão. Por estes dias, tenho andado enfurnado. Igual a pão velho, me embrulho e endureço.
Enquanto a dor não vai embora - 2
Na paz que me dei não tem espaço para a violência. No meu mar
só navegam caravelas sem canhões. Há semanas experimento o castelo do abandono. É que meu silêncio margeia versos despatriados. Rifei minha palavra cortando cordoalhas e escoras. Apoiei-me no teu colo, mas ele estava sem raízes. As árvores demoram a crescer no meu peito. Ainda não formei um bosque cheio de amor.
Enquanto a dor não vai embora - 3
Se escancarei demais o meu sim também não silenciei o meu não. Não voltei ao bosque, nem estudei perto dos primeiros beijos. Não borrei a senha ao partir, nem fiquei dando “alô” para o ex-amor. Quis não deixar doer. Pensei: pra que padecer? Nem toda dor foi feita para sofrer.
Exercícios de criança a la Manoel de Barros
Sim, eu já me queimei com chocolate.
Toda queimadura entorta. Quanto mais homem
Mais menino. Quanto mais menina mais mulher.
Durmo sobre os óculos. Tudo acorda torto.
C’óculos tortos saio às ruas. Vejo logo
A culpa não é do mundo.
Meu olhar é que encurvou.
Todo mundo parece entortado. Às vezes,
revezes nos levam às fezes. Eita que
Poema mais abestado!
Só pode. A culpa é do Manoel de Barros.
Chego na livraria e leio seus Exercícios de ser Criança
“No aeroporto o menino perguntou:
- E se o avião tropicar num passarinho?
O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:
- E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes
da poesia?”
Daí que entorto meus olhos de criança
nos absurdos da poesia.
Meus óculos estavam ajustados de Barro.
Sim, tenho um filho chamado Manoel.
Sim, eu já me queimei com chocolate.
No fogo de um poema abestado
Menino torto Manoel de Barros.
