Archive for fevereiro, 2009

Nos pedaços mais rasos das alturas

sábado, fevereiro 28th, 2009 | Poemas | Nenhum Comentário

 

 

os movimentos sós de um sozinho

 

nós nos encontros sem ti

nós nos encontros demim

nós nos encombros assim

a sós.

 

 

Se o homem decidir ver a si mesmo

sábado, fevereiro 28th, 2009 | Poemas | 1 Comentário

 

 

 

Se o homem decidir ver a si mesmo verá além de um construtor de ruínas?

 

Se o homem decidir ver a si mesmo verá além de um descritor de abismos?

 

O homem já não passeia entre camélias, nem sai voando entre o céu e o mar com a compostura das águias velhas, que sabem abrir caminhos no perfume de qualquer lugar.

 

 

 

 

 

Frase que joguei no mato

sábado, fevereiro 28th, 2009 | Frasementos e Histórias Vis | 2 Comentários

O alface se liga à estrela. A onça à unha. O Fusca tem algo de meia Lua. Toda bolha implica paixão.

 

O Sublime Endiabrado

 

Foram dois dias no lombo do cavalo-égua. Percorremos - os dez - os chapadões da Barra do Dia, no distrito de Rio do Sal, Goiás. Essa experiência de ficar dois dias no mato, vivendo as condiçoes e as caças do campo, a fogueira, a chuva torrencial embaixo das grandes árvores, o banho no rio, as necessidades no mato, fazia tempo que não experimentava. A última vez tinha sido na Bolívia, em 1999.

Destes dias, gostaria apenas de falar da cachoeira da Lídia, como chamam por lá. Trata-se de uma cachoeira, uma não, duas. Duas cachoeiras, uma defronte a outra, sendo que uma tem 80 metros e a outra 15 ou 20 metros. Ambas caindo da garganta de pedras ainda mais altas que encerram o caminho do viajante.

No fim das contas, fiquei sem saber quem era Lídia. Se a cachoeira maior, imponente, auspiciosa, ou a menor, forte, densa, larga e espessa.  O lugar parece o oco do mundo: o Paraíso Perdido ou a Clareira por onde escorre o Sublime Endiabrado.

Gostei de ter conhecido este fim de mundo.

A certa altura, no fim do caminho, tivemos de largar os cavalos e ir a pé. Atravessamos - os dez - o caminho das onças, sem enconrar nenhuma, graças a deus. Dias antes elas haviam atacado dois potros. Já no fim do caminho, nos desfiladeiro mais altos, tivemos de atravessar 700 metros entre duas serras pontiagudas, apenas suspensos pelo cabo de aço de uma Tirolesa, por sobre a selva lá embaixo. 

Foi a sensação de reencontrar o Aberto.

O Abismo sob nossos pés e nós ali - os dez - sentados numa cadeirinha de fibra, cruzando o abismo a 130 metros.

Enquanto cruzávamos o abismo, abrimos os braços e imitamos os passarinhos do lugar. No sobrevoo, sentimos - os dez - que não valemos mesmo muita coisa.

É. Mas no fim do caminho a gente aprende a voar.

Sublime e Endiabrado.

 



 

O tamanho da solidão

 

Ninguém fica sozinho quando se faz acompanhar de sua força.

 

 

Canto de Canarinho

 

Um silêncio nunca encontra outro. Cada silêncio cala diferente doutro. Senão me diz: O silêncio do olho esquerdo se parece com o do mindinho?

 

Da arte de fazer silêncio fazendo samba

 

Encontro o poeta triste sem talento. Tomamos rum e ele diz gostar de samba. Na noite, calamos mais do que falamos. E no que falamos, não havia poesia. Bebemos sem música e acompanhamento noite adentro. Uma felicidade estranha osquestrada de sentimentos simples. No bar também não havia muita gente. Nós e o silêncio das garrafas e dos copos. Brindamos então à falta de talento até em escolher o bar para brindar a falta de talento.

Depois o poeta falido disse a frase do Beckett: “Falhar, falhar mais vezes, falhar melhor”.

Na volta para casa, um frio danado. Noite coberta de gelo calmo e passos de samba, mãos geladas, pernas bambas, casacos escuros e cigarros na boca. Depois que viramos a esquima, o dia soprava nascendo.

Soprava calmo. Depois o poeta, enfático, disse: “Sempre haverá poesia onde houver uma tristeza acompanhada”.

 

 

Frei Waldemar

 

E morreu o meu amigo, frei Waldemar da Silva Menezes. Foi meu primeiro professor de filosofia e, com ele, no Convento, tive inesquecíveis aulas de Platão e Aristóteles. Foi um privilégio conhecer este homem, por isso escrevo um pouco sobre ele.

Como ninguém costuma escrever muito da vida desses anônimos, os frades e os monges, conto ao menos um pouco a história deste.

Frei Waldemar morreu, dia 6, acompanhado dos familiares, em Natal. Ele já passava dos 80 e estava bem doente, agora descansa em paz, acho eu.

Fazendo agora os cálculos, vejo que ele estava com 58 ou 60 quando o conheci. Na época eu não passava de um fedelho. 

Waldemar tinha três grandes amores: Nossa Senhora, os livros e a mística. Tinha uma biblioteca inacreditável assim como um senso de humildade igualmente impar.

Vivia meio só no mundo, apesar de viver em fraternidade, no Convento. Como tinha uma personalidade forte, difícil até, não fazia parte do time dos que têm pretensão de Sílvio Santos.

Era do time dos quietos. E é verdade que também adorava futebol.

Seu quarto era biblioteca-cozinha-banheiro-tudo-junto, uma bagunça completa, diria, uma ilha cercada de livros por todos os lados; atração para seminaristas novatos como eu. 

Foi com frei Waldemar que viajei pelo Sertão da Paraíba longamente… Catolé, Brejo do Cruz, Sousa, Cajazeiras, Patos, São  Bento e todo o planalto da Borborema. Conheci não só o sertão da Paraíba, mas a sua quentessência: as fiadeiras de redes, as feiras, os velhos doentes, os beatos, os açudes, o calor e a força daquele povo.

Na época, como seminarista, eu era o que acompanhava o padre nas missas e frei Waldemar era o que cruzava o sertão da Paraíba fazendo as suas rezas. Hoje gosto de lembrar das igrejinhas velhas perdidas nos sopés das serras. Devo dizer que é espantoso, Sertão afora, a quantidade de pequenas capelas. O Nordeste, às vezes, parece ter mais santo do que gente. E o povo, devoto, constrói capelinhas para todos os santos possíveis e imaginários. Santo Eleutério, Santa Luzia, São Benedito, Santa Maria, Cosme e Damião, São João, Todos os Santos, enfim, amém.

Waldemar, de certa forma foi, durante muito tempo, uma espécie de instrutor para mim. Lembro das dores de cabeça insuportáveis após as aulas de Platão e Aristóteles. Ele, por sua vez, não tomava partido. Declarava-se um aristótelico-platônico. Às vezes, dissertava longamente também sobre Tomás de Aquino a quem amava como um irmão. Waldemar era uma figura.

Foi morar no convento aos 11 anos, criança, naqueles tempos áureos da Igreja Católica. Era início do século vinte, muito antes do fatídico concílio Vaticano II (1968), quando a igreja mudou radicalmente.

Antes do Concílio, milhares de crianças Sertão afora eram arrebanhadas para os colégios internos, espécies de colégios-conventos. Conheci, em Guaramiranga, Paraíba, um desses colégios desativados. Construído na parade de uma serra, chegaram a morar juntos ali, anualmente, mais dez mil jovens nordestinos entre 10 e 17 anos. Isso entre 1900 e 1968. Foi impressionante ver aqueles salões serra abaixo imensos e vazios.

Os meninos eram entregues aos frades para serem criados. Ora fugindo da seca, ora não, esses meninos recebiam vasta educação. Frei Waldemar foi o resultado de um desses processos de educação. Depois que entrou no colégio-convento não quis mais sair. Havia nascido em Penedo, Alagoas, mas escolhera o sertão da Paraíba como destino.

Waldemar era desses homens que facilmente se rendem ao livro. Dizia que as duas piores coisas da Igreja Católica eram as freiras e os conservadores arrogantes do papado romano. Realmente, ele não era um padre comum. Gostava e desgostava do Leonardo Boff e, por conta disso, me fez ler Boff quase inteiro.

Na época, o que ele estava mesmo interessado era que eu lesse Plotino, Duns Scottus, Tomás Morus, Mestre Eckart, João da Cruz. Hoje sei, hoje entendo. Ele queria que eu lesse os místicos. 

Mas se engana quem pensa que ele era alguém sisudo. Ao contrário, era divertidíssimo.

Waldemar, quando ia benzer os defuntos, levava a água benta dentro de um frasco de Rexonna. Ficava o mais longe que podia do caixão e do defunto. O que causava estranhamento em todos. Dizia que respeitava a morte demais para chegar tão perto. Quando chegava a hora de jogar água benta no defunto, ele espirrava o frasco de Rexonna sem nenhum constrangimento. 

Uma vez, celebrando em São Bento, o teto de madeira da igreja começou a ranger como se fosse cair. Ele não pensou duas vezes e gritou no microfone: “O teto vai desabar, o teto vai cair sobre todos!!!”. Foi uma gritaria geral. Depois, ele mesmo saiu correndo de batina no meio do povo para fora da igreja, com o povo atrás.

Houve uma balbúrdia histórica em São Bento. O vigário tinha saído correndo da missa. Juntaram então o prefeito, o tabelião, o presidente Câmara Municipal, Zé da Padaria e Neco da Farmácia e decidiram refazer o teto da igreja. Agora com laje pré-moldada.

O homem era mesmo dado a palhaçadas.

Certa vez, uma beata que comungava todos os dias na missa da manhã e na missa da tarde, perdeu, devido a um cochilo em casa, a celebração. Chegou esbaforida, correndo, pedindo a frei Waldemar que fosse abrir o sacrário para que ela pudesse receber o corpo de Cristo. Não  dormiria aquela noite sem a comunhão.  

Waldemar estava na sacristia, já tinha trocado de roupa e argumentava que ela comungaria no dia seguinte, na missa da manhã, não teria problemas com Jesus por conta disso. A mulher insistiu; o padre retrucou; a mulher, irredutível, não arredou o pé. Foi quando Waldemar, sem piedade, disparou:

“A senhora come tanta óstia que já deve está cagando anjo!”  

A mulher não acreditou no que ouviu. Foi embora horrorizada.

Pois é, morreu o meu amigo, frei Waldemar. Na última vez que o vi, voltou, como sempre, a fazer aquele seu gesto secreto. Em silêncio, olhava com afeto a pessoa e, discretamente, como se estivesse contando um segredo, apontava o indicador para a terra, depois, fazia o contrário, e olhava com o dedo para cima, sorrindo sem fazer barulho, como criança sapeca.

 

 

 

 

Fragmentos de Malassombro - a praia das mortes


 As cartas náuticas dizem que a Ponta do Flamengo é o terceiro ponto das américas mais próximo da África.

Tomei coragem e, num pequeno bote a remo, fui circundar o estreito, pelo mar. Não dá para falar da Ponta do Flamengo sem falar da baía de Cotovelo e das falésias do lugar. Visto do mar, falésias e rochas, arrecifes e maceiós assustam. O mar e a baía são traçoeiros como as histórias do lugar. Todos os grandes navios que arriscaram este pedaço de mar, conheceram o naufrágio.

Contam que, nos primeiros contatos dos indígenas nestas praias com os navegadores vindos de outras terras, os índios locais adotavam a mesma postura. De início, no primeiro contato, eram  simpáticos, sorridentes e amistosos. À noite, em pequenas canoas, queimavam ou afundavam as naus. Megulhadores já falavam da visagem de quarenta carcaças.  

Os índios locais eram generosos na maldade. Saqueavam e matavam a todos. Por aqui não se conhecia a prática do prisioneiro. Um dos relatos dá conta de uma árvore imensa, localizada exatamente no que é hoje a Ponta do Flamengo, de onde se teve, certa vez, a mais macabra das visões. Séculos atrás, num desses combates, e após matar todos os marinheiros e viajantes do galeão, os índios dependuraram os corpos nesta imensa árvore.

Como se fossem frutos.

Os mortos cuidadosamente pendurados na árvore como se fossem frutos da morte. Desde então, os últimos videntes chamam esta praia de Praia das Mortes. Hoje todos chamam de Ponta do Flamengo porque não é nada publicitário, nem ajuda na divulgação do turismo local. Que prolifera, diga-se.  

A imagem da árvore com os corpos pendurados no alto desta falésia vem sempre à minha imaginação, todas às vezes que navego por aqui. Imagino que a cena  era também um aviso - outdoor - para outros navegadores. Quem iria arriscar?

Devo confessar que há algo de macabro nesta região de mar. Mesmo em pleno dia, com o Sol a toda. Vemos aqui a praia das mortes, um pouco de braçadas a frente entramos na baía de Cotovelo; acolá a Barreira do Inferno. Quem iria arriscar?

 

 

 

O LIVRO DO DESASSOMBRO

 

1.

Pois que a primeira das feiticeiras se apresentou com Sete Luas nos pés. Trazia nos cabelos os silêncios de

sua geração.  Olhos de lonjuras, destes que assumem devidamente profundezas e infernos; tipo esguio, indu, era daquelas que tinha a ciência de seu caminhar. Seu porte divisava os ombros das dançarinas de Tango, numa cupidez tal - numa afronta tal - de deixar qualquer orquídea envergonhada.

A feiticeira disse que, na passagem de ano, todos deveriam apagar as luzes das casas e acender uma vela. E esperar silenciosamente a passagem. Esperar um minuto ou mais. Esperar. Na passagem da meia-noite do tempo, uma vela serviria para desassombrar as angústias. O tempo, dizia ela, tinha fome de gente. Antes de iniciar qualquer coisa, deveríamos primeiro acender a nossa vela. A nossa. Depois cuidaríamos de calar instantes o ano inteiro.

 

2.

A feiticeira Gitana foi a segunda a chegar. Trazia um pandeiro pendurado à saia, uma rosa domesticada entre os dentes e fazia ares de amor. Sem dizer nada, começou a girar pela sala; acendeu cigarro de menta e um brilho antigo se instalou nos seus olhos. Era um brilho que arrumava horizontes. Estranhamente, depois de alguns segundos, passou a falar amenidades: que a maré alta seria às 21 horas e 15 minutos, e os peixes não davam o ar da graça semanas a fio, e os pescadores nas docas só falavam gaivotas, e assim por diante… A Gitana passou a falar a perder de vista. E a perder de voz. Disse que veio me ver por que estava com a saudade invertida, o que não acreditei, obviamente. Vocês sabem, ela trazia uma rosa entre os dentes.

Para o meu sossêgo, ambas (rosa e cigana) estavam domesticadas. Domesticadas de amor.

 

3.

Em terceiro lugar, nos princípios da lua crescente, chegaram dois anjos breves. Enquanto um não parava de sorrir o outro não parava de ventar.

 

4.

A feiticeira do norte, dama dos vinhos e das hortaliças, chegou um pouco atrasada. Trazia peso no caminho. Tinha preparado cestos de rúculas, acelgas, espinafres, coentros e alfaces, potes de mel com castanhas pesavam mais que as garrafas de manteiga e azeite. Havia também salames franceses que ela cortou diligentemente em rodelas. Mas foi o vinho que fez a alegria de todos.

Ao abrir a primeira garrafa, ela deu três vivas ao Sol e saboreou o primeiro gole como se beijasse a boca de uma criança pagã.

 

5.

Quem chegou por último misturava a capacidade de ser igualmente bom e mau. Um minuto antes da meia noite, transformou-se em andorinha e foi buscar a manhã no horizonte seguinte. Me disse depois que teve um trabalho danado. Voou sobre o Atlântico durante toda a noite, tomou a aurora pelo bico e a trouxe de volta. Disse que sentiu, enquanto voava, que as franjas do ano estavam carregadas de levezas diversas. Diversas.

- Aproveite, disse a andorinha, quando voei de volta, senti no bico muitas levezas. Diversas. Algumas delas me pareceram saborosas. Inteiras e completas.   

 

 

 

Fragmentos de Malassombro

 

Em Piranji meu pai inventou de construir um labirinto. Era a sua forma de nos fazer solidão.

Pediu a Raimundo, o construtor, que fizesse um labirinto todo branquinho, cheio de corredores e entradas falsas, aberturas aqui e ali, fossos, alas que não levassem a lugar nenhum, com subterrâneos, escadas, muros alternados em L, paralelos ou perpendiculares. Não sei de onde meu pai tirou esta história de labirinto, já que era semi-analfabeto. O que sei é que levou 40 anos construindo este lugar, que ainda está todo branquinho.

Hoje volto a visitar o lugar com a lembrança daquele fantasma cabeludo, curvado, “vestido” todo de branco, barba antiga, que avançou para cima de mim quando eu era criança, exatamente nestes corredores. Era o fantasma-ancião com seu cajado de cristal-estanho. Enquanto me perseguia, esbravejava: “Sou Jesus, seu estúpido, sou Javé, estou velho, desamparado e só!” Dizia isso para se achar. Não passava de fantasma-pedinte-ancião. Destes que encontramos nas ruas em qualquer noite malassombrada.

Apesar de tudo, gosto deste labirinto. Nele aprendi infâncias de solidão. Nele cultivei vasos e xaxins de manjericão, alevantes e canas-do-brejo. Nestes corredores reinventei minha solidão. A cada manhã, começava caminhando por sua face oriental, na parte da colina onde o sol não bate. Naquela parte, me detinha no salão das espadas, passava pelas coleções de butins náuticos: pedestais e bússolas, mastros, sinos-de-convés achados nestes mares. A certa altura, me perdia aqui, ali, nos flancos da torre norte, nos umbrais dos porões, nas passagens levadiças. O que parecia uma escada era na verdade um batente que iniciava sua espiral ascendente, que era logo interrompida por uma parede branca. Aproveitava e me sentava. Acendia ali um cigarro de orégano e dava dois tragos profundos.

Como se faz para deslembrar a visage do nada? Aquele velho correndo atrás de uma criança no corredor. Sei. Não importava para ele que a criança fosse eu. Aquele fantasma, hoje sei, veio até mim como quem me condena a ser como ele: torto e branco!  Hoje retorno aos corredores desta prisão com a esperança de ver novamente aquele fantasma. Aguardo-o, mas ele não vem. No fundo, acho que nem os fantasmas se interessam mais em vir me assustar.  

Será que o invisível ainda comove?

Agora já não sei o que foi mais perturbador na minha formação. Se ter tido infância de labirinto ou se ter aparentado com fantasmas desde cedo, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Acho que ambos.

Sim, acho que posso dizer o óbvio:

Ser fantasma foi a forma que encontrei de ser labirinto. Ou será o contrário?

 

 

Fragmentos de Malassombro

 

 

Piranji, dizem os últimos videntes, fora construída de força descomunal desde o início. Nesta região ficava a aldeia dos Potiguaras, última nação indígena a se render aos colonizadores portugueses, dizem, índios invocados e orgulhosos, canibais, que adoravam gargalhadas e ritos de magia negra. Abaixo de Piranji, no vale do Pium, os primeiros holandeses e franceses relatam que as índias, muito belas e sorridentes, usavam colares e brincos feitos do pênis masculino. Era usado feito trófeu de vitória. Desconfiados, franceses e holandeses não quiseram se deitar com as índias.

Piranji, justamente onde vemos a praça central em direção ao grande cajueiro, ficava o cemitério indígena. No cajueiro, dito o maior do mundo (mas até onde eu sei não tem cajueiro no mundo inteiro), vive um gênio, dito pelos videntes “Gênio do Mar”, que se alimenta de tudo o que é grande-e-forte: por isso tudo aqui é ainda hoje descomunal: o cajueiro, a cabeça do povo, a cocada e o carnaval.

Aqui, em Piranji, lugar de malassombros, foi onde vi pela primeia vez um fantasma. Vou contar como isto aconteceu.

 

 

Um dia em alto mar

 

 

Fui conhecer o mar aberto. O homem na porteira da praia avisou, de prancheta na mão: “muitos já morreram nadando neste mar. É mar aberto.”Fui então reconhecer o mar aberto. Entrei devagar na praia da Costeira atraído pelas águas quentes. Levei, claro, um salva-vidas p.q. não sou Aquaman. Pelos meus cálculos, nadei hora e meia; ora boiando, ora arfando feito foca, ora braçando em braçadas, sem pressa, o mar aberto. Cresci a volta deste mar. Sinto saudades dele. Quando se cresce assim, orbita-se o mar como ilha. Na verdade, este mar faz a gente se sentir ilha.

Nadando, nadando, vejo que não aguento mais nada. Antigamente, por esta época, passava o dia todo dentro do mar: fosse em jangadas, barquinhos, bóias, ‘isopos’ flutuantes, câmaras de ar, pranchas de surf, tudo valia para ter uma vida ali nas franjas do mar. Por aqui o nome disso é “afoito”.

Havia também a vida na praia, fosse jogando bola ou procurando mariscos, pescando, fazendo fogueira, procurando na areia relógios, pulseiras, óculos, chaves, anéis perdidos. Nesta arqueologia para Iemanjá, certa vez, levei um tapa de uma onda e fui voar lá longe. Outra vez, na praia, quando pequeno, fui atingido por um soco de vento e cai no chão. Lembro disso perfeitamente. Como se fosse hoje. Talvez este soco fosse um anúncio do que eu viria a fazer depois. O que é a poesia para mim senão sopros que me derrubam?

Zila Mamede foi uma poeta daqui que morreu afogada, enquanto nadava neste mesmo mar. Não há como não lembrar dela enquanto eu mesmo bóio nas ondas do verde aberto. A diferença de nadar na praia e em mar aberto é que aqui as correntezas contam muito mais. Ficar nadando ao léu, neste deserto de água é como voltar à barriga da mãe. É adejar funduras.

Quando voltei a praia estava exausto. Fiquei dali espiando o horizonte e a linha bem retinha que traz, pelo menos a mim, o infinito.

 

 

Visão de sonho

 

 

Fui caminhar na cordilheira de dunas móveis do litoral norte, aquelas que margeiam as praias de Santa Rita e Genipabu, aqui no Rio Grande do Norte, e eis que do nada surgem dois cavalos livres a trotar nos platôs das areias desérticas, preenchendo minha visão de sonho e de calor. Confesso: realidades assim só tinha visto na imaginação. Fiquei espiando a cena como quem agradece um encontro. Tinha esquecido como as dunas forçam os pés a caminhar devagar, atolando-os o tempo todo. Mas aqueles cavalos não. Suas patas não se detinham na areia, ao contrário, pareciam flutuar sobre brumas. E, leves, seguiam em direção ao azul. 

 

 

 

 

 

 

Felicidade caçula no amor adulto

Quando te vi a primeira vez

já sabia

não sei como

mas sabia:

meu destino era teu.

 

Quando te vi a primeira vez

soube sim

não sei como

mas soube sim

             se me quiseres

             se me amares

poderei todos os poderes

navegarei todos os mares

 

Enquanto a neve cai

 

Nem tudo que excede, acrescenta.

Nem tudo que sucede, acontece.

Nem tudo que chove é triste.

Nem tudo que lacrimeja, resiste.

 

 

Alpes

 

continue mandando invernos

para os que sabem nadar neves

 

 

 

ESTADO DE MAR

 

Nunca achei que funionasse. Mas é verdade esse negócio de você colocar uma coisa na cabeça e acontecer. Pois veja só: coloquei na minha cabeça que estava em “estado de mar” e assim imaginei Natal e aquele sol intenso acompanhado do marulhar das ondas, a fina quentura do tempo, o balanço tai chi dos coqueirais. Por lá, nesta época, a brisa fica morna, adoçada e fresca, com lances úmidos e secos. Tanto que chamamos o vento da noite de “Sereno”. É por esta época que as águas do mar começam a ficar transparentes e vão assim até fevereiro. É possível ver profundidades variadas: fendas, barrancos, pescoços de pedras negras submerssas, corais, escolhos ora rasos ora fundos ladeados de cardumes multicoloridos de alevinos, tilápias, lambaris… Nesta época, as ondas quebram na praia de forma diferente: a renda das espumas convida o espectador a vir se deitar. A água lava a areia da praia prepando o terreno para a meninada que chega de férias e para os velhos em suas caminhadas e os amantes, os que chegam tocando violão e fazem fogueira à noite e sorriem enquanto cantam… 

Seu estado de mar.

 

Volta interior

 

Das coisas que acho estranhas na vida, uma delas é voltar aos lugares onde vivemos certo tempo e que depois abandonamos.

Depois de dois anos (pouco tempo) voltei à Universidade Católica de Brasília, onde trabalhei por três anos. E onde, na verdade, da sala K256 nasceu este blog. A certo momento, em um corredor, não sei por que, lembrei imediatamente dos autores que lia naquela época: Rilke e Kafka. O ano era 2005-2006.

Claro escuro. Rilke Kafka. Aquele corredor de janelas largas com uma capela no final.

Às vezes, sinto-me senso comum. Rede de recordações costuradas com frestas diversas por todas as partes. 

Voltar no tempo é sobretudo fazer círculos no espaço com o dedo interior.