Archive for abril, 2009

Canção do poeta com as estrelas

segunda-feira, abril 27th, 2009 | Pensamento-poema | Nenhum Comentário

 

Submerso nas cores, o destino do poeta é ser porta-voz das estrelas. Sua luz bruxuleia o estado infantil, desassombra o medo que encobre o encontro. O poeta não sabe nada. Anda indefeso pela vida arriando lágrimas, sorrisos e canções.

 

Sua tarefa é unir ilhas e estrelas no reflexo do mesmo mar. Filho desgarrado da força, o que há de iluminado nele ainda assim é noite. Seu destino é ser canto envolto de coração. Sua tarefa é ser íntimo sossego celestial.  

 

 

Olhos amistosos de tão belo reflexo

segunda-feira, abril 27th, 2009 | Pensamento-poema | Nenhum Comentário

 

O clarim do teu olhar anuncia o anjo azul. Teu rosto tem mais prisma do que espelho: obscuro maná com o qual alimento a minha calma. Confortado, descanso meus cílios nos teus seios. Desdenho a força dos gigantes por que tenho o teu Fogo. Ofegante língua inocente. Meu escaldafrio.

Hölderlin (1770-1843)

sábado, abril 25th, 2009 | ut picture poiesis | Comments Off

Onde os homens puros vivem, o espírito habita.
As formas confusas da vida
florescem com claridade e sentido
onde uma luz segura as encanta.

Caravaggio

segunda-feira, abril 20th, 2009 | ut picture poiesis | Nenhum Comentário

 

Todos admiravam suas sombras

Mas ele só revelava a luz

Invertida do homem

 

No espelho íntimo de cada um

O reflexo impreciso

de Narciso

 

 

 

 

 

Narcissus, de Michellangelo Caravaggio (1571-1610), pintado entre 1597-1599. O quadro está na Galleria Nazionale d’Arte Antica em Roma.

 

 

Cioran e o silêncio da comunicação

segunda-feira, abril 20th, 2009 | Pensamento-poema | Nenhum Comentário

 1.

No momento da solução suprema, depois de haver desprendido uma energia louca para tentar resolver todos os problemas e afrontado a vertigem dos cumes, achamos no silêncio a única realidade, a única forma de expressão.

 

Sur lês cimes du désespoir, Paris: Gallimard, 1990, p. 203.

 

 

2.

 

O verdadeiro contato entre os seres só pode se estabelecer pela presença muda, pela aparente não-comunicação, pela troca misteriosa e sem palavra que se assemelha a oração interior.

 

De L’inconvenient d’etre né. Paris: Gallimard, 1973, p. 14.

 

 

 

Emil Cioran (1911-1995)

Estação Rimbaud

segunda-feira, abril 20th, 2009 | Poemas | Nenhum Comentário

 

 

A cortina de fumaça engravidou os dias nevados.

O apito do trem trouxe o suspiro final.

 

O dia nem pensava em nascer e o orvalho já chorava lágrimas por toda a cidade.

 

Quando você partiu, todos foram embora também.

Só ficou tristeza parada. Tristeza grávida de estação.

 

De vez em quando, um silvo remoto içava a lembrança dos que não voltam nunca mais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foto de Paris

 

O HOMEM-DO-FAROL

terça-feira, abril 14th, 2009 | Poemas | 2 Comentários

 

Tomei goles de fogo para ver se incendiava as entranhas.

 

De nada adiantou. Bebi então poesia até me embriagar de silêncio.

 

Notei logo: nem todas as palavras atracam no coração.

 

Algumas preferem marinas vazias; portos descascados

de solidão; baías onde só mora o homem-do-farol.

 

Algumas palavras não gostam dos poetas. Preferem outros mares. Outros ventos. Talvez algumas palavras só se realizem na nossa ausência. Quando não estamos por perto, elas acontecem.

 

É a forma que encontram de autenticar a nossa inexistência.

Chagall, o presidente Lula e o ajudante de limpeza

terça-feira, abril 14th, 2009 | Sem categoria | 1 Comentário

 

Fui rever a tela “O poeta”, de Marc Chagall (1887-1985) que está em exposição no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), aqui em Brasília. Ao chegar, o museu estava fechado. Então sentei e fui ler um pouco.

 

Fiquei ali até ser despertado pela alegria de um homem. Notei pelo uniforme que era um ajudante de limpeza. Ele estava eufórico. Falava ao telefone e dizia para a pessoa do outro lado da linha que havia acabado de falar com o presidente Lula.

 

“O Lula, rapaz, falou comigo, falou comigo!” E ria o ajudante, feliz da vida. “Ele falou da vitória do Corinthians sobre o São Paulo”, e o ajudante de limpeza dava saltinhos enquanto caminhava… 

 

“Era o presidente, rapaz…” e ria, “O presidente”…

 

Não lembrava que o Palácio do Planalto estava em reformas e que o presidente estava dando expediente aqui no CCBB.

 

Depois a galeria abriu as portas e pude entrar para ver o quadro. Diante dele, fiquei pensando na alegria daquele ajudante de limpeza. De pensamento em pensamento, fui invadido pela tela de Chagall e pelo sorriso do poeta segurando a mão da moça. Ela voa sobre o verde da cidade ao fundo; a leveza, as cores marcantes, a delicadeza dos galhos a esquerda, tudo mexeu longa e profundamente comigo.

 

Quando saí da galeria também eu dava saltinhos enquanto caminhava…

 

 

 

o nada para ser homem

sexta-feira, abril 10th, 2009 | poeminha inacabado | 2 Comentários

 

 

O homem para ser homem

necessita ser árvore.

 

A árvore para ser árvore

necessita ser vento.

 

O vento para ser vento

necessita ser nada.

 

O nada para ser nada

necessita ser homem.

 

Já não necessita nada.

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The poetry as a space left empty, por Bernardo Scartezini - (potblues.blogspot.com)

quinta-feira, abril 9th, 2009 | Sem categoria | 1 Comentário

 

fui abrir uma conta. mudei de banco.

então fui abrir uma conta corrente.

a mocinha me pediu meus dados.

nome, sobrenome, rg, cpf, endereço.

me pediu referências.

me perguntou a profissão.

- sou poeta.

foi quando ela olhou pra mim.

talvez encantada:

- como disse?

- sou jornalista?

- ah…

- jornalista não-praticante.

ela se voltou novamente pro seu monitor.

as letras verdes. estilo ms-dos.

-qual sua empresa?

- sou free lancer.

- sim. mas para qual empresa?

- pois então, sou free-lancer mesmo.

- não tem contrato de trabalho?

- nã.

- certo.

te garanto que a mocinha tentou ser gentil.

deixou em branco o espaço verde,

piscando na tela,

destinado pra empresa onde trabalho.

ela engoliu em seco, tossiu baixinho.

- algum problema?, bem que percebi.

- é o sistema.

- o sistema bancário?

- o sistema não está aceitando esse campo em branco.

- ah. o sistema. então escreve qualquer cousa.

- não posso…

- diz aí que eu trabalho para a vagabundos s/a.

ela sorriu de verdade.

eu acho que até ouvi um riso ligeiro.

- diz aí que trabalho para a the beat poetry inc.

- ah, poeta…

(suspiro)

- mas o que te parece desocupados, miseráveis & associados?

a guria deixou a máquina de lado.

- tu podes não conhecer, mas essa é uma firma multinacional.

ela afastou os papéis sobre a mesa.

- com sede em genebra, na suíça.

ela olhou pra mim: o senhor é poeta então?