Archive for abril, 2009
Canção do poeta com as estrelas
Submerso nas cores, o destino do poeta é ser porta-voz das estrelas. Sua luz bruxuleia o estado infantil, desassombra o medo que encobre o encontro. O poeta não sabe nada. Anda indefeso pela vida arriando lágrimas, sorrisos e canções.
Sua tarefa é unir ilhas e estrelas no reflexo do mesmo mar. Filho desgarrado da força, o que há de iluminado nele ainda assim é noite. Seu destino é ser canto envolto de coração. Sua tarefa é ser íntimo sossego celestial.
Submerso nas cores, o destino do poeta é ser porta-voz das estrelas. Sua luz bruxuleia o estado infantil, desassombra o medo que encobre o encontro. O poeta não sabe nada. Anda indefeso pela vida arriando lágrimas, sorrisos e canções.
Sua tarefa é unir ilhas e estrelas no reflexo do mesmo mar. Filho desgarrado da força, o que há de iluminado nele ainda assim é noite. Seu destino é ser canto envolto de coração. Sua tarefa é ser íntimo sossego celestial.
Olhos amistosos de tão belo reflexo
O clarim do teu olhar anuncia o anjo azul. Teu rosto tem mais prisma do que espelho: obscuro maná com o qual alimento a minha calma. Confortado, descanso meus cílios nos teus seios. Desdenho a força dos gigantes por que tenho o teu Fogo. Ofegante língua inocente. Meu escaldafrio.
Hölderlin (1770-1843)
Onde os homens puros vivem, o espírito habita.
As formas confusas da vida
florescem com claridade e sentido
onde uma luz segura as encanta.
Caravaggio
Todos admiravam suas sombras
Mas ele só revelava a luz
Invertida do homem
No espelho íntimo de cada um
O reflexo impreciso
de Narciso

Narcissus, de Michellangelo Caravaggio (1571-1610), pintado entre 1597-1599. O quadro está na Galleria Nazionale d’Arte Antica em Roma.
Cioran e o silêncio da comunicação
1.
No momento da solução suprema, depois de haver desprendido uma energia louca para tentar resolver todos os problemas e afrontado a vertigem dos cumes, achamos no silêncio a única realidade, a única forma de expressão.
Sur lês cimes du désespoir, Paris: Gallimard, 1990, p. 203.
2.
O verdadeiro contato entre os seres só pode se estabelecer pela presença muda, pela aparente não-comunicação, pela troca misteriosa e sem palavra que se assemelha a oração interior.
De L’inconvenient d’etre né. Paris: Gallimard, 1973, p. 14.

Emil Cioran (1911-1995)
Estação Rimbaud
A cortina de fumaça engravidou os dias nevados.
O apito do trem trouxe o suspiro final.
O dia nem pensava em nascer e o orvalho já chorava lágrimas por toda a cidade.
Quando você partiu, todos foram embora também.
Só ficou tristeza parada. Tristeza grávida de estação.
De vez em quando, um silvo remoto içava a lembrança dos que não voltam nunca mais.
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Foto de Paris
O HOMEM-DO-FAROL
Tomei goles de fogo para ver se incendiava as entranhas.
De nada adiantou. Bebi então poesia até me embriagar de silêncio.
Notei logo: nem todas as palavras atracam no coração.
Algumas preferem marinas vazias; portos descascados
de solidão; baías onde só mora o homem-do-farol.
Algumas palavras não gostam dos poetas. Preferem outros mares. Outros ventos. Talvez algumas palavras só se realizem na nossa ausência. Quando não estamos por perto, elas acontecem.
É a forma que encontram de autenticar a nossa inexistência.
Chagall, o presidente Lula e o ajudante de limpeza
Fui rever a tela “O poeta”, de Marc Chagall (1887-1985) que está em exposição no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), aqui em Brasília. Ao chegar, o museu estava fechado. Então sentei e fui ler um pouco.
Fiquei ali até ser despertado pela alegria de um homem. Notei pelo uniforme que era um ajudante de limpeza. Ele estava eufórico. Falava ao telefone e dizia para a pessoa do outro lado da linha que havia acabado de falar com o presidente Lula.
“O Lula, rapaz, falou comigo, falou comigo!” E ria o ajudante, feliz da vida. “Ele falou da vitória do Corinthians sobre o São Paulo”, e o ajudante de limpeza dava saltinhos enquanto caminhava…
“Era o presidente, rapaz…” e ria, “O presidente”…
Não lembrava que o Palácio do Planalto estava em reformas e que o presidente estava dando expediente aqui no CCBB.
Depois a galeria abriu as portas e pude entrar para ver o quadro. Diante dele, fiquei pensando na alegria daquele ajudante de limpeza. De pensamento em pensamento, fui invadido pela tela de Chagall e pelo sorriso do poeta segurando a mão da moça. Ela voa sobre o verde da cidade ao fundo; a leveza, as cores marcantes, a delicadeza dos galhos a esquerda, tudo mexeu longa e profundamente comigo.
Quando saí da galeria também eu dava saltinhos enquanto caminhava…

o nada para ser homem
O homem para ser homem
necessita ser árvore.
A árvore para ser árvore
necessita ser vento.
O vento para ser vento
necessita ser nada.
O nada para ser nada
necessita ser homem.
Já não necessita nada.
The poetry as a space left empty, por Bernardo Scartezini - (potblues.blogspot.com)
fui abrir uma conta. mudei de banco.
então fui abrir uma conta corrente.
a mocinha me pediu meus dados.
nome, sobrenome, rg, cpf, endereço.
me pediu referências.
me perguntou a profissão.
- sou poeta.
foi quando ela olhou pra mim.
talvez encantada:
- como disse?
- sou jornalista?
- ah…
- jornalista não-praticante.
ela se voltou novamente pro seu monitor.
as letras verdes. estilo ms-dos.
-qual sua empresa?
- sou free lancer.
- sim. mas para qual empresa?
- pois então, sou free-lancer mesmo.
- não tem contrato de trabalho?
- nã.
- certo.
te garanto que a mocinha tentou ser gentil.
deixou em branco o espaço verde,
piscando na tela,
destinado pra empresa onde trabalho.
ela engoliu em seco, tossiu baixinho.
- algum problema?, bem que percebi.
- é o sistema.
- o sistema bancário?
- o sistema não está aceitando esse campo em branco.
- ah. o sistema. então escreve qualquer cousa.
- não posso…
- diz aí que eu trabalho para a vagabundos s/a.
ela sorriu de verdade.
eu acho que até ouvi um riso ligeiro.
- diz aí que trabalho para a the beat poetry inc.
- ah, poeta…
(suspiro)
- mas o que te parece desocupados, miseráveis & associados?
a guria deixou a máquina de lado.
- tu podes não conhecer, mas essa é uma firma multinacional.
ela afastou os papéis sobre a mesa.
- com sede em genebra, na suíça.
ela olhou pra mim: o senhor é poeta então?
