Archive for maio, 2009
Quando o mau falou assim
Sim, senti todas as culpas; cai três vezes todos os pecados; fodi sem camisinha; esqueci Cristo; comprei drogas diversas; peguei emprestado e não devolvi; comprei fiado e desapareci; roubei a mulher alheia, troquei-a por outra e outra e outra mais;
Sim, escondi o corpo que matei; assaltei túmulos à noite entre vampiros; tomei vinho em Agosto com o capeta; despachei nas encruzilhadas a galinha preta; urinei em árvores, portas, corrimãos; nadei nu com crianças na praia; insultei a mãe alheia;
Sim, achei o milhão na mala e desapareci; queimei os gatos com gasolina, afoguei os cães, despedacei os pombos; insultei os padres; torturei velhinhas, doentes mentais e professores de filosofia; cuspi no manto dos monges; passei na roleta por baixo;
Sim, joguei tomates nos artistas; fiz fogueira de livros raros; escrevi poemas ridículos, ridículos, ridículos!
Cecília Meireles (1901-1964)
No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim
a asa de uma borboleta
Túmulo do poeta desconhecido
Só duas coisas faziam sentido na vida de Flávio Poeta. A catástrofe e o sublime. Nada mais importava. Para ele, nem o amor, a escrita ou os jogos. Estava crente que o mundo era governado pelo caos e a luz ao mesmo tempo. Vivia criando teorias. Tal estilo fazia dele um tipo sombrio e ensolarado, com alguma elegância deslocada, típico dos que andam com os pés na terra e a cabeça no céu. Nefelibata. Pois bem, uma das teorias de Flávio Poeta era que a realidade não passava de viscosidade cintilante, emoção; emoção à flor da pele. Alegria refeita. Rarefeita. Realegria. Viscosidade musical. Várias vezes o vi sambando nos batuques da periferia.
Flávio poeta morreu esta semana atroplelado no Pistão Sul, aos 40 anos. O Pistão Sul é uma avenida aqui de Brasília que não tem fim. Poeta não deixou nada. Nem amor, nem livros, nem árvores. Após o acidente, fui o primeiro a reconhecê-lo no IML. Realizamos o seu pedido sempre reiterado nas mesas de bar e doamos o seu corpo para estudo no Departamento de Medicina.
No seu apartamento, na parede, lia-se a seguinte frase: “Sou feliz na raça! Independente do seu conhecimento e da sua aprovação!”.
Fernando Pessoa (1988-1935)
“Tenho pela vida um interesse ávido
que busca compreendê-la incessantemente.”
estranho modo de participar das conversas
Tem gente que quando sabe pouco um assunto só presta atenção naquilo que não precisa de atenção.
A Cabeça do Futebol
Amigos deste blog inútil,
No próximo mês estaremos lançando o livro A CABEÇA DO FUTEBOL (Casa das Musas, 2009). É uma terna e doce homenagem a Nelson Rodrigues, entre outras coisas. São narrativas, crônicas, poemas, histórias e pensamentos de todos os tipos sobre o futebol e a literatura. Algo aberto, emotivo como sempre gostamos de dizer.
Para a tarefa, eu, Samarone Lima e Carlos Magno Araújo convidamos alguns craques do jornalismo e da literatura: Enrique Vila-Matas, Fabrício Carpinejar, José Roberto Torero, Juca Kfouri, Raimundo Carrero, Juremir Machado da Silva, Fernando Monteiro, Daniel Piza, Vladir de Sá Lemos, Inácio França, Luiz Zanin Oricchio, Luiz Martins da Silva, Klecius Henrique, Selma Oliveira, Josmar Jozino, Hilário Franco Jr., Humberto Werneck, Sérgio Xavier Filho, Abel Menezes, Moacy Cirne, José Castello, Rubens Lemos Filho, Elianne Diz de Abreu, Edmundo Barreiros e Xico Sá.
Todos estão convidados para os lançamentos nas respectivas capitais. Logo o livro estará nas livrarias Travessa, Cultura e Siciliano.
LANÇAMENTOS
Recife, 09/06 – Bar Mamulengo – Recife Antigo, 19h
São Paulo, 10/06 – Livraria Cultura, Shop. Villa-Lobos, 19h00
Rio de Janeiro, 15/06 – Livraria Travessa – Barra Shop, 19h00
Brasília, 19/06 – Livraria Cultura – Shop. CasaPark, 19h00
Natal, 19/06 – Livraria Siciliano – Midway Mall, 19h
Tristeza minino
“Eu uso óculos escuros
para a minha lágrima
esconder…”
Ouço Caetano
Vampiro. O
Ibeji baiano.
Minino.
a arte de permanecer grávido
Criar é a forma que encontro de desaparecer.
O pensamento-poema em Gaston Bachelard (1884-1962)
“Os grandes sonhadores são mestres da consciência cintilante. Uma espécie de cogito múltiplo se renova no mundo fechado de um poema. Por certo serão necessários outros poderes conscienciais para se tomar posse da totalidade do poema. Mas já no brilho de uma imagem encontramos uma iluminação. Quantos devaneios pontilhados não vêm acentuar o estado sonhador! Dois tipos de devaneios não serão possíveis, conforme nos deixemos levar na sequência feliz das imagens ou vivamos no centro de uma imagem sentindo-a irradiar? Um cogito se assegura na alma do sonhador que vive no centro de uma imagem irradiante”.
IN: A Poética do Devaneio, São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 147.
