Archive for junho, 2009
Biografia de nuvens com intenções de chuva
I.
São dois os motivos da chuva: o alto e o baixo. Cair e subir. São dois os extremos da chuva: a alegria e a tristeza. Mas entre estes extremos vemos sentimentos diversos: melancolia, conforto/aconchego, apaziguamento, assim como tormento, perigo, destruição. No imaginário popular são Pedro lava o céu, motivo que indica ruptura, pureza-revigorada-pelas-águas-que-levam-embora-o-sujo. Sujeira e pureza ficam assim imbricadas definitivamente. Dante Aliguieri, referindo-se ao instante criativo, disse: “Chove na minha imaginação”. Chover é isso mesmo: fecundar. Não importa se a terra ou a imaginação. Fecundar é motivo de geração, criação, que é motivo de produção. A imagem da chuva desperta a imagem vertical que traz consigo todas as referências ao que ascende e descende. Ao céu e ao abismo. Dizem que a chuva vem do céu. Isso é equivocado? Ela vem das nuvens ou será que vem do mar? É incorreto dizer que no céu também vemos chuvas de asteróides, cometas, estrelas? Ela tem a ver com a rima e o canto. A chuva fecunda a terra que traz o grão. A chuva destrói a seara e o pão. A chuva como todo símbolo é um duplo. Existe para o diálogo e o sentido de despertar, acordar, abrir os olhos.
II.
Pelas nuvens é possível descrever o bom e o mau tempo. Mas também, talvez, a boa e a má cidade. As nuvens e os guizos de Brasília, o cinza-garoa em São Paulo, as plumas galopantes no céu de Natal, o achatamento quente-seco do Sertão, tudo isso nos diz algo. Nos oito meses em que morei sozinho em Pirangi do Norte, no sul do Rio Grande, tive a oportunidade de conviver com diversos pescadores e todos eles falavam das nuvens. Foram eles que me falaram pela primeira vez desta ciência. Nuvem é sinônimo da diversidade dos humores do céu: nuvem carregada e nuvem “boa” para pescar; nuvem que anuncia chuva para daqui a dois dias e, na ausência delas, que anuncia mar bravo ou perigo e solidão. Nuvem de não sair ao mar e nuvem de se perder no mar; nuvem que faz corredor de vento e nuvem que faz o mar ficar parado e calmo igual óleo. Pelo menos ali, no litoral de Pirangi do Norte, sempre chovia dois dias antes da lua cheia. Pelo menos ali, as nuvens serviam para medir a emoção do tempo e a respiração do céu.
III.
Dizem que os poetas são os amantes das nuvens. São nefelibatas.
“A palavra nefelibata tem origem do grego “nephele” (nuvem) e “batha”, (em que se pode andar). Ou seja, aquele que “anda nas nuvens”. Em literatura, diz-se do escritor que não obedece as regras literárias. No contexto geral, trata-se de uma pessoa idealista, que vive fugindo da realidade.”
in: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nefelibata
IV.
FELIZ DIA DAS CHUVAS
Retorno aos cadáveres para aprender sobre os silêncios. Pergunto aos amantes o que é o Amor e todos me apontam sorrisos marotos, diversos… Alguns não entendo. Outros sorrisos acalento para o futuro. Ainda não sei rir de todas as formas.
Quase todos os dias, o Amor vem simbolizar plataformas. Quem saberá galgar os espaços mais altos de si mesmo?
Retornemos pois aos cadáveres para reaprender os silêncios. Os silêncios do Amor e os silêncios do querer-se-bem.
Saberá o teu querer
querer-se?
Feliz dia das chuvas
meu querido
coração.
nós que não explicamos o amor
não há embaraço ou sentimento disperso
não há anagrama que não forme coração
e tudo é encontro de emoção e verso
para nós que não explicamos a paixão
nenhum atropelo ou vã sensação
apenas corpos tortos em terno furor
beijamos sexos cegos de tesão
somos os que não explicam o amor
sentimos águas alheias
aspiramos fundos odores
tomamos vida nas veias
pra quê explicar amores?
nada de pudor no tempo e espaço
somente línguas no corpo-cubículo
o amor nunca nos foi escasso
já perdemos a noção do ridículo
sonhamos o claro e o profundo
longa felicidade - vasto vigor
o coração é nosso mapa-mundo
quem é capaz de entender o amor?
Isabel Escudero
traduções de Fiat Umbra (Faça-se a Sombra, Pré-Textos, 2008).
Tuas lágrimas
Borram as estrelas
Amansam o mistério.
*
Sobre minha lousa
Pousada, oh como pesas!
Mariposa.
*
Cemitério.
Rebanhos de tumbas
Pastam em silêncio.
*
Já não penso:
Ouço uma música
Adentro.
*
Quando estou morto
Já sou um dos mortos.
*
Pode
Pode ser que sim
Que a alma seja
O nariz.
*
Um grão de alegria:
Amanhã será outro dia?
*
Dizer tudo?
Dizer nada?
Dizer algo basta.
*
Voto de pobreza:
Não ter
Nem ideia
As Frutas de Vera
Nem toda maçã
Apodrece
Nem toda laranja
É de sumo
Nem todo limão
Emagrece
Nem sempre a verdade
É a realidade
Vera
O real que se vê
Não se crê
Vera
Estudo para Suíte em Ré Menor
Em mim há o ar
Abafado
Cujo tempo
Aturdido
Amarelou
Em mim há o ar
Absurdo
Atabalhoado
Cujo tempo
Perdido
Rencontrou
poema ao vento para tristeza e alegria
das sete tristezas que me visitam
apenas quatro vacilam ao vento
no entanto
quando sou visitado
pelas vinte-e-uma alegrias
(em festa)
nada vacila
ao vento
Força nos olhos um sorriso
Você é um entulho de flechas,
lamparinas, bilhetes nunca mandados.
Você está cheio de pedras atiradas
que jamais caíram. Você é a mesa vazia,
o cinzeiro, o livro riscado,
a bússola apontando o sul.
Você é dicotômico, vazio, sambista.
Seus dentes enfraqueceram. Sua carne
ficou flácida, seu tesão secou.
Você não olha o espelho
por olhar. E quando olha
força o sorriso.
Você encontra o Verão toda manhã
nas palavras dos primeiros
passarinhos.
Quando a noite chega
Cada azul é diferente em sua dor.
Diante de nuvens carregadas de luz
O raio sabe:
o adentro da luz
ninguém resiste.
Em sua queda
o raio desconhece
as faces do trovão.
O raio sabe:
para ser luz por inteiro
deve errar o alvo.
Com seus dedos claros
o raio deixa tudo
se cegando de luz.
O raio gosta de defecar o céu.
