Archive for junho, 2009

Biografia de nuvens com intenções de chuva

terça-feira, junho 30th, 2009 | Citação, Pensamento-poema | 5 Comentários

 

 

 I.

 

São dois os motivos da chuva: o alto e o baixo. Cair e subir. São dois os extremos da chuva: a alegria e a tristeza. Mas entre estes extremos vemos sentimentos diversos: melancolia, conforto/aconchego, apaziguamento, assim como tormento, perigo, destruição. No imaginário popular são Pedro lava o céu, motivo que indica ruptura, pureza-revigorada-pelas-águas-que-levam-embora-o-sujo. Sujeira e pureza ficam assim imbricadas definitivamente. Dante Aliguieri, referindo-se ao instante criativo, disse: “Chove na minha imaginação”. Chover é isso mesmo: fecundar. Não importa se a terra ou a imaginação. Fecundar é motivo de geração, criação, que é motivo de produção. A imagem da chuva desperta a imagem vertical que traz consigo todas as referências ao que ascende e descende. Ao céu e ao abismo. Dizem que a chuva vem do céu. Isso é equivocado? Ela vem das nuvens ou será que vem do mar? É incorreto dizer que no céu também vemos chuvas de asteróides, cometas, estrelas? Ela tem a ver com a rima e o canto. A chuva fecunda a terra que traz o grão. A chuva destrói a seara e o pão. A chuva como todo símbolo é um duplo. Existe para o diálogo e o sentido de despertar, acordar, abrir os olhos.

 

 

 

II.

 

Pelas nuvens é possível descrever o bom e o mau tempo. Mas também, talvez, a boa e a má cidade. As nuvens e os guizos de Brasília, o cinza-garoa em São Paulo, as plumas galopantes no céu de Natal, o achatamento quente-seco do Sertão, tudo isso nos diz algo. Nos oito meses em que morei sozinho em Pirangi do Norte, no sul do Rio Grande, tive a oportunidade de conviver com diversos pescadores e todos eles falavam das nuvens. Foram eles que me falaram pela primeira vez desta ciência. Nuvem é sinônimo da diversidade dos humores do céu: nuvem carregada e nuvem “boa” para pescar; nuvem que anuncia chuva para daqui a dois dias e, na ausência delas, que anuncia mar bravo ou perigo e solidão. Nuvem de não sair ao mar e nuvem de se perder no mar; nuvem que faz corredor de vento e nuvem que faz o mar ficar parado e calmo igual óleo. Pelo menos ali, no litoral de Pirangi do Norte, sempre chovia dois dias antes da lua cheia. Pelo menos ali, as nuvens serviam para medir a emoção do tempo e a respiração do céu.

 

 

 

III.

 

Dizem que os poetas são os amantes das nuvens. São nefelibatas.

A palavra nefelibata tem origem do grego “nephele” (nuvem) e “batha”, (em que se pode andar). Ou seja, aquele que “anda nas nuvens”. Em literatura, diz-se do escritor que não obedece as regras literárias. No contexto geral, trata-se de uma pessoa idealista, que vive fugindo da realidade.”

 

in: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nefelibata 

 

 

 

IV.   

FELIZ DIA DAS CHUVAS

Retorno aos cadáveres para aprender sobre os silêncios. Pergunto aos amantes o que é o Amor e todos me apontam sorrisos marotos, diversos… Alguns não entendo. Outros sorrisos acalento para o futuro. Ainda não sei rir de todas as formas.

Quase todos os dias, o Amor vem simbolizar plataformas. Quem saberá galgar os espaços mais altos de si mesmo?

Retornemos pois aos cadáveres para reaprender os silêncios. Os silêncios do Amor e os silêncios do querer-se-bem.

Saberá o teu querer

querer-se?     

Feliz dia das chuvas

meu querido

coração.

nós que não explicamos o amor

domingo, junho 28th, 2009 | Poemas | 1 Comentário

 

não há embaraço ou sentimento disperso

não há anagrama que não forme coração 

e tudo é encontro de emoção e verso

para nós que não explicamos a paixão

 

nenhum atropelo ou vã sensação

apenas corpos tortos em terno furor

beijamos sexos cegos de tesão

somos os que não explicam o amor

 

sentimos águas alheias

aspiramos fundos odores  

tomamos vida nas veias

pra quê explicar amores?

 

nada de pudor no tempo e espaço

somente línguas no corpo-cubículo

o amor nunca nos foi escasso

já perdemos a noção do ridículo

 

sonhamos o claro e o profundo

longa felicidade - vasto vigor

o coração é nosso mapa-mundo

quem é capaz de entender o amor?

Isabel Escudero

sábado, junho 27th, 2009 | Citação | Nenhum Comentário

traduções de Fiat Umbra (Faça-se a Sombra, Pré-Textos, 2008).

 

Tuas lágrimas

Borram as estrelas

Amansam o mistério.

 

*

 

Sobre minha lousa

Pousada, oh como pesas!

Mariposa.

 

*

 

Cemitério.

Rebanhos de tumbas

Pastam em silêncio.

 

*

 

Já não penso:

Ouço uma música

Adentro.

 

*

 

Quando estou morto

Já sou um dos mortos.

 

*

 

Pode

Pode ser que sim

Que a alma seja

O nariz.

 

 *

 

Um grão de alegria:

Amanhã será outro dia?

 

*

 

Dizer tudo?

Dizer nada?

Dizer algo basta.

 

*

 

Voto de pobreza:

Não ter

Nem ideia

 

 

Fogueira de san Juan

quinta-feira, junho 25th, 2009 | Frasementos | 1 Comentário

 

A despeito de tantas máscaras

Todos sabem quem são

As Frutas de Vera

quinta-feira, junho 25th, 2009 | Poemas | Nenhum Comentário

 

Oh Vera

Nem toda maçã

Apodrece

Nem toda laranja

É de sumo

Nem todo limão

Emagrece

 

Nem sempre a verdade

É a realidade

Vera

 

O real que se vê

Não se crê

Vera

 

 

 

Estudo para Suíte em Ré Menor

quinta-feira, junho 25th, 2009 | Frasementos e Histórias Vis, Poemas | Nenhum Comentário

 

Em mim há o ar

Abafado

Cujo tempo

Aturdido

Amarelou

 

Em mim há o ar

Absurdo

Atabalhoado

Cujo tempo

Perdido

Rencontrou

poema ao vento para tristeza e alegria

quinta-feira, junho 18th, 2009 | Poemas | 1 Comentário

 

das sete tristezas que me visitam

apenas quatro vacilam ao vento

 

no entanto

 

quando sou visitado

pelas vinte-e-uma alegrias

(em festa)

nada vacila

ao vento

Força nos olhos um sorriso

quinta-feira, junho 18th, 2009 | Poemas | Nenhum Comentário

 

Você é um entulho de flechas,

lamparinas, bilhetes nunca mandados.

Você está cheio de pedras atiradas

que jamais caíram. Você é a mesa vazia,

o cinzeiro, o livro riscado, 

a bússola apontando o sul.

 

Você é dicotômico, vazio, sambista.

Seus dentes enfraqueceram. Sua carne

ficou flácida, seu tesão secou.

Você não olha o espelho

por olhar. E quando olha

força o sorriso.

 

Você encontra o Verão toda manhã

nas palavras dos primeiros

passarinhos.

Quando a noite chega

quarta-feira, junho 17th, 2009 | Frasementos | Nenhum Comentário

Cada azul é diferente em sua dor.

Diante de nuvens carregadas de luz

quarta-feira, junho 17th, 2009 | Poemas | Nenhum Comentário

O raio sabe:
o adentro da luz
ninguém resiste.

 

Em sua queda
o raio desconhece
as faces do trovão.

 

O raio sabe:
para ser luz por inteiro
deve errar o alvo.

 

Com seus dedos claros
o raio deixa tudo
se cegando de luz.

 

O raio gosta de defecar o céu.