Archive for agosto, 2009
o dois mil e doze de Das Dores
ouvi rumores
dizem que a peste está no ar
e os arrepios vêm par com as gosmas
e as embolações todas, os infernos todos
chegaram
ouvi rumores.
há rumores no ar
dizem
tudo vai delfinar.
ô povo pra gostar de ouvir
Das Dores!
Violetas
As violetas nunca crescem no meu jardim.
Preferem as sacadas da vizinha, os xaxins
Amadurecidos no jarro velho, lá tranqüilos
No antigo Casarão.
Quando as violetas surgem nos buquês
Ou chegam entrelaçadas no roça-roça
De seus fios, ou quando, lá tranquilas
No antigo Casarão
Na primavera, surgem devotas
Nas sacadas lajes varandas
aí sei - bem sei
Que violetas são devotas da tristeza.
Façamos silêncio
De onde a necessidade de silêncio? Que expediente é o de calar? Estranha e irresistível vontade de não falar e de não falar e de, se possível, calar 24 horas.
O silêncio estranhamente conduz à leitura e à escrita. Outros silêncios.
A palavra é aquilo que habita entre pausas.
O melhor dos silêncios é aquele desfrutado diante do mistério. Depois vem o silêncio da arte e o do amor, que é outra forma de mistério e de silêncio.
Em suma, ninguém sabe nada. Nem do amor, nem do mistério.
Façamos silêncio.
balada para o amigo desconhecido
A poesia assassinou um amigo meu. Ele morreu de incêndio. Presumivelmente, do lado lá, no primeiro segundo, deve ter procurado um cigarro qualquer e um lugar para sentar.
Depois deve ter refletido longamente, pensando nesta sua nova solidão.
O meu amigo vivia cansado de si mesmo. Descobriu que após a morte continuamos a nos perseguir, (”au, au”) igual cão latindo na janela.
Poema a la Manoel de Barros
Todas as empirias mostram nenhuma serventia para a poesia.
Mas para uma coisa ela serve sim senhor:
Adornar sopro de sapo
em noite de jia.
cometas no céu
No dia de santa Clara, o Anjo me apareceu num vermelho vestido de noiva. Tinha a força redobrada por ter mergulhado seus cabelos nas chamas de Vulcano.
O Anjo disse que, por alergia a glúten, não podia mais comer a óstia sagrada. Só comungava agora com vinho.
“Me tornei agora o vampiro de Cristo”… disse… “Bebo seu sangue todos os dias”.
Estranho. Os olhos do Anjo não estavam mais tristes.
poema em espiral
Gosto de matemática.
Não sei se é
algo nos ritmos
numes vazios
decimais
em mim.
Só sei que gosto de mate
com chocolate. Mate com
leite. Mate com máquinas.
Matemática. Ninguém é
capaz de entender tua
dez serventia.
Pra que serve um zero
à esquerda
igual
a mim?
frase roubada de um santo
Aprender a morrer custa metade da vida.
frase roubada de um ladrão
Tocar na ferida com o cadáver ainda vivo.
