Archive for setembro, 2009
a inhaca do silêncio
A poesia não jaz lágrimas secas. Se não chega vestida de madrugada,
traz arranjos de alevantes e gardênias não nascidas.
Sim, é isto a poesia: a vida ao avesso e ao averso.
A semente da poesia não floresce por que ela não cabe em vaso algum.
Onde quer que esteja alonga-se estreitada entre o mar e o sertão.
Sua terra é sempre a palavra extranhada. Entranhada.
A inhaca do silêncio de todos nós.
Mario Benedetti (1920-2009)
PASSATEMPO
(In: Viento del exílio, Ed. Sudamericana, 1981)
Quando éramos crianças
os velhos tinham trinta
um charco era um oceano
a morte lisa e plana
não existia
logo quando jovens
os velhos eram gente de quarenta
um tanque era oceano
a morte somente
uma palavra
já quando nos casamos
os anciões estavam com cinqüenta
um lago era um oceano
a morte era a morte
dos outros
agora veteranos
já atingimos a verdade
o oceano é por fim oceano
mas a morte começa a ser
a nossa
Histórias do Diabo – I
(Lembrança de uma entrevista para o semanário Dois Pontos, Natal/RN, em maio ou junho, sei lá eu, de 1990)
Pedro Chuvas havia feito um pacto com o Diabo numa encruzilhada no sul do Piauí.
Em companhia de quatro amigos, assaltaram uma agência do Banco do Brasil, em 1990, na cidade de Açu, no Rio Grande do Norte. Pedro e seus amigos haviam marcado um encontro com o Coisa-Ruim, numa sexta-feira 13, e pedido ao Besta-Fera que os tornassem ricos.
O Diabo tinha aceito a proposta e, no pacto, disse-lhes que, diante de qualquer problema, eles pronunciassem uma determinada palavra. Uma palavra mágica, capaz de fazer com que eles desaparecessem no ar. Como por encanto.
Essa palavra Pedro não me disse qual era.
E lá foram os quatro rapazes assaltar o banco. Logo nos primeiros minutos, os bandidos foram cercados pela polícia. Tomaram reféns, fugiram, pegaram um avião, um monomotor; voaram até Belém, acho eu, e ao aterrissar foram novamente cercados pela polícia.
Acuados e sem muita munição, lembraram do que o Diabo havia dito. A palavra. Pronunciaram-na uma, duas, três vezes… e nada aconteceu.
Foi então que o rito de matança começou.
Abriram a porta do monomotor e foram saindo um a um, descendo a mini-escada. Cada um dos rapazes levantava a mão e disparava um tiro contra a própria cabeça. Uma, duas, três vezes.
Menos Pedro Chuvas que não teve coragem de disparar.
Entrevistei-o naquele ano numa penitênciária, em Natal, curiosamente chamada Caldeirão do Diabo.
Em vez de se matar, Pedro entregou-se, jogou a arma ao chão. Para a imprensa disse que o Diabo era um sujeito envolvente, muito educado, charmoso, gentil. De certa forma, cativante e audaz. Disse que gostava de passar algumas horas em sua companhia, naquelas encruzilhadas quentes do Piauí.
Quando o entrevistei, confessou-me uma coisa que jamais esqueci:
Havia descoberto naquele dia, infelizmente, que as palavras nem sempre são mágicas.
Ouvi o homem dizer
Certa vez, numa palestra pouco antes de morrer, perguntaram a Paulo Leminski (1944-1989) o que era uma “grande obra”.
Leminski fez silêncio, baixou a cabeça, pensou um minuto, depois disse: “É aquela que possui em cada parte de si várias outras obras”.
