Archive for outubro, 2009

Cantiga para Laura Diz

quinta-feira, outubro 29th, 2009 | Poemas | 2 Comentários

Calma minha amiga,

que o trem não vem só. 

Muitas luas dão tristezas,

cada qual com o seu pó.

Cantiga para Laura Cerrato

quinta-feira, outubro 29th, 2009 | Pensamento-poema | 1 Comentário

Pois foi: primeiro arejou as ventas. Abriu os olhos e trouxe para si o sentido da chuva na janela. Ficava calada mais que falava. Falava pra trabalhar. Depois calava. O dia inteiro - calada! Pois foi: arejou as ventas, lustrou os olhos, limou a língua com azeite e pimenta-do-reino; afinou os sentidos como quem afina instrumentos de concórdia. Fez as pazes consigo. Fumou seu longo cachimbo, deixou a poesia vir.

Cantiga para Laura Avellaneda Santomé

quarta-feira, outubro 28th, 2009 | Frasementos | 2 Comentários

Hoje conclui a leitura da Tristeza. Páginas e páginas tortas para o amor. Ele descarinhos. Ela estender de mãos. Ele ego sobejando si mesmo. Ela riso embriagado de tesão. Ele é triste por que quer. Ela rola na grama um pouquinho. Ai, ai, esses dois. . .

Ele deveria aprender a ser mulher!

na calçada

terça-feira, outubro 27th, 2009 | Pensamento-poema | 1 Comentário

 

Prostitui a minha língua no Desconhecido. Abri as pernas ao canto e me deixei penetrar pela Noite.

Com meu casaco de pele de angústias, dei longas voltas no quarteirão do Nada.

A cada passo, o estado ermo, sumido; era o semblante do meu Narciso.

Quando me olhei no espelho, estava atordoado. Que veem os mortos na superfície do lago?

Ando devagar pela calçada do mundo como as putas a espera de clientes que nunca vêm.

Vendi meu gozo por contos-de-rés. Corpo que todos tem; coitos-di-versos a todos digo amém!

Fiz sexo com as palavras, mas elas se foram, deixando marcas de baton na minha boca.

Prostitui então minha lábia no falo da Poesia. Só para ter a cada dia uma nova paixão.

Por ser puta da Poesia, aceito no meu peito qualquer coração.

O casamento da dançarina com o palhaço

quarta-feira, outubro 21st, 2009 | Poemas | 1 Comentário

 

Para Samarone e Silvia

 

Porque a dançarina encontrou o palhaço

O amor re-amou a si mesmo, então

Brincou de graça, ser vento de aço

Sapatilha, coração.

 

Porque a dançarina encontrou o palhaço

O amor brincou consigo mesmo, paixão

Pulou, lambeu, gozou, “fudeu”; amado

Foi canção pra todo lado.

 

Porque a dançarina encontrou o palhaço

Ninguém entendeu: a bela e a fera?

A luz e o breu, o mar e o Crato?

Ninguém entendeu: foi amor pra todo lado.

 

Porque a dançarina encontrou o palhaço

O Poço transbordou alegria

A festa desfez o cansaço

João encontrou Maria

Infinito amor

Escancarado pra todo lado.

benção sonora

terça-feira, outubro 6th, 2009 | Frasementos | 1 Comentário

a moça, na carta,

escreveu o erro 

certado: “Filho,

Deus te bem soa!”

Leito

terça-feira, outubro 6th, 2009 | Poemas | 2 Comentários

 

O poeta dorme sobre artifícios.

Ainda pensa em salvar o mundo

O pobre. Ainda fantasia céus

Largos onde a matriz toa sinos

Vespertinos.

                              

O poeta dorme sobre fogos

Desde artifícios. Seus sonhos

São pipocos.

Suas pipocas

Artigos de fé.

 

Dorme no quarto de entulhos

Só para acordar quem ele é.

niilismo à brasileira

terça-feira, outubro 6th, 2009 | Poemas, ínfima estética | Nenhum Comentário

 

Estava no boteco quando alguns velhos começaram a discordar entre si.

Um disse: a pior época para viver no Brasil são os tempos atuais. Esses políticos aí… Outro disse: – Não, a pior época para mim foi era Collor e Sarney… – Mas a era Collor e Sarney não é a atual? – indagou outro, rindo. Alguém interveio em seguida: – Pior mesmo foi a ditadura! Vocês esqueceram? Um quinto se apresentou: – Vocês estão esquecendo a era Getúlio, que foi desastrosa. Horrível. Outro tentou ser sensato: – Ninguém pode saber realmente uma coisa dessas…

Um velho, parado e só, no fundo do salão, que não havia se pronunciado, disse: – Acho que, no fundo, tudo no Brasil foi sempre ruim. Todas as épocas foram uma merda. Nenhum político nunca prestou para nada!

Fez-se um silêncio homérico no lugar. Depois eles voltaram à carga e a discussão esquentou novamente. Retomaram as suas posições. Cada qual defendendo a pior época para se viver no Brasil.

Quando saí do boteco não tive a segurança do riso. Ruminei longamente sob a marquise da loja de usados, enquanto esperava a chuva passar. Cheguei então a uma conclusão descascudiana:

Talvez o pior do Brasil sejam os brasileiros.

Como entender este povo ou este lugar?

Lembrei logo de uma cena que vi e que daria uma foto, no mínimo, estranha.

Tempos atrás vi um sujeito diante da estátua da Justiça, em frente ao Supremo Tribunal Federal, ajoelhar, acender uma vela e rezar. Erguia as mãos, suplicava ajuda, implorava algo com os olhos costurados de agonia, enquanto a vela borrava a cera na Praça dos Três Poderes.

Sim, eu sei, você deve estar certo em pensar. Talvez sejam três poderes de merda.

Sim, eu sei, você deve estar certo em pensar. Talvez aqui tudo pareça fora do lugar.