Archive for novembro, 2009

Coisas que não sei dizer

segunda-feira, novembro 30th, 2009 | Citação | 2 Comentários

(Conversa imaginária com Montejo Navas)

Assim que me avistou no portão, o poeta perguntou logo: Gustavo, como posso manter o amor à altura do coração? Depois quis saber se o Sol necessitava de elogio; se o amor era o sexo virado do avesso e se as dúvidas da manhã tinham a aparência da claridade da chuva,

mas nada disso eu soube responder ao poeta.

Assim que voltei da cozinha com o copo de vinho, ele prosseguiu: Gustavo, os olhos da noite rezam pela escuridão?  Depois quis saber se os cidadãos das belas cidades parecem embriagados; se o desconhecido é nossa primeira pele; se criar espaços tem a ver com o bater de asas e, por fim, se eu tinha visto a formiga passeando no quadro de Matisse,

mas nada disso eu soube responder.

Antes de partir, fomos à janela fumar cigarros americanos, foi quando ele afirmou que os poetas são filósofos que esquecem para poder olhar de novo; que de tempos em tempos a alma precisa ajustar-se ao corpo; que existe uma caixa chamada solidão e que os lápis escrevem fugindo da sua sombra,

ainda assim não soube o que dizer.

Ao fim, entre dentes felizes, sugeriu que eu percebesse a cicatriz dos espelhos; que cada um leva um apocalipse no bolso; que a tarde é a elegia do dia; que o amor vive de ir e de voltar e que os poetas vivem a remendar a totalidade,

com palavras que não sabem dizer.

aos sensíveis de pedra

quinta-feira, novembro 26th, 2009 | Poemas | Nenhum Comentário

 

Aprender a chorar

Nem que pelo olho

De vidro.

o maestro e a partitura invisível

segunda-feira, novembro 23rd, 2009 | Poemas | 1 Comentário

 

Das trezentas mãos que saem do meu coração,

Só duas delas regem aquela velha canção.

 

Uma delas golpeia minha cabeça contra o céu.

A outra orquestra adentro sem batuta nem papel.

 

 

 

 

“Escrever o menos possível”

segunda-feira, novembro 23rd, 2009 | Citação | 2 Comentários

 

 

John Haffenden escreveu uma biografia sobre o poeta William Empson, “Among the Mandarins”, Paperback Book, 720 páginas, em que conta a seguinte história sobre o poeta T. S. Eliot:

 

Minha memória mais marcante é de estar caminhando [ao lado de Eliot] na Kingsway depois de algum almoço, provavelmente por volta de 1930, momento em que me encontrando sozinho com o grande homem senti que era oportuno levantar uma questão prática que andava me causando certa angústia. “O senhor acha realmente necessário, Mr. Eliot”, disparei, “como o senhor disse no prefácio à antologia dos poemas de Pound, que um poeta escreva versos ao menos uma vez por semana?” Ele estava se preparando para atravessar a Russel Square, olhando para o tráfego nas duas direções, e estávamos nos esquivando dos carros quando sua lenta resposta começou. “Eu estava pensando em Proust quando escrevi aquela passagem”, começou a profunda e triste voz, e então houve uma pausa considerável. “Tomando a questão de modo geral, eu diria, no caso de muitos poetas, que a coisa mais importante que eles teriam a fazer… é escrever o menos possível.” A gravidade da última frase era tão pura que lhe conferia uma qualidade quase lírica. Um leitor pode pensar que se tratava de uma manifestação de desdém ou de uma simples brincadeira, mas eu ainda hoje acho que não era; e naquele tempo me pareceu uma resposta não apenas muito sensata mas também muito satisfatória. Tirou um grande peso da minha consciência.

Alguém disse e fiquei a pensar

quarta-feira, novembro 18th, 2009 | Frasementos | 2 Comentários

 

“Apostar no homem é acertar no fracasso”.

ESTADO DE MAR

segunda-feira, novembro 16th, 2009 | Sem categoria | Nenhum Comentário

Pois veja só: coloquei na cabeça que estava em “estado de mar” e assim imaginei Natal e aquele sol intenso acompanhado do marulhar das ondas, a fina quentura do tempo, o balanço tai chi dos coqueirais. Por lá, nesta época, a brisa fica morna, adoçada e fresca, com lances úmidos e secos. Tanto que chamamos o vento da noite de “Sereno”. É por esta época que as águas do mar começam a ficar transparentes e vão assim até fevereiro. É possível ver profundidades variadas: fendas, barrancos, pescoços de pedras negras submerssas, corais, escolhos ora rasos ora fundos ladeados de cardumes multicoloridos de alevinos, tilápias, lambaris… Nesta época, as ondas quebram na praia de forma diferente: a renda das espumas convida o espectador a vir se deitar. A água lava a areia da praia prepando o terreno para a meninada que chega de férias e para os velhos em suas caminhadas e os amantes, os que chegam tocando violão e fazem fogueira à noite e sorriem enquanto cantam… 

Estado de mar.

 

 

 

 

Audio de entrevista de Roberto Juarroz a Santiago Kovadloff em 1993

segunda-feira, novembro 16th, 2009 | Sem categoria | Nenhum Comentário

http://www.robertojuarroz.com/entrevista_kovaldof.htm

ALGO SOBRE LA POESÍA

segunda-feira, novembro 16th, 2009 | Sem categoria | Nenhum Comentário


por Mario Morales, Dieter Kasparek e Roberto Juarroz

La poesía es casi nada. Pero nos hace posibles.

Es abrir las manos adentro, pero adentro de todos.

Toda poesía es poesía de amor, porque toda poesía se hace a la intemperie nocturna del amor.

No hay condiciones para la poesía, salvo el hombre.

Una señal indica un camino. En poesía una señal indica todos los caminos.

La única manera de recibir una creación es crearla de nuevo y tal vez crearse.

La poesía es un ademán del espíritu que va ganando otra razón.

Los muertos tal vez puedan hablar, pero no hay poesía de muertos.

La poesía es un lenguaje y hasta quizá una vida entre soledades.

Empieza casi al final de las palabras.

Es la sinceridad de lo que no conocemos.

Es una noche que se parece al día. O un día que se parece a la noche.

Una arena tan sensible que registra la edad de nuestra sombra.

La poesía no sabe nada de moral, pero es la más alta moral.

La poesía también es una postergación del apogeo de la palabra, pero en el único lugar donde la palabra no sufre.


Entre quien da y quien recibe, entre quien habla y quien oye, hay una eternidad sin consuelo. El poeta lo sabe.

Roberto Juarroz

segunda-feira, novembro 16th, 2009 | Sem categoria | Nenhum Comentário

Manco de una mano que nunca tuve,
cojo de un pie que no aprendí,
enarbolo mi lengua hasta el corazón
y me descuelgo de un techo de cualquier manera imposible.

Dios debiera empezar a cierta altura
o por lo menos a cierta hondura
o a cierto grado intolerable de la ausencia.
Pero no hay nada salpicando a las estrellas o
alargando a los muertos
o apaciguando a las linternas desbocadas de la nada.

Sólo me queda hacerme un corazón con la lengua y
tapar el techo con la frente,
mientras la lenta, mano anónima flota en un mar sin olas,
mientras el lento pie sin nadie da su paso.

René Char - dois poemas

sexta-feira, novembro 13th, 2009 | Citação | Nenhum Comentário

 

1.

Eu vagueava no ouro do vento,
declinando o refúgio das aldeias
onde o meu coração fora violentamente despedaçado.

Da dispersa torrente da vida estagnada extraíra eu o leal significado de Irene.

A beleza desfraldava-se
do seu fantasioso invólucro,
dava rosas às fontes.

A neve surpreendeu-o.
Ele debruçou-se sobre o rosto aniquilado,
bebeu dele a superstição em longos tragos.
Depois afastou-se,
movido pela perseverança daquele marulho,
daquela lã.

2.

O pão das estrelas me pareceu tenebroso e rijo no céu dos
homens, mas em suas mãos estreitas, li a luta dessas estrelas
convidando outras: emigrantes da ponte, sonhadoras ainda;
recolhi seu suor dourado, e por mim a terra parou de morrer.

rené char
furor e mistério
trad. margarida vale de gato
relógio de água
2000