Archive for janeiro, 2010

A pureza e outros vícios

quarta-feira, janeiro 27th, 2010 | ínfima estética | 3 Comentários

 

Quanto mais ele envelhecia, mais tentava ter olhos infantis.

 

Passava o dia a recitar Lorca: “Estou a buscar o sono das maçãs…” Tentava buscar também a atmosfera das tâmaras.

 

Com fervor, acreditava que o estado infantil era a saída para o coração do homem. Importava se o olho era tinto; se o amor era cru; se a palavra era alva; se a mordida era quente e se o saber era nu.

 

                                                              Se redizia:

                                                                  

Todo aquele que enxerga com o peito vê mais longe.

 

Quanto mais ele envelhecia, mais usava óculos infantis.

  

As mãos de Juvenal

terça-feira, janeiro 26th, 2010 | Crônica mais besta impossível | Nenhum Comentário

Juvenal merece uma foto. Melhor: as mãos de Juvenal merecem uma foto. Por duas semanas seguidas, a lotérica em que trabalha, na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, teve dois bilhetes premiados na Mega-Sena. E ambos os bilhetes saíram das mãos de Juvenal. Agora o que vemos é a lotérica da Rodoviária cheia, todos os dias, uma fila só, uma fila longa. Todos querem fazer uma fézinha com Juvenal, o homem que tem as mãos de ouro.

Poeta e pedreiro

terça-feira, janeiro 26th, 2010 | Frasementos | Nenhum Comentário

Cimenta a tua palavra com o aço do espírito.

Agradeço a Astronauta

sábado, janeiro 23rd, 2010 | Sem categoria | 2 Comentários

Meus agradecimentos a Lucas Moreira Telles, o famoso Astronauta, que ajudou este blog voltar a funcionar regularmente. com seus arquivos e tudo.

Informe aos prezados leitores

sábado, janeiro 23rd, 2010 | ínfima estética | Nenhum Comentário

 Um hacker, sei-lá-eu-o-quê, deve ter entrado no meu sistema (ui!) e apagado todas as minhas mensagens, comprovando empiricamente a total Inutilidade da Poesia.

Podem ver que desapareceu um monte de informações aí do lado direito, assim como o arquivo todo, as páginas anteriores, foram todas parar no beléléu ou na Baixa-da-Égua que, descobrir recentemente, fica no Alecrim, o bairro em que nasci, em Natal, RN.

Não liguem para o fim cibernético dos contos, poemas e crônicas que venho escrevendo aqui. Tenho tudo guardado em cofres na Suiça.

Se foi o destino, as musas ou os tremores do nosso coração, o que fizeram despencar parte deste Diário Razão Poesia, deve ser p.q. estamos na ordem do dia. Um amigo me disse: “Tu fala tanto da ‘estética do insignificante’, que, pronto, um hacker quer sumir contigo”.

Este hacker tem total razão!

Só que essa estética não é minha, mas do Manoel de Barros.

Tudo em toda a parte está a tremer e a cair, é verdade. Minha amiga e afilhada, Kelly Sumi, escreveu dizendo: “As coisas tremem para que a gente olhe para elas”. É isso mesmo.

Pronto. Tá explicado! Eis o motivo de tanta tremedeira em nossos corações ultimamente!

 Então, por favor, olhemos o Haiti.

O acendedor de lampiões

sexta-feira, janeiro 22nd, 2010 | ínfima estética | Nenhum Comentário

Estive a lembrar do acendedor de lampiões, do livro Pequeno Príncipe (1943), de Saint-Exúpery.

O Pequeno Príncipe vai até o planeta onde só mora o acendedor de lampiões, que acende a chama quando a noite chega e apaga ao amanhecer. Como os dias começam a passar mais rápidos, o acendedor tem mais trabalho, dorme menos. O Pequeno Príncipe acha a função do acendedor muito importante se comparada às funções dos outros moradores dos planetas que visitou.

No primeiro planeta ele visitou o rei, depois, noutro planeta, visitou o general, em seguida morava sozinho, em outro planeta, o vaidoso e, depois, o bêbado. “Finalmente”, diz o menino depois de encontrar o planeta onde mora o acendedor de lampiões, finalmente, um planeta onde alguém faz alguma coisa útil…

Viva o acendedor de lampiões! Antonio Porchia dizia: “Às vezes é preciso acender um fósforo, para iluminar as estrelas”.

Leito e foz

terça-feira, janeiro 19th, 2010 | Frasementos | 2 Comentários

Descobrir o rio onde desemboca o coração. 

Descobrir o coração que não busca as fronteiras, mas os caminhos que não têm fim. 

Descobrir o coração que não tem domínio sobre os enganos, nem sobre o amor ou sobre a verdade.

Mas qual o coração capaz de não se enganar?

Descobrir o coração arretado que não se cansa de beber sentimentos diversos. O coração capaz de errar e tentar remediar o erro.

Descobrir o coração onde desemboca o coração.

Quando o homem passar

terça-feira, janeiro 19th, 2010 | ínfima estética | 2 Comentários

 

O inferno do divino passa pelo inferno do humano.

 

Nenhum homem na Terra é anjo o suficiente. Por mais que queira. Por mais que ache.

 

Nenhum homem sob o céu vale o que cospe a tempestade.

Para aprender a voar

quarta-feira, janeiro 13th, 2010 | Contos de nadas | 1 Comentário

Não ter tido bunda, nem peito, nem barriga, nem nenhum tipo de saliência que acentuasse a sua estatura, fazia com que ele se sentisse de uma retidão sem par.

Ter sido magro e fino, finíssimo, e estar abaixo do peso sempre foi uma vantagem em um mundo dominado pelas dietas. Sua magreza tinha muitas vantagens: além da intimidade com o amplo, passava na roleta do ônibus sem problemas, caminhava desaparecido na multidão e arranjava sempre um lugarzinho para sentar. O que lhe incomodava eram os apelidos: palito, piaba, sumido, fósforo, poste, paleta, caneta, canudo, graveto, pescoço, entre outros.

Era tão magro que, certa vez, foi derrubado na praia por uma rajada de vento. Ficou furioso.

Temendo ser ridicularizado, levantou-se do chão e começou a socar e a chutar o nada como se ali tivesse gente. O vento não revidou. Já o tinha nocauteado.

         No dia seguinte, teve uma ideia nada inteligente. Procurou na montanha o lugar onde o vento soprava forte, perto do desfiladeiro. Amarrou um cordão de nylon na pedra mais forte e alta, depois atou com um nó cego a outra ponta do cordão na cintura, fechou os olhos, abriu os braços e se jogou dali.  

         Enquanto caia foi novamente atingido por uma rajada de vento em velocidade ascendente, que o fez dançar para cá e para lá, como se fosse pipa…

         Não tardou e ele logo alcançou vôo. Subiu. Estava mais alto que a pedra, mais longe que a nuvem, mais infinito que o azul. Era a sua vingança.

         Antes de se esborrachar, tinha finalmente dominado o nada!

Conto filosófico

terça-feira, janeiro 12th, 2010 | Contos de nadas | 3 Comentários

 

No café da livraria o intelectual graceja em alto e bom som: “Derrida vai derreter !…” E cai na gargalhada… Ri sozinho, estrondando o ambiente. Ninguém parece ter entendido a piada, então ele repete: “Saca, Derrida, o filósofo, sabe? Ele vai derreter!!!” E ri novamente, enquanto seus companheiros de mesa, envergonhados, olham para os lados. A não ser eles, ninguém toma conhecimento da besteira.

 

Não satisfeito, o homem insiste:

 

“Se Derrida vai derreter, Sartre vai sartá, Espinosa vai espinhá, Camus vai cumê…” E ri novamente, desta vez colocando a mão na pança.

 

O homem parece não estar preocupado com nada. Seus amigos, já colocam os livros na frente dos rostos, temendo serem reconhecidos por alguém.

 

O homem não desiste:

 

“Se Derrida vai derreter, Kant vai cantar, Morin vai morrer e Barthes vai bater…”

 

Não tinha jeito. Ali, a rima besta, o riso solto e solitário não teria fim jamais.