Archive for fevereiro, 2010

Enquanto giro o girassol

quarta-feira, fevereiro 24th, 2010 | Poemas | 1 Comentário

 

Queria fotografar o rosto de todos os homens do mundo ao despertar pela manhã.

E queria fotografar o mesmo rosto ao dormir. Queria fotografar os arrepios do pêlo,

Os ouriços em conformidade clamando - hirtos – os cabelos.

 

Primeiro, faria uma fotomontagem para as piscadelas das crianças. Faria

Retrato delas com olhos esbugalhados, bocas tortas e orelhas de abano.

Depois um 3X4 das bocas escovando os dentes. Uma exposição no Masp

Seria dedicada ao cabelo de musas enfurecidas - confrontadas ao vento.

Por fim, realizaria um preto-e-branco sobre as tardes de chuva dos corações.

 

Meu book teria o título: “Enquanto giro o girassol”.

- A foto da capa?

O giro do teu olhar sob o prisma das estações.

Enquanto ouço o realejo

sexta-feira, fevereiro 19th, 2010 | Poemas | Nenhum Comentário

 

Minha rima é tosca

Como a sopa

Na mosca

 

Meu amor é fraco

Como quem leva

Sopapo

 

Meu choro é mudo

Como quem cala

Tudo

 

Minha dor é forte

Como faminto

Do Norte

 

Meu poema é finito

Como o quadro

O grito

Desencontro de almas

sexta-feira, fevereiro 19th, 2010 | Poemas | 2 Comentários

(Livre releitura do poema “Encontro de Almas”, de Rumi)

 

Então tá

Conversemos sem dizer palavra

 

Entendamo-nos

 

Sem língua sem lábios

Sem exibir os dentes

 

Entendamo-nos

 

Sem os contornos da boca

Sem a necessidade dos olhos

Sem os estados alterados

Das paixões

 

Então tá

Deixemos assim

No faz de conta

 

Era uma vez

O amor

 

Faz de conta que a gente se amou

Faz de conta que você nada sentiu

Faz de conta que o coração mentiu

 

Você sabe

Faz de conta é melhor do que nada

E o nada entre nós sempre existiu

 

Então tá

 

Deixemos

O Amor como está

Nulo de nada

 

Amar o nada do Amor

É melhor do que nada

Amar

 

Amar mesmo de verdade

É tarefa de gigantes

 

Você sabe

Não servimos para nada

 

Sequer para amantes 

 

 

Rumi (Séc. XIII - Poemas Místicos)

sexta-feira, fevereiro 19th, 2010 | Citação | Nenhum Comentário

 

“Para mudar a paisagem

Basta mudar o sentimento”.

Carnaval

terça-feira, fevereiro 16th, 2010 | poema quase erótico | 1 Comentário

 

O que me atrai em ti são as camadas de maciez da tua língua

Quando chamas o meu nome. Me atrai as visagens que não tivemos,

O batimento oculto dos teus lábios. O samba-funk da minha língua

Nos teus pés de dançarina. Me atrai os filmes que não ouvimos,

O touro calmo da nossa paixão. O sexo alvo que não fingimos.

Atrai o teu gozo múltiplo com a flecha lançada do meu coração.

 

Quantos beijos deixamos de dar por conta da chuva que não tomamos?

Quantos dedos a te lamber?! Me atrai não poder te levar mais à matinê.

Como farejar as tuas gargalhadas de menina? Nem imaginas o carnaval

Da minha língua nos teus pés de colombina.

 

 

 

Nada demais ou quase tudo

sexta-feira, fevereiro 12th, 2010 | Citação | Nenhum Comentário

“A poesia não é outra classe de luz elétrica, nem receita para as farmácias e os hospitais da lógica, nem conto, entretenimento para a tertulia do café social. Como linguagem última e reveladora do homem para o homem, a poesia é obscuridade, fragmento, abissal reflexão sobre sua própria natureza.”

Roberto Juarroz  

 

 

***

“Só podemos viver no entreaberto, exatamente sobre a linha hermética de partilha entre luz e sombra”.

René Char, sobre os poetas. 

***

A poesia não é magia. A transcendência da poesia, como de qualquer outra arte, acha-se na sua capacidade em dizer a verdade, para desencantar e desintoxicar” 

 W. H. Auden

***

“Poesia é aquilo que me faz rir, chorar, uivar, aquilo que me arrepia as unhas do dedo do pé, o que me leva a desejar fazer isso, ou aquilo, ou nada”.

Dylan Thomas.

 

***

O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
- essa voz somos nós.

Ferreira Gullar

***

“Poesia é trabalho, em cima de harmonia, ritmo, rima. Sou prático pela palavra. Se me vem um desejo de fazer um poema e, depois de algumas linhas, me falta uma palavra, é à noite que ela me vem. Aí, acordo e anoto num caderninho. Stella, minha mulher, fica incomodada. Já veio a palavra, Manoel? Então dorme. Poesia é assim. O poeta é um visionário.”

Manoel de Barros

Dentro da lágrima uma pedra

segunda-feira, fevereiro 8th, 2010 | Poemas | 2 Comentários

 

Replantei o meu ninho

nos galhos mais altos,

para ver se encontrava

um coração.

 

Coloquei dentro do ninho

um sonho e dentro do sonho

uma esperança,

 

para ver se aninhava

o teu coração.

 

De nada adiantou.

 

Veio o lenhador

e pôs abaixo a árvore,

o ninho e a minha ilusão.

 

Tomei novamente o sonho nas mãos.

Dentro já não havia nenhuma paixão.

 

Tornei a replantar o meu ninho nos galhos mais altos,

para ver se encontrava nos cumes qualquer coração.

 

De nada adiantou.

 

Coloquei então dentro do ninho

uma lágrima e dentro da lágrima

uma pedra

para ver se calava de vez

qualquer sonho, esperança

ou coração.