Archive for fevereiro, 2010
Enquanto giro o girassol
Queria fotografar o rosto de todos os homens do mundo ao despertar pela manhã.
E queria fotografar o mesmo rosto ao dormir. Queria fotografar os arrepios do pêlo,
Os ouriços em conformidade clamando - hirtos – os cabelos.
Primeiro, faria uma fotomontagem para as piscadelas das crianças. Faria
Retrato delas com olhos esbugalhados, bocas tortas e orelhas de abano.
Depois um 3X4 das bocas escovando os dentes. Uma exposição no Masp
Seria dedicada ao cabelo de musas enfurecidas - confrontadas ao vento.
Por fim, realizaria um preto-e-branco sobre as tardes de chuva dos corações.
Meu book teria o título: “Enquanto giro o girassol”.
- A foto da capa?
O giro do teu olhar sob o prisma das estações.
Enquanto ouço o realejo
Minha rima é tosca
Como a sopa
Na mosca
Meu amor é fraco
Como quem leva
Sopapo
Meu choro é mudo
Como quem cala
Tudo
Minha dor é forte
Como faminto
Do Norte
Meu poema é finito
Como o quadro
O grito
Desencontro de almas
(Livre releitura do poema “Encontro de Almas”, de Rumi)
Então tá
Conversemos sem dizer palavra
Entendamo-nos
Sem língua sem lábios
Sem exibir os dentes
Entendamo-nos
Sem os contornos da boca
Sem a necessidade dos olhos
Sem os estados alterados
Das paixões
Então tá
Deixemos assim
No faz de conta
Era uma vez
O amor
Faz de conta que a gente se amou
Faz de conta que você nada sentiu
Faz de conta que o coração mentiu
Você sabe
Faz de conta é melhor do que nada
E o nada entre nós sempre existiu
Então tá
Deixemos
O Amor como está
Nulo de nada
Amar o nada do Amor
É melhor do que nada
Amar
Amar mesmo de verdade
É tarefa de gigantes
Você sabe
Não servimos para nada
Carnaval
O que me atrai em ti são as camadas de maciez da tua língua
Quando chamas o meu nome. Me atrai as visagens que não tivemos,
O batimento oculto dos teus lábios. O samba-funk da minha língua
Nos teus pés de dançarina. Me atrai os filmes que não ouvimos,
O touro calmo da nossa paixão. O sexo alvo que não fingimos.
Atrai o teu gozo múltiplo com a flecha lançada do meu coração.
Quantos beijos deixamos de dar por conta da chuva que não tomamos?
Quantos dedos a te lamber?! Me atrai não poder te levar mais à matinê.
Como farejar as tuas gargalhadas de menina? Nem imaginas o carnaval
Da minha língua nos teus pés de colombina.
Nada demais ou quase tudo
“A poesia não é outra classe de luz elétrica, nem receita para as farmácias e os hospitais da lógica, nem conto, entretenimento para a tertulia do café social. Como linguagem última e reveladora do homem para o homem, a poesia é obscuridade, fragmento, abissal reflexão sobre sua própria natureza.”
Roberto Juarroz
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“Só podemos viver no entreaberto, exatamente sobre a linha hermética de partilha entre luz e sombra”.
René Char, sobre os poetas.
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“A poesia não é magia. A transcendência da poesia, como de qualquer outra arte, acha-se na sua capacidade em dizer a verdade, para desencantar e desintoxicar”
W. H. Auden
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“Poesia é aquilo que me faz rir, chorar, uivar, aquilo que me arrepia as unhas do dedo do pé, o que me leva a desejar fazer isso, ou aquilo, ou nada”.
Dylan Thomas.
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O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,
a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
- essa voz somos nós.
Ferreira Gullar
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“Poesia é trabalho, em cima de harmonia, ritmo, rima. Sou prático pela palavra. Se me vem um desejo de fazer um poema e, depois de algumas linhas, me falta uma palavra, é à noite que ela me vem. Aí, acordo e anoto num caderninho. Stella, minha mulher, fica incomodada. Já veio a palavra, Manoel? Então dorme. Poesia é assim. O poeta é um visionário.”
Manoel de Barros
Dentro da lágrima uma pedra
Replantei o meu ninho
nos galhos mais altos,
para ver se encontrava
um coração.
Coloquei dentro do ninho
um sonho e dentro do sonho
uma esperança,
para ver se aninhava
o teu coração.
De nada adiantou.
Veio o lenhador
e pôs abaixo a árvore,
o ninho e a minha ilusão.
Tomei novamente o sonho nas mãos.
Dentro já não havia nenhuma paixão.
Tornei a replantar o meu ninho nos galhos mais altos,
para ver se encontrava nos cumes qualquer coração.
De nada adiantou.
Coloquei então dentro do ninho
uma lágrima e dentro da lágrima
uma pedra
para ver se calava de vez
qualquer sonho, esperança
ou coração.
