O dia em que fui carteiro
Naquele dia fui o portador das rosas.
Nunca tinha antes sido carteiro de flores, então, pensando no alvoroço dos corações, topei. O moço, desconcertado de amores, pediu também que eu escrevesse o texto do cartão.
- Você não é poeta? Pois bem, me ajude, escreva aí uma coisa para que ela ouça o meu coração – dizia ele e olhava para o céu, como quem buscava andorinhas.
- Mas escrevo o quê, homem-de-deus? Não é assim… Tem de ser algo que o seu coração fale…
Ele demorou-se, pensou sem remédios… Estava mesmo a buscar andorinhas.
- Então escreva aí, disse em seguida, nunca duvide de um homem com coração verdadeiro!
Foi então o que escrevi. Simples e verdadeiro. Pus o cartão junto às rosas e levei o buquê. A moça trabalhava num laboratório. Era um lugar branco. Com mãos de carteiro-aprendiz, entreguei o buquê e o cartão.
A moça estava tão tímida que não conseguiu olhar nos olhos do carteiro. Só tirou as mãos dos bolsos do avental quando lhe entreguei o buquê de amores. Seis rosas abertas acenavam o risco das paixões.
Ela então soltou-se, sorriu desmedida, deflorada de alegria. Me deu até três abraços.
- Você tem coragem de amar?, perguntou ela depois.
- Coragem eu tenho, respondi. O que não tenho é sorte.
- Você tem coragem de esperar o amor?, insistiu ela.
Desta vez não soube o que responder. O amor faz a gente engolir palavras.
Não me demorei, afinal, eu era apenas aprendiz de carteiro.
Ao ir embora, tive a impressão de ouvir um sussurro. Talvez vindo de uma das rosas do buquê. Talvez vindo das palavras que engoli…
- Gustavo, o amor é uma flor que só o tempo pode desabrochar.
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