O dia em que fui carteiro

segunda-feira, março 1st, 2010 | Crônica mais besta impossível

 

 

 

Naquele dia fui o portador das rosas.

 

 

Nunca tinha antes sido carteiro de flores, então, pensando no alvoroço dos corações, topei. O moço, desconcertado de amores, pediu também que eu escrevesse o texto do cartão.

 

- Você não é poeta? Pois bem, me ajude, escreva aí uma coisa para que ela ouça o meu coração – dizia ele e olhava para o céu, como quem buscava andorinhas.

 

- Mas escrevo o quê, homem-de-deus? Não é assim… Tem de ser algo que o seu coração fale…

 

Ele demorou-se, pensou sem remédios… Estava mesmo a buscar andorinhas.

 

- Então escreva aí, disse em seguida, nunca duvide de um homem com coração verdadeiro!

 

Foi então o que escrevi. Simples e verdadeiro. Pus o cartão junto às rosas e levei o buquê. A moça trabalhava num laboratório. Era um lugar branco. Com mãos de carteiro-aprendiz, entreguei o buquê e o cartão.

 

A moça estava tão tímida que não conseguiu olhar nos olhos do carteiro. Só tirou as mãos dos bolsos do avental quando lhe entreguei o buquê de amores. Seis rosas abertas acenavam o risco das paixões.

 

 

Ela então soltou-se, sorriu desmedida, deflorada de alegria. Me deu até três abraços. 

 

- Você tem coragem de amar?, perguntou ela depois.

 

- Coragem eu tenho, respondi. O que não tenho é sorte.

 

- Você tem coragem de esperar o amor?, insistiu ela.

 

Desta vez não soube o que responder. O amor faz a gente engolir palavras.

 

 

Não me demorei, afinal, eu era apenas aprendiz de carteiro.

 

Ao ir embora, tive a impressão de ouvir um sussurro. Talvez vindo de uma das rosas do buquê. Talvez vindo das palavras que engoli…

 

- Gustavo, o amor é uma flor que só o tempo pode desabrochar. 

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