Para aprender a voar
Não ter tido bunda, nem peito, nem barriga, nem nenhum tipo de saliência que acentuasse a sua estatura, fazia com que ele se sentisse de uma retidão sem par.
Ter sido magro e fino, finíssimo, e estar abaixo do peso sempre foi uma vantagem em um mundo dominado pelas dietas. Sua magreza tinha muitas vantagens: além da intimidade com o amplo, passava na roleta do ônibus sem problemas, caminhava desaparecido na multidão e arranjava sempre um lugarzinho para sentar. O que lhe incomodava eram os apelidos: palito, piaba, sumido, fósforo, poste, paleta, caneta, canudo, graveto, pescoço, entre outros.
Era tão magro que, certa vez, foi derrubado na praia por uma rajada de vento. Ficou furioso.
Temendo ser ridicularizado, levantou-se do chão e começou a socar e a chutar o nada como se ali tivesse gente. O vento não revidou. Já o tinha nocauteado.
No dia seguinte, teve uma ideia nada inteligente. Procurou na montanha o lugar onde o vento soprava forte, perto do desfiladeiro. Amarrou um cordão de nylon na pedra mais forte e alta, depois atou com um nó cego a outra ponta do cordão na cintura, fechou os olhos, abriu os braços e se jogou dali.
Enquanto caia foi novamente atingido por uma rajada de vento em velocidade ascendente, que o fez dançar para cá e para lá, como se fosse pipa…
Não tardou e ele logo alcançou vôo. Subiu. Estava mais alto que a pedra, mais longe que a nuvem, mais infinito que o azul. Era a sua vingança.
Antes de se esborrachar, tinha finalmente dominado o nada!
1 Comentário to Para aprender a voar
afinal contra o nada não há muito o que se fazer.
saudadeeees!

18 de janeiro de 2010