Para aprender a voar

quarta-feira, janeiro 13th, 2010 | Contos de nadas

Não ter tido bunda, nem peito, nem barriga, nem nenhum tipo de saliência que acentuasse a sua estatura, fazia com que ele se sentisse de uma retidão sem par.

Ter sido magro e fino, finíssimo, e estar abaixo do peso sempre foi uma vantagem em um mundo dominado pelas dietas. Sua magreza tinha muitas vantagens: além da intimidade com o amplo, passava na roleta do ônibus sem problemas, caminhava desaparecido na multidão e arranjava sempre um lugarzinho para sentar. O que lhe incomodava eram os apelidos: palito, piaba, sumido, fósforo, poste, paleta, caneta, canudo, graveto, pescoço, entre outros.

Era tão magro que, certa vez, foi derrubado na praia por uma rajada de vento. Ficou furioso.

Temendo ser ridicularizado, levantou-se do chão e começou a socar e a chutar o nada como se ali tivesse gente. O vento não revidou. Já o tinha nocauteado.

         No dia seguinte, teve uma ideia nada inteligente. Procurou na montanha o lugar onde o vento soprava forte, perto do desfiladeiro. Amarrou um cordão de nylon na pedra mais forte e alta, depois atou com um nó cego a outra ponta do cordão na cintura, fechou os olhos, abriu os braços e se jogou dali.  

         Enquanto caia foi novamente atingido por uma rajada de vento em velocidade ascendente, que o fez dançar para cá e para lá, como se fosse pipa…

         Não tardou e ele logo alcançou vôo. Subiu. Estava mais alto que a pedra, mais longe que a nuvem, mais infinito que o azul. Era a sua vingança.

         Antes de se esborrachar, tinha finalmente dominado o nada!

1 Comentário to Para aprender a voar

yoko
18 de janeiro de 2010

afinal contra o nada não há muito o que se fazer.

saudadeeees!

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