Sobre
Entrevista - 28 Mar 2009
Um herói chamado leitor
O professor Gustavo de Castro e Silva analisa alguns pontos importantes de uma das últimas obras de Calvino. Além disso, conta como foi sua visita à viúva do autor
Depois de 30 anos de publicação de Se um viajante numa noite de inverno, muito a ainda estar por ser descoberto. O professor Gustavo de Castro e Silva, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), tentou dirimir o que faltava ser dito sobre o livro e também sobre o restante da obra de Calvino. Depois de quatro anos dedicados a isso, nasceram as páginas de um estudo amplo.
Italo Calvino - pequena cosmovisão do homem, publicado pela editora da UnB, confere ao professor o posto de doutor na obra do escritor. Identificou quatro aspectos pertinentes aos livros de Calvino: o silêncio, o tempo, o leitor e as substâncias vitais. Para investigá-los a fundo, foi a Roma, conheceu o escritório onde ele trabalhava e visitou a casa onde morava. Quem o recebeu foi a viúva do escritor, Esther Calvino - que já havia sido tradutora do marido.
Mesmo assim, ele acredita que o livro nunca chegou a ser entendido direito. Nesta entrevista, o professor esclarece pontos importantes na construção da narrativa de Se um viajante, um dos últimos livros do autor. “Calvino era um autor que não tinha preocupações meramente literárias, mas científicas também. Preocupação com a teoria do caos e do pensamento complexo”, finaliza. (Alan Santiago, Especial para O POVO)
O POVO - Depois de 30 anos que o livro Se um viajante numa noite de inverno foi lançado, como o senhor acredita que ele é encarado atualmente? Qual o percurso evolutivo que a ciência literária e a fortuna crítica têm atribuído ao livro?
Gustavo de Castro e Silva -Quando Se um viajante numa noite de inverno foi escrito, entenderam que era um livro de contos e não um romance. Na época, perguntaram ao Calvino quando ele ia finalmente escrever um romance. E isso o deixava muito irritado. Ele não entendia porque nunca se achou um escritor de romances, sempre se achou escritor de contos. Se um viajante é uma experiência de romance diferente. O livro, quando saiu, foi mais compreendido pela Academia, por intelectuais, pelos estruturalistas, pelos semióticos do que pelo público. Calvino deu muitas entrevistas - na época ele morava em Paris - tentando explicar. E o livro logo foi enquadrado como produto semiótico, vindo de conversas de Calvino com Roland Barthes e Greimas. Eu tenho impressão que esse livro nunca foi entendido direito. Acho que nesses 30 anos ele continua incompreendido na sua totalidade.
OP - Por quê?
Gustavo - Porque foi investigado muito pela forma dele e pouco pelo conteúdo. Acho que mereceria mais uma análise em todos os capítulos que compõem. E talvez um estudo de recepção para entender tanto como a Europa quanto fora de lá receberam o livro.
OP - Na época do lançamento do livro, o crítico Angelo Guglielmi criticou a obra, entre outras coisas, pelo aspecto supostamente megalomaníaco de tentar enfeixar num mesmo romance todos os autores. Essa é uma crítica que tenta colocar por terra as ideias da estrutura do trabalho do Calvino. Que outras críticas nesse sentido foram dirigidas a ele?
Gustavo - O livro irrita bastante quem gosta de um romance clássico. Esse modelo que o Calvino construiu ele costumava chamar de romance de estrutura pontuada e em forma de conto. Por isso, pela forma inovadora, ele não foi muito querido na época. Não tem a linearidade do romance. Ele também tem um aspecto espiral onde ele finaliza e começa constantemente.
OP - O que o senhor acredita que Calvino esteja querendo nos dizer com isso?
Gustavo - Ele quer contar a história do leitor e do amor pela literatura. Mostrar que o leitor está constantemente prosseguindo e recomeçando. Então, é um romance pródigo, onde o protagonista é o leitor. Ele quer mostrar que o mundo é um eterno início e recomeço, com vários romances, onde os gêneros se misturam e podem se articular formando uma única narrativa. Na verdade, a narrativa de Se um viajante funciona como Sahrazad. O Leitor e a Leitora seriam essa Sahrazad, e o livro se chamaria As Mil e uma Noites, eternos recomeços… Calvino era declaradamente admirador do livro e tentou de uma forma brincar com esse estilo.
OP - Qual era o projeto literário maior de Calvino?
Gustavo - Os projetos amadureciam em Calvino. Em média, ele levava dez anos para escrever um romance. Tinha um arquivo enorme, várias pastas onde, cada texto que escrevia, identificava qual projeto ficava melhor. Então, ele jogava o texto naquela pasta e, com o tempo, dependendo de como o projeto fosse se configurando ele dava uma forma final. Assim foi com Palomar, Se um viajante, Marcovaldo… Se um viajante foi um caso onde contos esparsos já escritos, que ele queria dentro do livro. E ele decidiu dar uma forma, articulando esses contos com uma narrativa que os unisse. Eu costumo dizer que a clareza do projeto literário dele pode ser visto no livro Seis propostas para o próximo milênio. Aquilo é a estética do Calvino: a leveza, a exatidão, a rapidez…
OP - O papel do leitor ocupa uma posição central nas obras de Calvino - e não apenas em Se um viajante. Quem é esse leitor? Esse sujeito é tão fragmentado quanto a estrutura romanesca?
Gustavo - O leitor é o herói para Calvino. O título já fala do viajante. Talvez numa noite de inverno ou de verão, mas é sempre um viajante. Esse Leitor, em companhia da Leitora, que é também protagonista do livro, percorre todos os caminhos, viajam pela imaginação, estão em todos os lugares do mundo. Esse leitor é metamorfoseado, é inquieto, caótico. O que dá unidade à sua aventura é o olhar. O olhar demiurgo é o grande elemento unificador, que dá o ponto de unidade, que articula o caos e a ordem. Por isso que esse Leitor – poucas pessoas percebem isso – mas há um leitor com L maiúsculo no livro e um leitor com l minúsculo. O Leitor com L maiúsculo é o personagem herói; com l minúsculo somos nós, os receptores, que lemos o livro como apreciadores. Sutilmente Calvino coloca aí uma situação de espelho em que o leitor que lê pode se identificar facilmente com o leitor personagem. Esse jogo de espelhos, de esconder, mostra-e-revela é uma das estratégias mais felizes do livro. Ele consegue fazer com que nós, que apreciamos a obra e o personagem, encontremos uma só narrativa.
OP - E, nas outras obras do Calvino, o leitor também tem um papel fundamental?
Gustavo - O leitor volta e meia aparece como em Especulação Imobiliária. O Barão nas Árvores é, por excelência, um leitor. Ele lê livros e dialoga com os filósofos da época. Palomar é, sobretudo, um leitor. Diria que Palomar é o romance do olhar. E, como tal, é um leitor que não lê livros, mas lê o mundo. Logo depois que o Calvino escreveu Se um viajante, ele chegou a publicar um artigo – que não difícil de encontrar –, chama-se O mundo escrito e o mundo não-escrito, em que ele diz a diferença entre o leitor que lê livros e o leitor que lê mundos só para se ter a idéia da importância desse personagem no mundo pós-moderno – naquela época, Calvino já via sua obra associada à pós-modernidade. Desde o início da escritura dele, ele teve um cuidado com esses personagens leitores, porque ele mesmo tinha uma ligação muito grande com esses leitores contumazes, que não distinguem palavra escrita dos objetos sensíveis.
OP - Nas entrevistas que deu em vida, como Calvino recordava a infância e a juventude?
Gustavo - Eram sempre experiências próximas do laboratório da mãe, que era professora universitária, bióloga. E também com o pai, que era pesquisador de florestas tropicais. Ele era uma criança muito solitária, estava sempre perto do pai ou da mãe nos laboratórios ou no campo. Essa vivência com os pais influenciou muito ele. Depois veio o cinema, a vida em San Remo, as viagens de longa distância. Calvino era uma criança que desenhava, gostava de quadrinhos. E isso é uma coisa que se reflete em personagens tão caricatos como em O Barão nas Árvores, O Cavaleiro Inexistente, personagens muito emblemáticos, porque lembram os quadrinhos. Calvinho tinha um pouco essa intenção.
OP - Quanto do engajamento social que Calvino demonstra nos primeiros textos perdurou para o resto da obra?
Gustavo - Calvino foi do Partido Comunista até 1956, mas depois dessa época esse caráter de engajamento praticamente desaparece na obra dele. Se você observar O Barão nas Árvores, encontra as questões do Estado, os criminosos, os marginais, a relação do Estado com o povo. Sempre é dessa forma que ele consegue conquistar seu lado, digamos, comunista, através da personagem povo. E esse povo, me parece, está cheio de ingenuidade, bondade, vontade de mudar alguma coisa. É uma visão do povo como uma personagem caridosa, que merece cuidados.
OP - Quais o senhor acredita que tenham sido os momentos importantes da vida do autor que marcaram sua literatura, seu jeito de escrever?
Gustavo - Essa é uma pergunta difícil. Difícil dizer, na vida de um homem de 60 e tantos anos, os acontecimentos realmente importantes. Não sei, talvez o nascimento da filha ou o casamento com a Esther. Eu diria a você que não tem como não registrar a participação dele na Segunda Guerra, como combatente clandestino. A vida em San Remo, a infância também foi muito importante. A vida como editor da Einaudi moldou um pouco o olhar de Calvino sobre as obras, sobre o outro, sobre o mundo. Ele foi responsável por lançar Primo Levi como escritor. O tempo que morou em Paris com a mulher e a filha durante quinze anos. E também os encontros com outros escritores como Hemingway, Aldous Huxley, Jorge Luis Borges. Esses encontros foram marcantes pra ele, aproveitava muito, porque refletia sobre a importância desses autores na obra dele, com raridade e preciosidade.
OP - Para sua tese de doutorado, o senhor visitou Esther Calvino. Como foi a conversa com ela?
Gustavo - Eu queria saber o que ela achava das traduções, como ela o via como escritor, conhecer também a casa e o escritório dele. Foi uma tarde regada a chá e descontração. Me recebeu extremamente bem, conversamos muito e ela me falou do espírito de equilíbrio que ele tanto prezava na obra e na vida pessoal.
Entrevista também disponível em: http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/866151.html
————————————————–
Entrevista concedida ao escritor Lívio Oliveira, para o site Substantivo Plural (www.substantivoplural.com.br) em 24 de Setembro de 2008.

Gustavo de Castro
Gustavo de Castro e Silva é pai de Emanuel, mas possui outros filhos: os seus livros, que são muitos. A escrita é um vício de que nunca se curou. Para ele, escrever, viajar e contemplar são práticas cotidianas. Intitula-se um “vagamundo multicultural”, caminhante com a poesia, ora escrevendo, ora pesquisando o sentimento universal da beleza. Gustavo possui graduação em Comunicação Social/Jornalismo pela UFRN (1990), mestrado em Educação (com área de concentração em Tecnologias da Comunicação, 1997 e doutorado em Ciências Sociais pela PUC-SP (2002). Atualmente é professor de Estética e Teoria da Comunicação da Universidade de Brasília.
L.O. Gustavo, da infância na rua com nome de poeta (em Natal), até a capital do país – onde você hoje vive e trabalha – certamente foi uma longa viagem…
G.C. Certamente a viagem mais longa foi a interior. É uma viagem que nunca termina. Espero não ter me perdido no meio do caminho, mas não tenho certeza. Tento contar com alguns faróis indicadores. Entre eles está uma pergunta que refaço de tempos em tempos a mim mesmo: o que é realmente importante? Outra coisa que considero importante é ter raízes quase aéreas, daí que, da rua em que nasci até agora, sinto estranhamente como se estivesse navegando. Essa alma de marinheiro sem nau foi Natal quem me deu. De certa forma, sinto como se ainda estivesse viajando. Quando li Fernando Pessoa entendi a outra contraparte desta navegação. Estive zanzando pelo mundo com mochila nas costas por quatro anos seguidos, de 1998 a 2002, conhecendo gentes, visitando países, vivendo a experiência do isolamento e da solidão. Tudo isso enquanto fazia doutoramento em São Paulo. Quando posso, estou sempre viajando. É uma das formas que escolhi de dizer “sim” à vida.
L.O. Nesse caminho, pelo que sei, houve opções místicas. Superadas? Aproveitadas? Transformadas?
G.C. Místico no sentido de que falou Juarroz: não faço nada além de acompanhar a minha noite. E a acompanho com a palavra, na poesia. Costumo dizer que fui vítima de uma fatalidade terrível: nasci e cresci cercado de espiritualidade por todos os lados. Não bastasse ter nascido em frente à casa do padre Penha, no Alecrim, que queria a todo custo me levar para o seminário são Pedro, eu morava ao lado da sede da congregação das Filhas do Amor Divino, do colégio das Neves. Recordo que as freiras executaram com venenos todos os gatos que eu criava. Criei assim uma relação de proximidade-e-ódio com elas. Elas eram as minhas vizinhas. Além disso, também do lado da minha casa, estava a igreja de são Pedro e os meus pais me obrigavam a assistir missa. Era um inferno! Jesus, naquela época, era um tormento na minha vida. Além de tudo aquilo, desde menino, tinha os vultos, as miragens, os amigos invisíveis, as vozes e as assombrações. Foi quando então começaram a me chamar de “doido”. Meus quatro irmãos maiores diziam: “veja mãe, ele fala sozinho, conversa com o vento”. Não precisou muito para me chamarem de poeta. Aos 20 anos, fugindo de tudo e de todos, acabei entrando no mosteiro. O convento foi uma experiência e tanto, simultaneamente espiritual, intelectual e carnal. Foi quando fiz filosofia. Lembro das primeiras leituras dos pré-socráticos. Também li muito Leonardo Boff, os escritos de Francisco de Assis, os medievais e os místicos antigos. Essa experiência no convento foi fundamental na minha formação em vários sentidos. Acho que foi lá, finalmente, que perdoei as freiras que matavam os meus gatos com veneno. Talvez porque tive a honra de amar algumas delas. Foi bom descobrir esta forma de amor. Quando vi os filme do Pedro Almodóvar entendi a outra contraparte desta história. Amor, fé e tesão não podem estar separados. Gosto de transcender sublinhando frases ou depondo olhos em museus e exposições, mas também gosto do que é e do significa o corpo. Cuido hoje da minha espiritualidade pelo signo do furor e do mistério; da ternura e do vigor. Brasília para isso é perfeita. É uma cidade mística, sem dúvida, e prefiro esse lado à visão tacanha da política transmitida em rede nacional. Prefiro dizer hoje que cultuo os deuses, todos eles, por isso sou, por natureza, ecumênico. Respeito os mitos, estudo os símbolos, procuro entender a física mas também o que chamam de sobrenatural. O curioso é não acredito em sobrenatural. Entendo que ele é apenas o natural não explicado. Aquilo que não sabemos explicar, certos fenômenos, chamamos de sobrenatural. Devemos sim é saber separar superstições de fenômenos, mas outro assunto. Do ponto de vista prático, estou mais para o espírito mestiço do Candomblé e da Umbanda do que qualquer coisa. Lá no templo que freqüento chamam de Parosofia. Esta expressão quem criou não fui eu, mas um preto-velho (paros=ao lado de; acompanhar a e sophia=sabedoria). Apenas isso: acompanhar a sabedoria. Sou filho de Oxalá e de Iemanjá, do céu e do mar e isso me faz muito bem. Outro dia chamaram meu filho na escola de “filho de macumbeiro”, mas ele nem ligou. Já fui até citado judicialmente acusado de feiticeiro. Mas isso foi coisa de jornalista provinciano, espírito de porco, deixa pra lá. No Brasil, não discutimos muito fé, religião e espiritualidade, apesar de termos um pé na transcendência. Queria entender porquê. Talvez faça parte mesmo da cultura e da ética nacional. A prática de cada um não requer mesmo explicações racionais.
L.O. Quais as grandes descobertas?
G.C. O amor, a poesia e a filosofia. Amor pelos filhos, o amor à palavra, o amor ao outro, amor ao conhecimento. Talvez a maior descoberta do homem seja mesmo o amor. Descobrir o silêncio também foi importante para mim. Equivalente a descobrir a poesia.
L.O. Quais os grandes encontros?
G.C. Com os simples, sobretudo. Mas devo dizer que, dos escritores e pensadores que conheci, Manoel de Barros, foi o que mais me tocou. Edgar Morin também é um dos grandes, mas enquanto este falava da complexidade aquele outro falava da simplicidade. E eu amo os simples. Deve ser coisa de gente que tem complexo de inferioridade. Os grandes encontros para mim são com os simples, como Daniel Zahra, “El Ratón”, um velho amigo argentino que me ensinou a boemia do espírito ou com Dom Copa Velásquez, na Bolívia e, no Brasil, com Samarone, Gabriela, Carlos Magno, Érika, Galeno, Marcelo, enfim, a lista é grande. As pessoas me ajudam a entender e clarear as estrelas do céu e os infernos da alma. Um homem pode atrapalhar toda a humanidade, por isso me interesso sempre por gente. Por fim, acho que descobrir a pessoa e a poesia de Manoel de Barros foi, sim, um dos grandes encontros da minha vida. No dia em que falei com ele estava tão nervoso que precisei tomar um copo com água e açúcar. Ele disse para eu me acalmar. “Outro dia, alguém veio falar comigo e estava tão nervoso, que pediu para ir na esquina tomar coragem. Quando retornou, caiu bêbado na minha sala. Ele tinha ido tomar pinga”, me disse o poeta para aliviar meu nervosismo. No final, fiquei mais calado. Era a minha forma de sentir a doçura.
L.O. Que perdas principais experimentou?
G.C. Enquanto eu não perder a capacidade de sonhar, de lutar e de amar acho que não perdi muito.
L.O. Você guarda boas impressões do seu período de atuação na imprensa de Natal?
G.C. Sim, guardo. Mas digo sempre: a prensa é inimiga da perfeição. Prefiro buscar minha perfeição noutras praias.
L.O. O que mais surpreendeu nessa vivência?
G.C. A alma humana, sem dúvida. Ela, aliás, continua a surpreender.
L.O. Gustavo, o que não mais lhe surpreende?
G.C. Tanta coisa, sobretudo a política e a economia. Acredito que a política, ironicamente, é a maior inimiga da poesia. E a economia a maior inimiga do homem.
L.O. A sua atuação acadêmica tem lhe rendido bons frutos?
G.C. Quando algo nos rende emoção e pensamento sempre nos rende também alguns frutos. Se bons ou maus são outros quinhentos. Acho que a oposição bondade-maldade (implícita na sua pergunta) é a maior das escravidões mentais. A academia não é o melhor dos mundos, mas trabalho bem mais à vontade do que em redações. Tenho ali a liberdade de experimentar, produzir ensaios e livros, alguns apontamentos, estudar e pesquisar autores, obras, épocas, o que gosto muito. O conhecimento é igual a conhecer gente, areja o espírito, mas é perigoso. Sobretudo quando os conhecimentos (e as pessoas) instigam a curiosidade, infundem ânimo e despertam outras perspectivas. Calvino vai dizer que o inferno não está nos outros, nem em nós, mas nas relações.
L.O. Você almeja um outro modelo de universidade para este país? A que está aí serve aos propósitos originais das buscas universitárias?
G.C. Toda a educação deveria ser de qualidade, pública e gratuita. Deveríamos começar a ensinar filosofia e artes nas praças públicas, quadras, associações comunitárias e campinhos de futebol. Talvez fazer rodas de leitura em todos os bairros. Se isso fosse feito, em pouco tempo, este país seria uma outra nação. Mas este meu modelo é utópico, paradoxal ou, talvez, contraditório, isso porque não sei se universidade deve ser mesmo para todos. Às vezes, acho que não. A universidade está rígida demais, virou empresa. Seria importante pelo menos garantir acesso às pessoas para que elas pudessem crescer pelo estudo. Assim, por que não, universidades livres? Os alunos fariam apenas seminários que desejassem fazer, sem tantos padrões de controle. A universidade poderia valorizar o saber como prazer, deleite, vivência. Sou daqueles que acha que deveríamos massificar a filosofia e a poesia, as artes, a música e o cinema na população. Mas isso não rende muitos votos. Vivo em um país onde 75% da população tem como único meio de diversão a televisão aberta. A tv não poderia incorporar outros tempos narrativos? Poderíamos ter ao menos a chance de experimentar outra programação na tv pública brasileira. Se o povo cursasse livremente cadeiras que desejasse fazer, a universidade poderia funcionar em tempo integral, para a população, mas a instituição ficou refém dos padrões de produção tri-anual, dos regimes que determinam quem é e quem não é produtivo, quase um cabide de publicações. Todo mundo correndo para publicar, apresentar trabalho em congressos, eventos internacionais, etc. Ninguém conversa mais do que duas horas, ao que parece, sobre os pensamentos essenciais. Tudo está muito rápido também na universidade.
L.O. Gustavo, o que é o bom jornalismo literário? Quem o exerce no Brasil?
G.C. Considerando que o “bom” da sua pergunta é a perspectiva que adoto, mas que não é, necessariamente, a melhor, nem a mais elevada, valorosa ou coisa que o valha, posso dizer que continua a ser o jornalismo que flerta nos limites da literatura. Esse jornalismo continua a me excitar. Sobretudo quando rompe a barreira e vira outra coisa, crônica, ensaio, conto, livro-reportagem. O jornalismo não passa mesmo de um gênero literário. Sua contribuição ao pensamento é a crônica, a entrevista, a reportagem e a liberdade do espírito da profissão: que quer ser utopicamente imparcial, independente e livre. Trata-se historicamente de um ‘bando’ de produtores culturais, contestadores, rebeldes, reformadores e lunáticos crentes da verdade que criaram um nicho para a palavra do dia-a-dia. Abrigaram seus sonhos e realidades em periódicos, gazetas, folhetins, diários, fanzines, enfim, formataram um campo para toda sorte de informações ligeiras e distração. O jornalismo esquece demais que também é educação. Já o jornalismo literário deu sobrevida à palavra tão gasta pelo volume de blá-blá-blá de nossos periódicos porque não está tão ligada assim na informação ligeira, nem aos fatos.
L.O. Que papel a internet tem nesse sentido?
G.C. O aumento de informação não significa necessariamente que aumentou também o nível de compreensão e de entendimento. Muito menos ainda o interesse pela crítica profunda. A internet esgarçou mais a literatura, vimos nascer a era dos blogs, sites e tudo o mais. Com este outro fazer, digamos, literário, vimos também o aumento deste mesmo blá-blá-blá, que exige um filtro ainda mais apurado para selecionar o que realmente vale e o que é lixo eletrônico.
L.O. Como, Gustavo, ter um coração de poeta e uma mente de cientista?
G.C. É fácil, basta ser poeta por inteiro. O poeta sustenta (anima) o cientista e o professor que por sua vez faz o poeta mergulhar na vida prática e no conhecimento. Às vezes, o que anima o primeiro é diferente do que anima o segundo. Mas ambos são, quase sempre, animados pelo mesmo: essa quentura-adentro-qualquer; esse não-sei-quê feito de sangue, raio e verbo. Nunca achei que nossas almas se dividem. Somos muitos. Sou racional e sentimental ao mesmo tempo como professor e como poeta. Não é esta a lição de F. Pessoa: razão e sensação? Se é que ele quis deixar alguma lição para nós, acho esta importante: poesia e pensamento unidos. Sou todo coração, já disse alguém, um poeta. Prefiro dizer que sou todo poesia. Isso requer admitir também a loucura e a inutilidade da poesia em mim e no mundo. Para ser poeta, não precisa escrever poesia. Ela é um modo de ser. Mediada ou não pela palavra, pela pintura, pelo cinema, a poesia é essa capacidade do homem de abrir a sua existência para o belo e o terrível da arte e da aisthesis. Não conheço ninguém curado de poesia. Uma vez contaminado sempre contaminado. Não me importo se sou bom ou mau (dicotomia, novamente) poeta. Se sinto que a poesia vive em mim e eu nela, que mais importa? Com a poesia aprendi que importa sobretudo o que não é importante. As insignificâncias. Que afinal, importa na vida? Para mim a poesia, as crianças e as mulheres, a espiritualidade, a infância de todos nós, os livros, as viagens, não nesta ordem, obviamente. Importa para mim ser continuamente aprendiz. Até pensei em chamar meu primeiro livro de poesia de Aprendiz. Mas José Paulo Paes fez isto antes de mim. Chamei então de Ossos da Luz porque sou destes utópicos que buscam a essência das coisas, a força íntima que sustenta as essências e as aparências. Às vezes acho que não vivo neste mundo.
L.O. Como se constrói um poeta/escritor?
G.C. Com respingos de luz. Ou talvez com respingos de trevas. Digo aos meus alunos que o poeta/escritor deveria trabalhar desde cedo a palavra e o silêncio – naquilo que os estudiosos chamam de experiência estética -, a vivência, a dor, a tragédia, a intensidade e o despedaçar-se na existência. Ou ele faz isso ou vai encontrando-se aos poucos, calmamente, cultivando a poesia e a escritura como acompanhantes. Como voz subjetiva e como prática estética. A poesia é uma árvore que plantamos e que precisamos esperar crescer para dar frutos. A poesia demora, sobretudo a boa poesia. Quando não demora, ela é raio, como foi com Rimbaud. Digo isso aos meus alunos, mas não sei bem se com convicção. Não creio muito nas fórmulas. Prefiro o modelo das ciências inexatas, as do espírito. É possível construir o encantado? Sim, as artes nos provam que sim. Mas é possível construir uma vida encantada assim como uma poesia encantada? Escolhi muito cedo ler os poetas-pensadores. Queria entender como tinham unido emoção e razão com a mesma força. Felizmente, encontrei muitos que fizeram isso: Cabral, Quintana, Fontela, Paes, Heráclito, Whitman, Pessoa, Borges, Sábato, Shakespeare, Hugo, Rimbaud, Char, Juarroz, Porchia, Dickinson, entre outros. E continuo encontrando novos poetas. Perguntaram para Bashô o que era a poesia. Ele disse que tinha ensinado e vivido o zen por toda a vida e ainda assim era incapaz de dizer o que era o zen. Ao perguntarem a ele, como isso era possível, ele respondeu ”tenho que responder também isto?”. Vivemos a poesia, falamos da poesia, mas ainda assim não sabemos definir direito o que ela é de fato. Gosto da poesia que põe o homem no seu lugar. O lugar de coisa nenhuma, dirá Manoel de Barros. Não gosto muito de calmantes. Prefiro os excitantes. Daí a minha fascinação por tudo o que é intrínseco ao fogo.
L.O. O que é uma obra literária com “consistência”?
G.C. A obra ideal deveria ser a mais natural possível. Escrever um livro igual a macieira produz maçãs, dirá Calvino. Mas isto é muito difícil. Talvez a obra consistente seja a escrita com as entranhas. Ou com sangue, talvez. Mas também a obra que possui dentro dela terra, vento, fogo, água e céu, entre outros múltiplos infernos. A consistência foi o tema que Ítalo Calvino não escreveu nas suas propostas. Pesquisei e acho que ele escreveria sobre a arte de começar e de terminar contos e romances. Talvez, então, seja isto a consistência para Calvino: a capacidade do escritor/poeta de começar o escrito com potência – mantê-la, por certo tempo, saber oscilar, mover a leitura pra cá, pra lá, depois terminar. Ou seja, a velha e nobre arte de narrar.
L.O. Fale-nos sobre a experiência à frente (em parceria com Florence Dravet) da editora “Casa das Musas”. Que dificuldades existem e quais são as grandes vitórias?
G.C. A grande vitória é favorecer a literatura. Poder editar livros a baixo custo; escrever longas cartas para os amigos, neste objeto chamado livro, publicando nossos silêncios e imagens por aí. O grande erro, já corrigido, espero, é editar coisas em que não acreditamos ou coisas meramente comerciais. O Brasil poderia ter uma rede de pequenas editoras, mas isto é outra história. Não queremos fazer da literatura um negócio. Só isso já nos joga para fora do mercado de forma avassaladora. O professor Luiz Martins, um dos fundadores da editora, preza pelo livro de bolso, quase artesanal, se for o caso, até xerocado, impresso em duplicadoras, cortados e montados sem empenho industrial, enfim, fazer o livro chegar até as pessoas que não têm R$ 30 ou R$ 50,00 para dar. Você não acha absurdo o preço do livro e do cinema neste país? Divulgar a literatura assim tem o seu preço: não conseguimos entrar em algumas das grandes redes de livrarias do Brasil. De qualquer forma, não desistimos. Estamos tentando editar material sobretudo no campo da poesia e da comunicação, que é a nossa principal linha editorial. Todos sabem que poesia não vende, daí que ensejamos levar a poesia para todas as casas como política editorial, enquanto o nosso trabalho junto à comunicação (todos são professores de faculdades de comunicação) é o de produção de conhecimentos na área. Se a Casa das Musas tem algum mérito, ele pertence à poeta Florence Dravet e ao Luiz Martins. Eles têm toda a paciência editorial para cuidar das publicações. Aos poucos, descubro que não sou editor, talvez minha função seja outra, escrever, compilar, organizar, mas editar é uma ciência a parte. Exige um cuidado global, gráfico, mercadológico, lingüístico, que não possuo.
L.O. Calvino, Juarroz, René Char…por quais razões lhe influenciam?
G.C. O que os três têm em comum é a convergência de literatura com a vida, uma alimentando a outra, de muitos e diferentes modos. Só isso daria um curso acadêmico: o universo da experiência estética da literatura com a prática cotidiana. Também amo cada um deles por motivo específico: Calvino pela inclusão das formas geométricas, os modelos matemáticos e de complexidade na literatura; Juarroz pela capacidade de trabalhar o essencial na poesia, fugindo a todo o tempo do ornamento; Char pela força, a vivacidade, o vigor. Claro que são muitos os motivos. O que disse aqui é apenas uma centelha da força de cada um exerce em mim.
L.O. Quais as outras influências de que você não pode prescindir?
G.C. Música, cinema, café, charutos e gente feliz, leve, a volta. No campo literário e filosófico leio muito Pessoa, Porchia, Huidobro, Quintana, Cioran, Morin, Heráclito, Heidegger, Nietzsche, etc. Sou facilmente influenciado por boas e más intenções literárias e filosóficas.
L.O. Existe poesia em Brasília?
G.C. A poesia existe em qualquer parte. Se a gente trabalha um pouco o pensamento e a ação, descobre poesia na lida diária, no trato com o cão, na chaleira fumegando a água para o chá, no silêncio da companheira, na luz do poste que apaga quando passamos, na chave que cai… A poesia é como uma rádio silenciosa: ‘estação estado de graça’. É assim que Luis Fernando Carvalho a define: estado de graça. Quem consegue a sintonia, parabéns.
L.O. Gustavo, qual o caminho do poeta: aquele que leva ao ponto de que já não se tem como retornar ou, simplesmente, o caminho de volta?
G.C. De nenhum caminho se encontra retorno, dirá Juarroz. Entendo que o caminho da poesia é o entre-bocas céu e abismo. Para mim, poesia é o Aberto. E o Aberto não é uma região, mas uma dimensão, um estado de coisas. É tudo o que propicia passagem, fluxo de imaginação, emoção e pensamento. Novalis dizia que a poesia era a religião originária do homem. A força imagética e a sua aisthesis continuam a me encantar e intrigar. Como se fosse um óleo que sustenta nosso candeeiro aceso, a poesia se não alivia a existência pelo menos nos acompanha. Mantém algo desperto em nós. Poesia também serve para tropeçar na pedra, para recolher lágrimas, para fazer a gente calar mais fundo, pois ela não se confunde com o palavrório desenfreado dos dias atuais. A cada vez e a cada dia entendo-a assim. A poesia quer levar a gente às essências, fazer descobrir em nós as fontes que nunca se esgotam. Vivemos em um mundo em que a escrita (scripta) já não guarda mais o sentido oculto da substância que transforma. A palavra scripta, pelo que procurei saber, mas não sei se a fonte é confiável, guarda o sentido oculto do lugar do mistério e da transmutação. Na antiguidade, para escrever, o escriba deveria pedir forças e inspiração aos deuses, às musas, a Thot e a Hermes. Scriptorium era o espaço reservado na antiguidade à esta prática. Agora, não. Quem, nos dias de hoje, ainda acredita na inspiração? Todos escrevem, mas nem todos são escritores. Como todos escrevem, muitos têm a nítida sensação e ilusão de que podem e são escritores. A escrita antes era matéria de iniciados, agora é a mais banal das tecnologias. Não acho que devemos voltar ao passado, mas o que temos hoje é o inverso. Há uma super-hiper-produção, daí que pecamos pelo excesso. Se na idade média vivíamos a idade das trevas, hoje vivemos a idade da luz excessiva, que cega da mesma forma. Ninguém se engane com o poder da informação. Diante disso, a poesia aparece hoje como aquela que tem outra visão e outra postura. Talvez devido a esse palavrório generalizado é que por 20 ou 30 anos a poesia gráfica floresceu. Para mim, o espaço da poesia ainda é o do silêncio, do grito, do sussurro, do balbucio, do sentimento soprado e do mínimo vital. É o livro mudo da humanidade. É aquela que vai à contramão, mas, simultaneamente, a que está mais a frente ou mesmo a que é mais extemporânea. Você pergunta: qual o caminho do poeta? Respondo: o mesmo de sempre. Dar escuta ao sensível do mundo, da natureza, do coração e do tempo. Não ser simplesmente a antena da raça, mas ser a rádio por inteira. Aquele que captura, codifica e decodifica aquilo que Drummond chamou de ‘sentimento do mundo’; ser aquele que canta à graça, mas também o que canta a flor, a pedra, os cabelos de Rita, a tez de Teresa, a dor de José e a faca de Tião.
Incluído em: 24/09/2008
————————————————–
Homem feito de palavras
Seu modo de ser é discreto. Magro e alto, veste-se de modo simples. Na moda é básico, no coração, guarda um monte de saudades. Na mente, aposta nas letras para mover o mundo. O ex-seminarista franciscano Gustavo de Castro dispensou a batina anos atrás, mas continua sendo missionário: da palavra. Ele é professor universitário na UnB (Universidade de Brasília) e vez por outra vem a Natal para matar a saudade da família e dos becos da cidade.
Gustavo sabe onde está a chave do cofre para acelerar a produção literária: imagina que o poder público deve destinar uma pequena parcela da verba aplicada nos shows pirotécnicos para publicar livros. O professor universitário é editor de livros e aposta que as pessoas têm sede de literatura. “Todas os formatos de edição são válidos”, afirma. Ele conta que livros clássicos podem ser popularizados em edições de bolso, feitas em papel jornal. “Porque aqui também não são utilizados esses recursos? Na Europa é muito comum”.
A convite do VIVER, aceitou almoçar no centro da cidade para falar sobre literatura. A refeição - peixe frito, servido no capricho, com um acompanhamento delicioso, feijão macassar e queijo de coalho – foi elogiada pelo professor, que confessou gostar de não fazer nada quando visita sua mãe e o filho Manoel.
O boteco do “Seu Pedrinho”, ao lado da Procuradoria Geral do Município, agora também está no seu roteiro, que inclui visitas as sebo. “Aqui tem essa cena forte de sebos, a feira realizada pelos sebistas é muito importante para fortalecer o gosto pela leitura”, comenta. Nessa conversa, impossível não falar do sebista Abimael Silva, que edita livros pelo Sebo Vermelho. “Não sei como podem criticá-lo, ele é um herói”, admira.
Através da editora Casa das Musas, selo criado por Gustavo e um amigo, em Brasília, foram publicados 30 títulos em quatro anos, incluindo alguns livros seus. Ele cita que a maior dificuldade das pequenas editoras ocorre com a distribuição. “Considero praticamente impossível colocar livros nas prateleiras das grandes redes, Saraiva, Nobel, Siciliano, Sodiler”, lamenta.
O professor acredita que a cena cultural brasiliense também tem seus problemas, mas o poder público está melhorando alguns aspectos com liberação de verbas específicas para produção. “Lá já existe bolsa para produção, para o artista produzir com segurança. Isso é uma forma de assegurar o trabalho artístico, porque as leis culturais são engodos. os artistas têm que procurar os patrocinadores”, dispara.
Gustavo se mostra inconformado ao comentar que uma cidade que tem Câmara Cascudo, verdadeira autoridade nacional em termos de cultura brasileira, “não liga para isso e não se dá conta de que tem o legado de uma pessoa tão importante, que lida com memória”.
Para expressar o que falta a Natal para espargir a cidade ao cenário nacional, o professor lembra de Chico Science, que fez Recife ressurgir artisticamente. “Mas não há como fabricar um Chico Science para cada lugar onde o solo cultural é infértil. Os artistas precisam de apoio, porque quantos artistas se perderam nos últimos anos por falta de estímulo?”.
Para mudar as perspectivas dos escritores, que encontram dificuldades para publicar seus escritos, Gustavo aponta sistema cooperativos como ideais e lamenta que não haja nada semelhante em Natal. “Seria mais vantajoso do que entregar a produção para uma grande editora, que abocanha boa parte da renda”.
O editor também sugere que os autores procurem as empresas, para contribuir com as edições, “já que os trâmites que envolvem o poder público são tão burocráticos”, diz Gustavo. Na sua opinião, o teor dos livros não perde a credibilidade por apresentar selos de patrocínio na contracapa. “Creio que se trata de uma alternativa para viabilizar a produção literária”.
O livro “O sonhador”, que o jornalista Flávio Rezende lançou ontem na livraria Siciliano, é uma produção independente que teve apoio de empresas para ser editado. “Não adianta somente reclamar, a gente tem que correr atrás e viabilizar o trabalho. Quanto mais livros, melhor para os leitores”, aposta Gustavo.
Ossos do ofício
Jornalista por formação, professor por dedicação e poeta por opção de vida. Gustavo de Castro também escreve poemas e utiliza a poesia dentro de sala de aula, preferindo mostrar aos alunos o que ele chama de “estética da delicadeza”, criticando o tipo de comunicação que encontra destaque face a face com a violência. “Quem quiser estudar Tropa de Elite esteja à vontade”, diz com sarcasmo.
Aliás, essa é uma característica que se aproxima muito de Gustavo em sua condição de poeta. Em mini-poemas do livro “Ossos de Luz”, que concorreu ao prêmio Othoniel Menezes de poesia (edição de 2008) e levou menção honrosa, o autor poetiza com ironia sobre a própria profissão. Em “Mídia”, ele resume o ofício em um único verso: “a prensa é inimiga da perfeição”.
Ele parafraseia com Roland Barthes, disparando um “Frasemento de um discurso amoroso/ tudo o que não é indício de felicidade não é indício de amor”. O poeta também descreve o que é liberdade: “o mais livre do meu escrever é que não preciso concordar comigo”. E mostrando-se um cidadão totalmente brasiliense, dispara: “também tenho um eixão dentro de mim/ ele tem asas abertas”.

