Quando penso em roubar chocolates
Em São Paulo, com a bolsa nas costas e as sandálias nos pés. Leio Pessoa: “Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo”. É do Livro do Desassossego. O trecho é lido por Luiza, uma amiga querida aqui de São Paulo. Em 1998 escrevi um poema para esta cidade. O poema nunca foi publicado, nem aqui. Não lembro por que fiz isso. Ele é assim:
CARTA DE SÃO PAULO AOS PAULISTAS
Essa bobagem que diz Goethe
de que cinza são as teorias
e verde é a árvore da vida é,
além de tudo, ingênua:
cinza também é a árvore
e a vida.
Já o disse São Paulo
de Piratininga.
2.
No café da livraria Cultura da av. Paulista, muitos rostos e livros. Tantos livros sem gente. Tanta gente sem livros. Lendo Pessoa me esqueço no fundo do baú de mim. Ouço o tilintar dos talheres, xícaras e dentes. Muitas vozes no saguão das letras. No meu interior, traduzo poemas que não escrevi. Pergunto-me do nada: “se eu vendesse vozes / quanto custaria o silêncio?”.
Perguntaram hoje no jornal para o Gilberto Gil:
- Música fica mais ou menos importante aos 68 anos?
- Mais. Porque ela deixa de ser importante.
É isso o poeta. Acompanha-se do menos importante. Na rua, no café, na intimidade, na torneira, o grito silencioso dos desimportantes. Envelhecer, pegar o seu tambor, ir para debaixo da árvore e tocar.
Inventar um estilo. Para quem não tem estilo; particularidade de originalidade; o tal do original particular, o que fazer? Todos dizem: abra um blog. Prefiro dizer: melhor abrir a janela. Outro dia, na televisão, o médico perguntou ao paciente, “o que você tem?”; “dívidas”, respondeu o pobre.
- O que é música? - perguntou o jornal hoje para o Gilberto Gil:
- A música é a manga.
Entendi que cada um chupa de maneira diferente.
São Paulo está cinza e fria. Sensação términa de 12 graus com vento a sudeste. Uma vez, aqui, em 1998, pensei em roubar chocolates. Sai do lugar com vergonha. O medo às vezes fez a gente abandonar a casa de doces do amor.
Chega de escrever bobagens.
Tomo a mochila, as sandálias e parto de São Paulo espiando a manchete de cultura do Estadão: “Arte e Angústia”. Não sei de quem se trata. Mas entendo bem o que a notícia quer dizer.
Carvalhos
De tanto dedilhar criancice, o carvalho vaticinou primaveras. Era um carvalho velho, frondoso, mágico. Seus galhos davam voltas em modo de abraços. Quando batia palmas ao vento, o sonho encantava coração. A árvore fez a conversão dos olhos verdes. Foi quando todas as alegrias viraram carvalhos floridos. Todos os sobrenomes também.
Xila
Com a força dos monstros nos encontramos, tomamos vinho, deixamos o mundo correr, roçamos um pescoço no outro, o nariz nos olhos, ombro a ombro, ao infinito. O melhor dos nossos abraços ninguém suspeitou. O melhor encontro, na kitinete das relações, foi o Aberto que se descortinou em teatro, vastando-se, diante de nós, ao infinito.
Sangue nos olhos
O homem que passa o difícil, não deveria temer o retorno a ele.
Quando a situação difícil chega, em desespero e pó, a ruína quase-aos-pés, o homem dá o grito essencial. Está com a faca entre os dentes? Está com o sangue nas ventas?
O homem que passa o difícil não teme o grito essencial.
Declaração de voto de Zé Ninguém
A melhor coisa do mundo é não fazer nada. Ideólogos do trabalho, não contêm comigo! A melhor coisa do mundo é ficar quieto e calado. Não ter partidos, nem causas, nem garantias. O homem vem e diz: “Seu nome vai para o SPC”. E daí? Deixa ir. Cansei do imposto de renda. IPTU. PSDB. IPVA. PT. PSTU. A PF que me interessa é o prato-feito da esquina. Se eu disser logo que não sou nem de esquerda, nem de direita, nem de centro, será que me deixam em paz? Meu partido é o do alto. Não, melhor: é do baixo. Defendo o baixo: putas, pintores, poetas, bêbados, babacas, bichas. Meu partido é também o do alto: o partido alto, o reggea, o candomblé, o samba, o tango e o bolero. Pronto. Eis a minha declaração de voto. Deixa eu aqui quietinho em minha inutilidade, por favor. O vinho, o charuto, o café e as almas também são companheiros das flores, da alegria e do sol nascente.
A política é a maior inimiga da poesia. Expulsemos da Polis todos os políticos!
Aconteceu que a lua cheia encontrou a tristeza dependurada no pescoço da humanidade. Era uma gargantilha de ossos encimada por cruz-pingente de cristal não trabalhado.
O vigilante na campana da emoção fez uma fogueira vermelha para a lua. Festejou a sua lágrima e renunciou a dizer o nome que governava os seus lamentos.
Hoje em dia é assim, pensou, temos de justificar tudo, até a nossa tristeza.
Não é uma ofensa ser livremente o que se é.
Hoje se usa a faixa púrpura de adornos das alegrias inventadas.
O vigilante na campana da emoção olhou para o alto. A estrela mais distante do horizonte servia-lhe de guia.
Na estrela mais distante, alguém deve estar alimentando as chamas de uma fogueira vermelha. De lá alguém deve estar contestando:
Melhor uma alegria inventada do que uma tristeza verdadeira.
A nuvem em forma de guindaste
Vi uma nuvem em forme de guindaste. Estiquei o pescoço para enxergar melhor. A nuvem pegava um vento aqui e transportava ele na direção do sol. Fiquei espiando o pio da nuvem.
O sol aplaudia de pé cada vez que o guindaste pegava o vento e punha um pouco em sua boca. A nuvem prosseguia…
Depois disso a nuvem em forma de guindaste virou e disse assim:
Nunca ficar totalmente à disposição do amor do outro porque o outro nunca saberá nos amar totalmente. Amar antes amar-a-si-mesmo. Talvez assim o outro queira nos amar um pouco. Mas saberá o homem amar a si mesmo?
Não soube dar resposta ao pio da nuvem em forma de guindaste. O sol também não se pronunciou. Estava cheio de vento e de fogo.
Depois seguimos cada qual em uma direção: a nuvem desfez o guindaste, o sol correu pra longe, e eu segui pela estrada, cabisbaixo, pensando que o amor pode não saber direito o que é o amor.
Enquanto bebemos cachaça
Ontem sentei com um amigo na beira do rio. Ele me trouxe charutos cubanos e fumamos uma hora sem parar. Eu também lhe dei charutos, só que foram os baianinhos. Ele riu e eu também. Bebemos cachaça e ficamos a olhar o rio Riacho Fundo passar em direção ao lago. A tarde estava calma e o sangue do povo estava frio.
Então começamos a seguinte conversa:
Com quantos paus se faz uma Gambôa? Na antropologia da construção de uma igreja, primeiro cava-se seis metros além do inferno, abaixo do horizonte. Cava-se até encontrar a rocha. Depois enche tudo de ferros enquadrados que descem e se isolam para sempre sob o cimento mastigado da betoneira. Depois arma-se tudo como uma grade, amarrando os ferros e os cimentos, de modo que o que vier por cima fique mais forte do que a fé.
Depois do prato de comida e do café, volta-se ao trabalho. Edificam-se os risos e os planos. Não se pode esquecer o riso, fingir que se é humano está entre os direitos humanos. Cada qual que guarde o seu segredo e a sua maior dor. Pode encher os olhos de lágrimas à vontade. Todos tem direto ao ridículo, de modo que, o que vier por cima, fique mais forte do que a dor.
Já quando a lua se aproxima, na noite fria dos escombros, no perigo eminente da fiscalização pública embargar a obra dos velhos, fica-se a espiar a luta do dia. Cava-se sempre até se encontrar a rocha. Depois enche-se tudo de fé, de modo que, o que vier por cima, fique mais forte do que a lua entre os escombros.
(Quem despreza o coração sincero não merece a realeza do amor).
Quando o coração partiu, nenhuma bandeira foi alteada. O que havia de nascer morreu ainda semente. Labaredas queimavam sobre as geleiras anunciando o instante em que o coração partiu.
Quando o coração migrou, os gemidos foram mais guturais do que antes. Nas casas, só se ouviam hinos de lamentos e inglórias. Na periferia dobravam-se sinos e tambores na longa madrugada de inverno em que o coração migrou.
Quando o coração saiu, a aldeia também ficou vazia. Viram-se à saída charretes, bois levando cestos, famílias em desespero. Tudo amanheceu entregue às teias de aranha no dia em que o coração saiu.
Quando o coração murchou, o longo inverno se anunciou. Perderam-se as chances do novo, do quente e do maravilhoso. Já não havia tempo para a lágrima, nem para as lavandas quando o coração murchou.
(Quem despreza o coração sincero não merece a realeza do amor).
Desamizade
E você que nunca sussurrou amor próprio?
E você que não sabe se é sênior ou se é junior no amor?
E você que não se isola com temor das revisões?
Você não quer o amor porque teme a abundância.
