Conto

por Charles M. Phelan *

O Escritor de Obituários

A casa 1113 da Rua Morton parecia abandonada, não fosse pelo jornal que era arremessado, ao pé da porta, todas as manhãs pelo jornaleiro. Ali ficava, intacto, todo o dia. Era recolhido somente durante a noite. A aparência macabra da 1113 dava-se apenas pelo aspecto de abandono que possuía. Durante anos, as estações haviam castigado o exterior da casa. A chuva, o sol e a neve encarregaram-se de descascar a maior parte da pintura, e desbotar, para um cinza-sombrio e sem vida, o que havia restado. Capim brotava feroz de cada fissura da passarela de entrada, quase obstruindo o caminho até a porta. A lâmpada externa, que deveria iluminar a frente da casa, pendurava-se pelo fio também desbotado com o tempo. Ouvia-se, na mais tênue das brisas, o Clang, Clang, Clang da haste de metal que segurava a lâmpada, batendo contra a parede.

A Rua Morton era diferente de qualquer outra à noite. Ouvia-se o ranger da dobradiça da porta da frente uivar, como uma sinfonia de mortos cada vez que a mão enluvada pinçava o jornal, recolhendo-o. Era o mais horrendo dos gemidos. Uma suplica que ainda hoje ressoa nos meus ouvidos. Além do jornal, as provisões também chegavam por entrega. E do mesmo modo eram recolhidas.

Observei essa rotina dos sete aos 17 anos. Ninguém entrava. Somente o vulto corcunda saía, deslocando-se a passos de tartaruga pela calçada até o pequeno posto do correio, da também pequena cidade de Pine Bush ao norte de Nova York. Tudo se repetia noite após noite, após noite...sempre a meia noite. Sempre!

Fiz da rotina dele, a minha. Não em ir até o correio, mas em observar o velho corcunda vagando na noite. Observei tudo da pequena janela de primeiro andar da casa de meus pais. As árvores que beiravam o limite do jardim de frente da minha casa e a Rua Morton, serviam, de certo modo, para me esconder. Aproveitei minha solidão para poder acompanhar a vida deste homem sem amigos e sem família. Deste homem sem face. Digo isso por nunca ter visto sequer a cor de seu cabelo. A escuridão impossibilitava meu olhar investigativo. Tentei em algumas ocasiões me posicionar de modo que me fosse favorável à visão do homem, mas não consegui ver o que procurava. Usava uma capa preta que começava dos joelhos e terminava na altura da face, com seu colarinho levantado. O zíper puxado até o último trilho repousava acima do dorso do nariz. Um gorro preto descia até a altura das sobrancelhas, deixando apenas os olhos descobertos. Dos olhos nada pude detectar. A escuridão reluzia apenas o brilho natural deles. Pareciam duas contas pretas. Nas mãos levava sempre um envelope.

Sua imagem noturna me encantava. Instigava minha curiosidade. O homem da noite. Um homem sem medo do escuro. Um homem sem medo da solidão. Parecia ter escolhido aquele horário deliberadamente. Talvez desejasse evitar contato com estranhos. Parecia um vilão e ao mesmo tempo um super-herói. Havia se tornado minha única companhia por anos. Eu do pequeno quarto, ele da rua.

Pouco antes da meia-noite eu acordava e corria para janela para vê-lo ir ao correio e colocar o envelope por baixo da porta. Esperava sempre seu retorno. Nos últimos anos, minha presença fora detectada. Com isso, a rotina do velho também mudou. Éramos os únicos acordados. Eu e ele. Dois solitários da madrugada. Senti que eu não lhe incomodava. Quem sabe, por mais singular que pareça esta situação que descrevo, fora eu, o único amigo daquele ser misterioso. Compartilhamos o ranço da solidão. Eu da janela, e ele da rua. Passei a usar gorro e casaco e nunca me deixei ver de frente. Mantive sempre a luz do quarto apagado, e de minha silhueta, suspeito que ele apenas vira os contornos desproporcionais que minha indumentária formava. Passei a acenar para ele tanto na ida quanto na volta do correio, mas sempre com a mão enluvada. Acho mesmo que quis imitá-lo. Funcionou. Passou a retribuir os acenos.

Após seu retorno do correio, passou a devolver o jornal à calçada com a mesma discrição que usara para buscá-lo. Primeiro, o rugir da dobradiça; depois a mão, com a delicadeza de um perito em bombas, colocava o jornal próximo ao batente da entrada. Interpretei aquela atitude como uma forma de fazer contato comigo, já que até então jamais havia retornado jornal algum.

Fui impulsionado por uma curiosidade sufocante, e o desejo de buscar o jornal inquietava-me as noites. Não resisti. Pela primeira infringi a lei. Fui até a entrada da passarela que levava à porta. Ponderei por alguns segundos minha decisão. Convenci-me de que era tarde demais para recuar. De onde eu estava, podia ver o jornal embrulhado em um saco plástico. Meu coração martelava rápido e forte por trás do meu peito. A distância parecia curta o suficiente para um disparo rápido. Minhas pernas estavam pesando o dobro que o normal. Olhei para as janelas, e pensei que eu era quem poderia estar sendo observado desta vez. Segurei o fôlego e disparei em direção ao jornal. Peguei-o pela ponta do plástico e retornei na mesma velocidade para casa. Retornei para meu quarto, dei uma última olhada pela janela e rasguei o saco.

O jornal encontrava-se intacto, salvo por um circulo em vermelho, feito a caneta, que destacava a seção dos obituários. Anunciava a morte de uma pessoa que não era da localidade. Não entendi. Recolhi os jornais todas as noites, por meses. Todos com as mesmas características, mas sempre destacando pessoas diferentes e que nunca eram residentes locais.

Havia me doutrinado aquela rotina de observar o velho corcunda caminhar nas noites. Subitamente tudo parou. Três dias se passaram, e nada dele sair ou sequer buscar os jornais que já se amontoavam pelos batentes da entrada. Achei estranho. Chamei a polícia. A primeira viatura parou na entrada da garagem. Fui até lá. Ao me aproximar da passarela senti um odor estranho que pesava no ar. Um fedor distinto de todos que já havia sentido. Dois policiais dirigiram-se até o batente da frente, e com os nós dos dedos bateram contra a porta. Após alguns segundos de espera, decidiram arrombá-la. Apressei o passo até a entrada da sala. Lá estava meu amigo estirado no chão. Morto. O cheiro...ohhh...o cheiro. Jamais esquecerei aquele cheiro. Folhas de caderno coladas na parede forravam toda extensão do recinto de cima à baixo. Todas continham apenas um parágrafo manuscrito. Tratava-se de obituários. Todos! Sobre a escrivaninha, um envelope aberto com uma folha dentro e um cheque nominal, chamava atenção. Na frente, como destinatário, em letras grandes, lia-se: REDAÇÃO DO SUNDAY TIMES – DEPARTAMENTO DE OBITUÁRIOS

Peguei algumas das folhas sem que os policiais percebessem, me despedi, e retornei para casa com passos largos. Espalhei as folhas no chão e comparei com as dos jornais que havia juntado nos meses que se passaram. “Aha!” Falei inconscientemente. Os obituários circulados nos jornais eram os mesmos que haviam sido escritos nas folhas.

Uma semana após a morte do meu amigo, o Sunday Times publicou em nota oficial, a lista com todos os nomes fictícios que haviam sido publicados nos obituários.

Durante aquela semana, fui dominado por uma depressão profunda. A solidão havia retornado. Mais forte desta vez. Cheguei a passar horas observando da janela, mas a rua Morton nunca fora tão deprimente. O escritor de obituários muito me marcou. Mesmo no mundo de sua solidão, foi uma companhia leal e importante naqueles anos, onde o espírito de um jovem se forma para o mal ou para o bem. Minha hora havia chegado, e fiz o que era mais apropriado para o momento ¾ escrevi o obituário, daquele que tanta companhia me havia feito ao longo dos anos.

Há cinqüenta e dois anos perdi meu amigo, mas sua imagem noturna nunca me abandonou. Oh! Meia- noite... Preciso ir ao correio...


 

 
 

 

 
 
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