Conto

por Pedro Lucas

De chuva

Cai copiosa a chuva. Espocam no telhado as gotas gordas, aviso de um céu que dizem ser sagrado. Era apenas azul, antes da chuva. A violência da água invadindo as casas, deflorando sem piedade o calor do acostamento invadido como se tivesse pernas abertas, pneus de bicicleta encostados, enferrujando o aro Aero, o medo do cão ante o barulho. Aos seus ouvidos uma fuzilaria. O incômodo raro de atrapalhar uns, e de acalentar o sono de outros fazem da chuva uma colcha de retalhos. As agulhas que a costuram são afiadas. Comentários de todos os tipos. Na casa número 25 existe uma moça, de dezembro, que vive chuvosa. Molhada.

Nos dias de chuva, em que o frio toma conta dos lençóis que a cobrem, há um diagnóstico incorreto de um fetiche, dito pelo ginecologista, que se dá no barulho da chuva. Um marulho mais livre que o do mar, que parece mais limitado que a chuva, que cai na hora que quiser. O mar não. Tem de existir, sem ninguém reclamar, sem descanso. A chuva não. Ensopa quantos quiser, e quando quiser. Fode com a moça chuvosa. Honrosa.

A chuva espoca direto da janela aberta para os lençóis dela. Só dela. Como a chuva. Ela sonha em possuir um homem vindo num cavalo alado, o bronze aquático das águas doces, ele coberto de uma manta fluvial, ele com um hálito pluvial. Um abraço dele poderia encobrir ela por inteiro. Ser “o paizão”. Meteria nela, até a inundar. Por completo. A língua como gelo passando líquida pelos mamilos, chupados como bagaço de fruta, o mármore de sua barriga à mostra, nua e límpida. O receptáculo já ameaçava sangrar. Um açude inteiro esperando pelo momento da sangria. Pela chuva. Pelo movimento de tear do corpo dele sobre o dela. Fiando tempo. Orando espaços. Matéria.

Os seios já estavam em suas mãos, os cabelos seguros. Ele a possuindo, mandando nos seus movimentos. Tecendo em torno de seu corpo uma parábola de sussurros. Fiando em torno de seu suor um mar de signos. Olhares mudos, mãos gritando num pululante clitóris. Orgasmo, antes do tempo. Depois, os olhos se tocavam, entortando direto para o ponto em que conjugam os traços da bunda. Imaculada força da natureza. Dizia um personagem, num filme de Campion: quando o clitóris começa a saltar das mãos, você sabe que essa mulher entende de sexo. O sal da ostra se libertando. Olhos se concentrando na medida correta onde a pontaria se fazia de uso. Espocava água no telhado sobre eles. Água molhava o lençol. A leve música da chuva clamava gozo por ela. Os mamilos afiavam-se na língua hábil, e nessa dança rápida, ele a penetrou. Ela sentia-se gota e granito. Gozaram ambos pela primeira vez ali. Logo depois, as águas secavam e ensopavam-no, enquanto ele trabalhava rápido para que a mulher não caísse num possível cansaço. Meteu-se entre suas pernas, nadou naquele oceano, sentindo o momento necessário, sepultou-se dentro dela, praticando um nado simples, substancial. Ela já secretava um líquido incolor de sua poderosa vagina, ele penetrava com mais garra, mais conforto, e ia se deslocando de lá para cá nela. No gozo, ouve uma explosão. A chuva desfiava-se em milhares de gotas, e nele foi repetida essa dança. Virou água. Correndo por cima dela. Qual não foi sua alegria, de ter uma chuva particular! Bebera-o todo, engolia seu corpo, ali estava seu sangue e seu corpo em um só, uma mistura prática. A fez chorar.

E a água escorria, como deflorando as avenidas, passando descompostura no bom-tempo, clamando por invadir, sonhando em divertir, abstraindo-se de repente por serem apenas gotas. Caindo resolutas. Bombardeando no firmamento e descendo. Bailado. Um sol tímido parece olhar de lá. Não quer interromper o espetáculo. E desaparece. A pouca luz de um quarto cinza. O pouco dia de um que parece não se resolver. Anarquia. Essa coisa que jorra de vez em quando. Mudando o curso, ou acompanhando as ruas, junto aos carros.

Quando a chuva parou, os cães também pararam de latir para o nada, cada fantasma deslocava-se para outros pontos. E faziam suas festas particulares. Sendo sol. Ou chuva.


 

 
 

 

 
 
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