Crônica

por Florence Dravet


A COSTURA DA PALAVRA

Luzia nasceu ao pé de uma serra, numa família pobre do interior. Cresceu ajudando a mãe nas tarefas domésticas e na roça enquanto seu pai e os irmãos mais velhos cuidavam da rapadura. Era uma vida seca e austera. Mas ela guarda boas lembranças de certos sabores, de alguns esconderijos nas encostas pedregosas da colina atrás da casa e, sobretudo, das madrugadas que ela passava sonhando acordada: Luzia escrevia à luz de vela, quando todos dormiam. Por causa do silêncio, obviamente, que lhe despertava palavras. Mas também, porque assim, pais e irmãos não ficavam comentando sua estranheza. É que naquela família, a escritura era algo inusitado, algo que não servia para muita coisa, algo reservado aos da cidade. Os ricos. Os outros.

Luzia era diferente. Na escola, desde cedo, tinha mostrado aptidões para o aprendizado da leitura e da escrita. O que aconteceu é que Luzia, que não tinha muito com que brincar em casa, ficou maravilhada com as primeiras palavras que aprendeu a escrever. Logo percebeu que poderiam lhe servir de divertimento. E assim, ela passou a brincar, a contar histórias a partir das poucas palavras que conhecia, a acrescentar outras e mais outras, preenchendo as páginas dos cadernos que a professora lhe dava.

Ela tinha também uma relação particular com os livros. Eram-lhe verdadeiros companheiros. Ela sentia uma grande felicidade ao começá-los, lendo e relendo várias vezes as primeiras páginas para que durassem mais tempo. Mas, à medida que ia sendo tomada pelas histórias, não conseguia se demorar devorava-as. Ao perceber que o livro estava se acabando, uma leve angústia a tomava. Ela teria que devolvê-lo à professora.

Mais tarde, Luzia foi morar na cidade, para estudar. Quando chegou, disseram-lhe que, já que gostava de escrever, poderia se tornar jornalista. E puseram-lhe nas mãos o principal jornal da cidade. Luzia ficou extremamente surpresa com o que leu. Por vários motivos. Primeiro, ela se deu conta de que tudo aquilo que estava tão bem contado nos livros, também estava nos jornais e acontecia ali mesmo, no mundo de verdade. Depois porque, com o jornal, ela tinha que ler várias historinhas curtas. Parecia-lhe que o escritor que tinha contado aquilo estava com muita pressa de terminar. Era como se através do jornal a vida fosse uma sucessão de fatos, acontecimentos, mais ou menos esdrúxulos, mais ou menos comuns. Outro motivo de surpresa foi uma série de palavras que ela desconhecia e que sempre voltavam. Não pareciam palavras e sim instrumentos que continham sentidos, explicações, acusações, justificativas. Luzia as entendia, mas achava-as desprovidas de beleza.

No início, foi tudo muito estranho, mas até que ela foi se habituando e acabou gostando dos jornais. Passou a lê-los com freqüência e entender o seu funcionamento. Percebeu que, com eles, ela ficava sabendo das coisas importantes da vida dos homens em várias partes do mundo, enquanto que com os livros tudo era muito mais encantador, ela ficava sabendo das várias camadas da existência, desligava-se um pouco do que era verdadeiro ou falso, esquecia as mazelas vizinhas e podia se perder em universos imaginários.

Depois, durante muito tempo, Luzia hesitou sobre o caminho a seguir: tornar-se jornalista ou desenvolver suas aptidões com a literatura e ver seus livros publicados? Obviamente, Luzia tinha tudo para ser uma boa escritora: sofreu as dificuldades da condição humana, cresceu em meio à força poética da natureza, foi sensível ao poder das palavras e o universo das histórias sempre lhe foi encantado. Mas para se tornar escritora, Luzia sabia que teria que se isolar no mundo de suas criações para depois, generosamente, ofertá-las aos leitores. Por outro lado, os jornais causavam nela um verdadeiro fascínio, porque Luzia era da ação, sonhava em ver seus atos realizados e reconhecidos com prontidão, gostava de investigar o cotidiano, saber sempre mais sobre os outros, fazer dos pequenos acontecimentos relatos emocionados, e causar grandes efeitos. Enfim, tinha tudo para ser uma excelente jornalista.

Em meio a tantas hesitações, Luzia foi passar alguns dias na casa de sua infância e rever sua mãe. Certa noite, enquanto costurava as roupas velhas de seu pai, seus olhos seguiram os movimentos regulares da agulha e seus pensamentos divagaram… Lembrou de antigas brincadeiras, quando escolhia palavras à toa e tentava construir com elas pensamentos, idéias, imagens, histórias… E foi assim que ela sonhou em acrescentar belas palavras aos textos um tanto áridos dos jornais, narrar acontecimentos diários com a emoção das camadas mais profundas de sua existência, buscar nas personagens das narrações cotidianas suas características mais encantadoras, fazer da repetição algo sempre renovado. Enfim, imaginou uma nova forma de escritura que lhe permitisse costurar a literariedade de seus propósitos com os charmes do fazer jornalístico.

No outro dia de manhã, voltou para a cidade, convicta de que poderia acrescentar algo ao que se costumava publicar nos periódicos. Foi a melhor decisão que tomou. Luzia tornou-se uma jornalista lida diariamente por milhares de pessoas que encontram em seus escritos algo diferente. Por várias vezes, Luzia foi interrogada sobre sua escritura; queriam conhecer sua fórmula. E ela respondia misturando algumas teorias jornalísticas com as da literatura e da narração. Mas sempre guardou segredo sobre seu estranho procedimento para encontrar forças novas para seus textos. É que ela nunca abandonou suas brincadeiras infantis com as palavras, ao contrário, aprimorou-as, costurou-as a si, e criou no fundo de si mesma um universo cheio de portas que abrem e fecham, um universo em que acontecem os encontros mais inusitados, gerando forças novas, sempre…


 

 

 
 

 

 
 
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