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EDITORIAL
Oferecer
à cidade de Brasília um jornal de cultura com
enfoque para a literatura e a filosofia é um desafio,
um risco, uma aventura. Algo que inebria e encanta ao mesmo
tempo em que traz à responsabilidade e à seriedade
do empreendimento.
Primeiro, houve o sonho de desenclausurar a filosofia dos
rincões acadêmicos e a literatura das garras
dos mercados editoriais e livreiros. Levar para a casa das
pessoas ou para o seu local de trabalho um jornal que pudesse
servir de fonte de reflexão e de prazer.
Estamos vivendo uma época em que todos nós viramos
filósofos; todos nós nos perguntamos como é
possível termos chegado a esse estado social e cultural,
como podemos individualmente sobreviver, crescer e colaborar
com um coletivo onde a liberdade individual seja preservada.
Já não existem mais os filósofos de barba
branca a dominarem em nosso lugar as questões fundamentais.
Cabe a todos nós, individualmente, a tarefa de pensar
o mundo, conceituar, criticar, construir, criar. É
aí que, para além da filosofia, ou junto com
ela, aparecem as pessoas também como criadoras: escritores,
pintores, músicos, artistas de todos os gêneros
habitam a cidade e clamam – por vezes em silêncio
- pelo direito a reverter uma situação onde
a cultura cotidiana parece muitas vezes ter despencado no
mal gosto e na aceitação acrítica de
tudo.
Situados
nessa sociedade da polifonia, onde o falatório geral
impossibilita a escuta verdadeira, estamos criando este jornal
sem estardalhaços nem glamour - em preto e branco porque
as cores estão na poesia impressa na vida, a cada esquina,
em cada um - para ser um espaço de diálogo poético,
um espaço aberto e mutável de comunicação.
Sabemos
que no Brasil a palavra impressa não atrai grandes
atenções e que o universo de atividade dos críticos
de arte é ainda bem reduzido. Por isso mesmo, a escolher
entre contribuir para a aceitação de tudo o
que obedece à lógica implacável da economia
de mercado ou contribuir para as causas daqueles que correm
o risco da liberdade e da crítica, optamos pela segunda
alternativa.Q
ueremos
mostrar que nos grandes espetáculos massificados, há
sempre a possibilidade do olhar profundo que percebe outros
significados; e mostrar também que há, no cotidiano
da cidade, espetáculos escondidos que merecem a nossa
atenção. O jornal Casa das Musas se apresenta
em estilo sóbrio porque trata de uma realidade a ser
observada com seriedade, mas imprime também em suas
páginas a força da delicadeza e o prazer da
sensibilidade poética. |