Entrevista

Jornalismo e Literatura
Entrevista com José Castello


Por Marcela Heitor

A primeira vez que eu o encontrei foi em 2007. Até então, ele era só meu vizinho da frente em um hotel de São Paulo. Para minha sorte, esse cargo mudou significativamente naquela semana de palestras sobre jornalismo cultural. Por um ano, o jornalista, escritor e crítico literário José Castello foi meu editor, orientador e professor em um laboratório de jornalismo cultural. Colunista do jornal Rascunho, de Curitiba, e do caderno Prosa e Verso de O Globo, Castello é também autor das biografias de nomes de peso na literatura brasileira como Vinicius de Moraes, Rubem Braga e José Cabral de Melo Neto. Está prestes a completar 40 anos de jornalismo, parte deles alternados com os livros, já que também publicou os romances O homem sem alma e Fantasma. Conhecê-lo pessoalmente só aumentou minha certeza de que, hoje, ele é uma das pessoas mais capacitadas para falar das relações entre jornalismo e literatura.

Entrevista com Jisé Castello

1. Algumas pessoas acham que, para se destacar como escritor, é preciso estar no eixo Rio São Paulo. Você, que mora em Curitiba, tem a mesma opinião?

Sem dúvida, estar no eixo Rio-São Paulo ajuda bastante, porque aí estão as principais editoras, os principais cadernos literários, são dados os principais prêmios do país, estão as principais instituições ligadas à literatura, etc. Mas veja: temos aqui em Curitiba o Cristovão Tezza (que é catarinense, aliás), isso sem falar no Dalton Trevisan. Temos em Porto Alegre o Noll, o Assis Brasil, o Scliar, a Lya Luft, o Carpinejar. No Recife temos o Raimundo Carrero, o Fernando Monteiro, o Suassuna... Temos escritores importantes espalhados em todo o país. Não é a distância que esconde um grande escritor.


2. Você acha que dá para ser jornalista e escritor ao mesmo tempo?


Sou jornalista e sou escritor. Portanto dá. Às vezes as pessoas ainda estranham, não sabem bem, por exemplo, com quem estão falando, se com o cara que escreve crítica literária para a imprensa, ou o cara que assina livros. Na verdade estão falando ao mesmo tempo com os dois, não sou um cara partido ao meio! A realidade é bem mais complexa do que a gente aceita, e é preciso enfrentar a complexidade do real, sempre, ou perdemos o pé das coisas.


3. Você convive (ou convivia) bem com essa realidade de jornalista e de escritor ou havia conflitos entre as duas partes?


Conflito sempre há. Primeiro porque, se estou escrevendo para O Globo, não estou escrevendo meu livro, e vice-versa. E isso sempre angustia um pouco. Mas a vida fica mais rica. Menos monótona. Gosto muito dessa multiplicidade, até porque, com ela, fica bem mais difícil as pessoas me fisgarem na armadilha dos clichês.


4. No que a literatura pode ajudar o jornalismo e vice-versa?


A literatura é fundamental para o jornalista. Ler literatura é fundamental. Amplia a imaginação. Refina o estilo. Estimula o pensamento. Oferece novas maneiras de pensar e ver o mundo. Quanto ao vice-versa, o jornalismo dá sempre um bom “banho de realidade” no escritor, o que é sempre bom. Inclusive para seu trabalho de escritor.


5. Se você pudesse dar um conselho a um jornalista com perspectivas de se tornar escritor, o que aconselharia?


Leia sem parar. Preocupe-se primeiro em ler e ler e ler, de tudo, sem preconceitos. Ler para valer, se envolvendo, se entregando. O momento da escrita chegará a seu tempo. É claro, haverá o momento de trabalho duro, de suor, de batalha quase braçal. Mas também nessa hora a leitura acumulada, não como erudição, mas como expansão da fantasia e do pensamento, ajudará muito.




 

 

 
 

 

 
 
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