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Nicolas Behr (Nikolaus von Behr) é o exemplo de como a poesia pode dialogar com uma cidade. No caso, Brasília. Mesmo nascendo em Cuiabá, Mato Grosso, em 1958, tendo estudado o primário com padres jesuítas, em Diamantino-MT, onde os pais eram fazendeiros, e mudado-se para a capital aos 10 anos, não há nada de Brasília que não esteja impregnada na sua literatura. Gosta de lembrar que, morando em Brasília desde 1974, lançou seu “ best seller” Iogurte com Farinha, quando da morte de Elvis Presley, exatamente um ano após a morte de Juscelino Kubitschek. De mão em mão vendeu 8.000 exemplares. Também gosta de lembrar que, em 1978, após lançar Grande Circular, Caroço de Goiaba e Chá com Porrada, foi preso pelo DOPS por “ posse de material pornográfico” (na verdade, também por suas atividades políticas no movimento estudantil), sendo julgado e absolvido no ano seguinte. Voltou a publicar sua poesia regularmente na década de 90 e nos últimos anos, vem alcançando reconhecimento nacional pelo seu trabalho que, muitas vezes, superar as fronteiras da “província” Brasília. Esta entrevista foi realizada via e-mail, em 2004 e estava inédita até hoje. Às vezes, encontro Nicholas Behr pela UnB, onde ele vai falar para os alunos de Criatividade e Comunicação. Tem três fihos: Erik, Klaus e Max.
Entrevista
Entrevista Com Nicholas Behr
1. Para os místicos a palavra é uma evocação divina, para a filosofia uma só palavra pode ser um conceito, para a literatura a mesma palavra pode ser uma metáfora. Afinal, quantas são as faces de uma mesma palavra? "Que realidade é a palavra?
A palavra é a nossa matéria-prima. A palavra é o resultado concreto da emoção. Ave palavra! os que vão te pronunciar te saúdam! O poeta usa a mística da palavra para se auto-mistificar. Poeta é craque nisso
2. No livro da poetisa Laura Cerrato, "Contemplación del silencio" a palavra aparece como o reverso, a outra face da contemplação (discreta, anônima,
ausente) do mundo. Será que até mesmo o silêncio para existir necessita a palavra?
Silêncio às vezes é resposta. Interessante essa perspectiva, da palavra muda, da palavra calada. Da palavra inexistente, sem uso.
3. "La palabra acompaña al hombre,/como el ladrido al perro/ o el aroma a la flor. / Pero a quién acompaña el silencio?" (R. Juarroz, Octava poesia
vertical, # 46). Palavra e silêncio acompanham-se mutuamente, ou já não há mais espaço para o silêncio neste mundo?
Belo poema. Nunca conseguiria escrever um assim, pois o silêncio da palavra dele é diferente do silêncio da minha palavra. Há espaço para o silêncio sim,
nos espaços selvagens não ocupados pelo homem, nos pólos, na floresta amazônica, nos grandes desertos. È lá que reina o silêncio!
4. O silêncio é também um tema vivamente presente na tua poesia. Nela, como funciona essa relação (palavra-silêncio)?
Discordo. Não acho que o silêncio seja um tema muito presente na minha poesia. Ultimamente tenho editado meus livros com letras estouradas, quase sangrando a página, querendo falar, extrapolar, entende? Minha poesia é quase um grito!
5. "A poesia é a urgência de quem não tem nada a esperar" diz um verso do poeta Fabrício Carpinejar, exposto em reportagem recente. Você concorda com
ele, qual a tua definição de poesia?
Poesia é refugio. Poesia é quarto escuro. Poesia despressuriza. Poesia é tudo isso que você está sentindo agora.
6. Que conhecimento possui a poesia, qual a inteligência da poesia?
A inteligência da poesia está na sinceridade da emoção do poeta. Na coragem do poeta, mais que na criatividade, nos malabarismos verbais. A inteligência da
poesia está no olhar do poeta-criança, que tudo vê, que tudo sente.
7. Toda poesia possui intrínseca uma sabedoria?
A poesia traz dentro de si tradições milenares, mesmo quando há ruptura.Fato muito questionável. De Homero pra cá pouco mudou. Claro, mudaram
os comportamentos, a tecnologia de reprodução da informação, mas se formos ver no fundo, hoje produzimos pequenos anti-épicos, narrativas fragmentárias de um mundo em constante transformação.
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