| Filosofia
e Comunicação
Por Luiz Ribeiro
Ensaio sem Tema.
Saio da 63ª. Mostra do Cinema de Veneza. O cinema delineia histórias. Um roteiro de cinema pode ser definido como uma tentativa sistemática que ordena o futuro filme. Uma previsão que na prática se concretiza contendo a descrição, cena por cena, enquadramento por enquadramento, e soluções de problemas técnicos e artísticos previstos para a realização de um filme.
Non prendere impegni stasera1 ... o titulo já demarca o drama. No campo social o compromisso estreita relações de afectos. O que temos ou somos traz ao humano um vazio enorme desejantes do ritornello: direção, instalação/saída, isto é, sempre um agenciamento coexistente ou a contemporaneidade, um conceito empregado por Deleuze. O campo de desejos. Aí, tem contido um território que conjura o caos. Traça, habita, filtra o caos. Dentro, aqui no meu corpo, ao se desterritorializar filtra e distingui o caos nos múltiplos existentes do lado de fora.
Vemos que o corpo delineado no cinema, para quem o freqüenta, apresenta formas ‘reais’ ou fictícias. Na tela encontro um movimento real, uma duração concreta, um corte imóvel e tempo abstrato. Estes cortes instantâneos são o que chamamos imagens; um movimento ou um tempo impessoal. Em A Evolução Criadora, Bergson baliza a formula: a ilusão cinematográfica2.
O que pode um corpo... Sempre terá alguma resposta para tudo ao saber que há uma finitude. A finitude no corpo pode ser o momento da morte como também o corpo pode ter finitude nas suas relações com os pensamentos. Ocorre que entre o nascimento e o instante da finitude, no meio, há uma infinidade de acontecimentos contraindo seus ritornello. A infinidade não se opõe a finitude. Ser no presente é somente um acontecimento do passado.
Numa crise de dor profunda, Deleuze uniu-se a finitude e trouxe o acontecimento para a infinidade... Um caráter do Dasein3 . Pulou da janela da clinica onde estava. Noutras linhas, Deleuze situou no fio da navalha o kairós4 , uma decisão que faz parte da plenificação da vida que não pode ser objetivada5 . Vemos em Heidegger que a questão do ser está ligada a facticidade, ao sentido do ser. Eu sou, eu sou, eu sou. A intensidade da dor sentida num corpo, não pode ser dimensionada pelo outro, é fenomenológico. Não há uma imagem possível que exemplifique a intensidade do sentido da dor para se fazer compreendê-la na unidade de outro corpo.
A personagem, Pietro, descobre ter um tumor no cérebro, isso o levará a fazer as contas consigo mesmo e com sua solidão. Ele cria sua filha sozinho. Uma menina meiga, centrada, que na pequenez inocência não pode entender por que o pai vive só. Cinzia, amiga de longa data de Pietro, o encontra para sair, conversar, fazer amor, questioná-lo ou ouvi-lo. São amigos, livres, e independentes. Somente para ela Pietro diz não querer morrer quando descobre a terrível doença. O titulo do filme se relaciona na historia de Pietro.
Muitas outras histórias se entrelaçam na mesma película: Tem o claustrofóbico, que não consegue conquistar a amada seu objeto platônico que trabalha andares acima na mesma instituição, por se sentir incapaz de entrar no elevador. Um executivo culto e consagrado, casado, vivendo o conflito para sair do ultrapassado conceito de casamento para assumir seu amor por uma jovem, com sentimentos verdadeiros e que não deseja uma relação dividida. Um professor universitário consumido por si mesmo e as teorias sociais, literárias, revolucionárias... Entre outros. Recorto para refletir um pouco, Pietro.
No ensaio da relação do corpo com o espírito, ‘Matéria e Memória’, Bergson, apresenta quatro teses. O papel do corpo, na seleção das imagens para representação, é a primeira tese. Sobre o corpo as imagens agem e reagem de acordo com as leis naturais. No entanto há uma que prevalece por dentro, mediante afecções: ‘é meu corpo6 ’. Este corpo intercala estímulos que recebo de fora e movimentos que vou executar. Por intermédio de ‘certas imagens particulares, cujo modelo me é fornecido por meu corpo’.
Temos muitas vidas no entre espaço da infinidade para que a finitude do corpo perceba, a cada instante, o movimento integrado do próprio corpo. É a nossa condição. Pietro encontra com Cinzia, que o questiona sobre aquele encontro depois de algum tempo sem contato, e ignora-o naquele momento e o que ele tem a dizer. Ela calcula imediatamente que o tempo que une suas relações é para o sexo, e alguns debates, e que aquele momento, está muito ‘ocupada’ para ouvi-lo.
Na perspectiva das modulações da aparência (moda, espetáculo, teatralidade, publicidade, cinema, televisões) um conjunto significativo forma a necessidade de uma reflexão. Então, posso fazer um ensaio sem tema ter uma forma com alguma matriz formadora. Impregnando a modulação da cinematografia, encontrar na diversidade de um roteiro, um conjunto de elementos possíveis para cortar e apresentar uma reflexão que também integra, em parte, meu conflito no conjunto da vida social sempre feita por imagens. O epistemológico recortado do elemento causador de uma aparência poderá vir a ser aquele corpo que apresentou a imagem na tela do cinema.
Momento do movimento na real
- ‘Não tenho mais vinte anos’. A resposta oferecida por Pietro poderia estar relacionada à idade e à intensidade do corpo que se descobre na necessária demasia do sexo, o melhor do prazer humano que nos localiza na existência. Também podemos relacionar a afirmação da resposta, ao movimento real do corpo à duração concreta sua num futuro não - devir corpo, por saber que não haverá mais vinte anos para existir.
Jamais saberemos quando se fechará o ciclo da vida, o instante da finitude física. Mesmo ao saber que há um tumor instalado no corpo, o desenvolvimento deste tumor poderá ou não chegar ao seu ápice e o organismo não resistir, lutar e sucumbir. Foi uma afirmação cientifica médica, que balizou a realidade ou a idealidade do mundo exterior. Neste conflito, Pietro afirma para sua amiga que não quer a morte.
O amor? Apenas fio condutor que une a existência de pessoas diversas. Amor que acaba que começa que não volta mais, que se nega, que sonha, que para de desejar. Na vida o amor morre, adoece, envelhece, tenta salvar-se. De qualquer maneira o amor valerá. O que acompanha o ser-no-mundo como uma das muitas formas. As aparências modulares na imagem que o corpo projeta no social são experimentos das muitas formas existentes que temos para o fenômeno no sentido do ser.
Para sua filha, Pietro não revela o que está modulando sua afecção. Ela não teria a compreensão da finitude no seu momento infância. Na madrugada em casa, Pietro sentado, abre uma caixa onde parte de sua memória está contida: cartas, fotografias de amigos, suas fotos na juventude, bilhetes amorosos, pequenos objetos da lembrança de outrora, enfim, memórias. Ele revê tudo que guardou e vai rasgando e jogando ao chão.
Tempo abstrato
A imagem que contorna sua memória se tornou indiferente. Elas não são mais um espelho. Foucault denominaria heterotopia, isto é, experiência de união ou mistura análoga à do espelho. O espelho é uma utopia, uma vez que é um lugar sem lugar algum. Irreal, aberto do lado de lá da superfície. Uma sombra que me dá visibilidade7 . As heterotopias estão ligadas a pequenos momentos, num espaço publico ou privado, sempre projetado com o pensamento. Num fim de tarde, sento-me acompanhado de um (a) amigo (a) no café, e relato naquele presente o passado vivido no trabalho daquele dia, minha relação com minha casa e estou na rua, por exemplo. Para Pietro ao rever seus momentos guardados numa caixa, uma heterotopia de desvio escolhida foi viver mesmo com a opção solitária ‘conforme ordenou os poderes crescentes ou decrescentes8 ’ na dimensão do seu corpo.
É a pequena filha que o traz a redimensionar sua existência, quando adentra a sala e vê Pietro rasgando as lembranças do seu campo de afecções. Ela questiona o que ele faz e tem como resposta que ele está jogando fora suas ‘coisas’. Uma réplica imediata se afirma quando ela o faz lembrar que ele nunca foi ‘capaz de jogar nada fora’. Pietro contra-argumenta que há um momento que precisamos escolher e decidir o que queremos como lembrança.
Cortes imóveis
O executivo culto resolve separar-se da mulher. Viver à sua decisão ao lado da jovem. Eles vão caminhar e namorar nas margens da baía. Ela, sempre disposta, encontra um pedalinho abandonado e resolve remar ao lado dele, tranqüilos, contemplativos, de muito longe observam a cidade e o fim da tarde que cai para o anoitecer. O objeto não suporta o peso dos dois, parte-se ao meio, ele não sabe nadar e morre afogado. Na noite ela e o corpo morto são resgatados. Ela passa a conviver e saber da finitude e a dor ao lembrar o que viveu do grande amor, bem maior, talvez, que a idade que os separavam no tempo. A dor pode ser uma espécie de morte na vida. Não há uma imagem para a dor, na unidade do individuo, há um sentir pela experiência do Dasein. A finitude contida na infinidade do presente é duração para uma lembrança. O executivo ao lado dela ouvia criticas sobre as sombras que ele projetou no espelho da insegurança, ao rever seu espírito viveu um puro jogo encontrando um sentido para amar e reivindicar de si mesmo as mudanças que o amor impõe.
Sobre a maca, Pietro é conduzido à sala de operação, e no corredor vê Cinzia na ante-sala e se despedem com um olhar sereno. O espectador faz uma relação com o acidente anterior. O outro sentido do jogo da imagem que sempre remete a uma próxima seqüência da imagem. O cirurgião, ao colocar a máscara de oxigênio, lembra-o para não marcar nenhum ‘compromisso para esta noite’.
Nesse momento, na casa de Pietro, a filha tem no antebraço muitos pedacinhos de fita adesiva. Calmamente junta e cola o que antes fora mundo-todo do pai, ora rasgado, ora espalhado pela sala.
Monta um quebra-cabeça. Um espírito fantasista joga no extremo limite entre a brincadeira e a seriedade. A menina brinca montando um mosaico, a bricolagem está inteiramente marcada pelo jogo, cria outro mundo, um mundo poético, ao lado da natureza da morte. Sua ratio reside numa camada muito mais profunda, na representação do pai. Com o fragmento ela reúne a linguagem primeira que o homem a fim de poder comunicar, ensinar e comandar, o permitiu distinguir as coisas ao domínio do espírito. É no mito e no culto que tem origem a grande força instintiva da vida civilizada9 . Veremos em Bergson que o cérebro faz parte do mundo material, não o contrário. Corpos semelhantes ao meu, na configuração dessa imagem particular eu chamo meu corpo . Meu pai está na imagem do meu corpo10.
Cinzia aguarda fora da clinica a saída de Pietro. Ele se aproxima e ela diz que ele, careca, está mais jovem e parece Genghis Khan, e poderiam fazer algo de bom juntos... Algo que sempre fizeram.
Duração concreta
Entretanto é consigo que Pietro deve encontrar-se. Todos nós temos algum ponto para rever nas imagens a causa das afecções que se produzem. Está na ação do corpo destinado a mover objetos. Objetos sempre externos entre estímulos que recebo de fora e movimentos que vou executar.
Na calçada sob uma ponte muito alta que liga as margens do rio que corta a cidade, alguém pula para o suicídio. Pietro vê o ato final de uma vida... Assim foi a sua ao rasgar lembranças materiais e memórias. O instinto de se preservar com a pulsão da vida se opõe à pulsão de morte. No impulso instintivo ele mergulha para retirar o corpo que agoniza ainda na superfície e o traz para a margem. Onde sempre estamos contornando a morte que não desejamos. Sem fôlego, sem se saber possível, descobre ao salvar um desconhecido que ele existe além do determinismo da morte, da dor e da solidão.
Na calçada sob uma ponte muito alta que liga as margens do rio que corta a cidade, alguém pula para o suicídio. Pietro vê o ato final de uma vida... Assim foi a sua ao rasgar lembranças materiais e memórias. O instinto de se preservar com a pulsão da vida se opõe à pulsão de morte. No impulso instintivo ele mergulha para retirar o corpo que agoniza ainda na superfície e o traz para a margem. Onde sempre estamos contornando a morte que não desejamos. Sem fôlego, sem se saber possível, descobre ao salvar um desconhecido que ele existe além do determinismo da morte, da dor e da solidão.
Pietro passa a desafiar a vida e, junto com a filha, vai praticar mergulho vertical em alto mar. Resiste e experimenta sem tanque de oxigênio o que pode um corpo. Essa é a imagem final.
O diretor apresenta na ilusão cinematográfica uma reflexão do sentido do ser. Afirmo que as aparências modulares na imagem apresentada são experimentadas de formas diferenciadas. Aqui minha leitura, ou melhor, meu compromisso esta noite foi marcado. Fim
Dezembro, 2006. Luiz Ribeiro
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1O título traduzido foi:"Não marque compromisso esta noite". Direção Gianluca M. Tavarelli.
Roteiro: G.M.Tavarelli. Itália, 2006, 35mm, Cores. Duração 96'
2Deleuze,Gilles. Cimenma: a imagem-movimento. São Paulo, Brasiliense, 1985.
3O único ante que compreende ser - o homem. Dasein é estar-ai é ser-no-mundo.
4Conceito de instante, ligado ao conceito de situação. Os caracteres cairológicos não
calculam nem dominam o tempo; situam antes na ameaçã, através do futuro.
5Stein, Ernildo. Seis estudos sobre "Ser e Tempo" de Heidegger. Rio de Janeiro, Vozes, 1988. 6Bergson, Henri. Matéria e Memória. São Paulo, Martins Fontes, 1999.
7Foucault, Michel. De outros espaços. Conferência em 14 de março de 1967, no
Cercle d'Études Architecturales.
8Bergson. Idem, p.15.
9Huizinga, Johan. Homo Ludens. São Paulo, Perspectiva, 2004. 10Bergson. Idem, p.13.
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